Somos uma família nordestina de muitos irmãos, somos tantos que meu pai quando quer chamar por um de nós ele fala o nome de pelo menos cinco pra acertar um, ele grita: Chico, Toin, Jorge, Juscelino, Januáro. E ele queria falar só com Januário, mas é que confunde mesmo. Somos aquele tipo escadinha.
Nosso irmão quase o derradeiro e muito dengoso, é o Zé Pêdo, mas a gente o chama só de Zezin. Pense num meninozin chato, metido a sabedor de tudo quanto há, implicante que só fí de açougueiro e dedo duro que só vizinho de parteira. É ele. Como diria uma prima minha lá de São Luis. “Ele é muito antipático, passa o tempo me chateando”.
Uma vez, meu pai viajou e deixou um recado que era pra gente assim que chegasse da roça, tomar banho rapidinho e ir pra igreja lá na cidade, por que ia ter um pregador de fora e a gente tava precisando ouvir umas palavras pesadas, pra ver se melhorava. Hum! Ainda fomos! A gente foi, foi jogar bola, já chegamos com um time completo. Má rapá, o pai não tava lá mesmo.
Sabendo como Zezin tinha a língua grande, demos um arrocho nele. Meu irmão do meio desse pra ele: ”Eu vou arrancar tua orelha se tu disser pro pai que nós fomos jogar bola”. Ele fez uma cara tão lerda que eu já sabia que aquele covarde iria entregar a gente.
Meu amigo, o pai voltou no outro dia, mas antes mesmo do pai descer da burra, Zezin já foi contando: – Painho, nenhum dos meninos foi pra igreja, eu fui sozinho naquela escuridão e eles é que perderam porque o pregador falou só sobre eles, parece até que conhecia as peças e eles lá no campinho jogando bola até…, sem falar que falaram que iriam arrancar minha orelha se eu contasse pro senhor. Humm! Fofoqueiro infeliz. Painho nem pensou. Chamou um por um, e foi só chegando menino. Moço, mas ele deu uma surra com cipó de goiabeira (ele entorta, mas não quebra, e dóóóiiii), mas bem dada que eu tenho marca dessa surra até hoje.
Outra vez ele inventou um sonho dizendo que ele é era um monte de capim que ficava em pé e a gente também era capim , mas a gente ficava ao redor como que servindo e dependendo dele. Pode um cara desse?
Nosso pai não escondia que gostava mais dele e ele era inteligente mesmo, mas era muito chato e ainda inventava essas história pra aporrinhar a gente. Um dia painho mandou todo mundo pra roça inclusive Zezin, o Chato. Meus irmãos queriam era matar de tanta raiva que a gente tinha dele, mas eu como mais velho sugeri que a gente mandasse ele pro Goiás com uns cabras tropeiros, só que antes todo mundo deu pelo menos um coque (cascudo) de conforça mesmo. Aí inventamos (eu) pro pai, uma história de ele havia sido mordido de cobra e que quando o achamos umas caças já o haviam comido, a gente só enterrou o restante pra ele não ver aquilo. Foi assim na cara dura mesmo. Levamos só a camisa veia dela toda rasgada. Mas deu dó de ver o pai chorando daquele tanto, três dias sem parar, fazer o que? Ninguém iria desmentir né?
O Tempo passou e painho Já tava velho, mais de cem anos. A gente pensava em fazer uma festa pra ele, mas o sertão secou de tal forma que só sobrou a gente por aquelas bandas, saímos no mundo pra buscar alguma coisa, sei lá, trabalhar em qualquer coisa. Até que encontramos um doutorzão famoso, foi o único que arrumou algo pra nós. Ele gostou tanto que mandou chamar nosso irmão casula e até o pai que nunca tinha atravessado nem o Tocantins, pense numa labuta pra tirá-lo de lá. Pois foi. Agora é o seguinte: esse povo de cidade grande não é que nem nós não, eles são desconfiados, o doutor só deixou eu voltar pra buscar o velho. Os meninos tiveram que ficar como garantia. Se bem que ele já era como um segundo pai pra nós, se ele arrotasse a gente gritava: – Saúde doutor! Do tanto que a gente gostava dele. Ora! Foi ele quem acolheu a gente.
Um dia tava todo mundo reunido, e aí chegou um recado de que o doutor tava muito nervoso e queria falar urgente conosco. Quando eu vi que o doutor tava chorando e tremendo. Eu pensei logo na besteira que um dos meninos poderia ter feito, eles andavam meio estranho mesmo, e tem dois deles que são namoradores que só a peste e não é por que são meus irmãos não, mas na conversa dos meninos se não cair, é porque morreu em pé. Eu já tava preparado pro pior. O doutor enxugou a cara, ficou em pé e a gente em volta dele de cabeça baixa, pensando todo tipo de besteira do mundo. 30 anos de cadeia era o pensamento mais fraco. Aí ele falou: - Meninos, cadê Rubem o mais velho de vocês? Ê medo da moléstia! Eu disse:
- Tô aqui doutor.
- Rubem, você e seus irmãos não estão entendendo nada, mas a verdade é que eu não consigo mais guardar segredo, eu sou Zé Pedro, Zezin o irmão de vocês, aquele que vocês pesaram até em matar e resolveram me vender como peão. Saibam que tô muito feliz em ver vocês e que não guardo nenhuma mágoa de ninguém e quero que vocês e o pai fiquem aqui comigo.
Ê choradeira arretada! Ele ao centro, em pé e nós ali ao redor dele, ajoelhados como no sonho.
Um xêro pra quem gosta da gente.
Rubão

Você já andou de coletivo? Eu descobri que a molecada lá em casa mesmo sendo filho de pobre nunca andou de coletivo. Então resolvi perguntar pra um guri lá da Comunidade se ele sabia o que era andar de coletivo. A resposta: – É andar em grupo tio?
Esse final de semana realmente foi pra lá de cem, foi tanta coisa boa que teria que matutar as idéias pras escrevê-las numa ordem ou então citar algumas de forma aleatória, e, é o que eu vou fazer agora.
Todo mundo já deu ou pegou uma carona.
Ja faz um tempo, talvez uns 30 anos. Eu me deparei com uma situação embaraçosa. Minha mãe por uma razão que não me lembro e acredito sem dúvidas que estava cheia de razão, ficou muito nervosa comigo e disse quase que gritando na frente dos meus amigos


