10
jun

Zezin o chatinho lá de casa

   Postado por: Rubao   em Papo aberto,       

Somos uma família nordestina de muitos irmãos, somos tantos que meu pai quando quer chamar por um de nós ele fala o nome de pelo menos cinco pra acertar um, ele grita: Chico, Toin, Jorge, Juscelino, Januáro. E ele queria falar só com Januário, mas é que confunde mesmo. Somos aquele tipo escadinha.

Nosso irmão quase o derradeiro e muito dengoso, é o Zé Pêdo, mas a gente o chama só de Zezin. Pense num meninozin chato, metido a sabedor de tudo quanto há, implicante que só fí de açougueiro e dedo duro que só vizinho de parteira. É ele. Como diria uma prima minha lá de São Luis. “Ele é muito antipático, passa o tempo me chateando”.

Uma vez, meu pai viajou e deixou um recado que era pra gente assim que chegasse da roça, tomar banho rapidinho e ir pra igreja lá na cidade, por que ia ter um pregador de fora e a gente tava precisando ouvir umas palavras pesadas, pra ver se melhorava. Hum! Ainda fomos! A gente foi, foi jogar bola, já chegamos com um time completo. Má rapá, o pai não tava lá mesmo.

Sabendo como Zezin tinha a língua grande, demos um arrocho nele. Meu irmão do meio desse pra ele: ”Eu vou arrancar tua orelha se tu disser pro pai que nós fomos jogar bola”. Ele fez uma cara tão lerda que eu já sabia que aquele covarde iria entregar a gente.

Meu amigo, o pai voltou no outro dia, mas antes mesmo do pai descer da burra, Zezin já foi contando: – Painho, nenhum dos meninos foi pra igreja, eu fui sozinho naquela escuridão e eles é que perderam porque o pregador falou só sobre eles, parece até que conhecia as peças e eles lá no campinho jogando bola até…, sem falar que falaram que iriam arrancar minha orelha se eu contasse pro senhor. Humm! Fofoqueiro infeliz. Painho nem pensou. Chamou um por um, e foi só chegando menino. Moço, mas ele deu uma surra com cipó de goiabeira (ele entorta, mas não quebra, e dóóóiiii), mas bem dada que  eu tenho marca dessa surra até hoje.

Outra vez ele inventou um sonho dizendo que ele é era um monte de capim que ficava em pé e a gente também era capim , mas a gente ficava ao redor como que servindo e dependendo dele. Pode um cara desse?

Nosso pai não escondia que gostava mais dele e ele era inteligente mesmo, mas era muito chato e ainda inventava essas história pra aporrinhar a gente. Um dia painho mandou todo mundo pra roça inclusive  Zezin, o Chato. Meus irmãos queriam era matar de tanta raiva que a gente tinha dele, mas eu como mais velho sugeri que a gente mandasse ele pro Goiás com uns cabras tropeiros, só que antes todo mundo deu pelo menos um coque (cascudo) de conforça mesmo. Aí inventamos (eu) pro pai, uma história de ele havia sido mordido de cobra e que quando o achamos umas caças já o haviam comido, a gente só enterrou o restante pra ele não ver aquilo. Foi assim na cara dura mesmo. Levamos só a camisa veia dela toda rasgada. Mas deu dó de ver o pai chorando daquele tanto, três dias sem parar, fazer o que? Ninguém iria desmentir né?

O Tempo passou e painho Já tava velho, mais de cem anos. A gente pensava em fazer uma festa pra ele, mas o sertão secou de tal forma que só sobrou a gente por aquelas bandas, saímos no mundo pra buscar alguma coisa, sei lá, trabalhar em qualquer coisa. Até que encontramos um doutorzão famoso, foi o único que arrumou algo pra nós. Ele gostou tanto que mandou chamar nosso irmão casula e até o pai que nunca tinha atravessado nem o Tocantins, pense numa labuta pra tirá-lo de lá. Pois foi. Agora é o seguinte: esse povo de cidade grande não é que nem nós não, eles são desconfiados, o doutor só deixou eu voltar pra buscar o velho. Os meninos tiveram que ficar como garantia. Se bem que ele já era como um segundo pai pra nós, se ele arrotasse a gente gritava: – Saúde doutor! Do tanto que a gente gostava dele. Ora! Foi ele quem acolheu a gente.  

Um dia tava todo mundo reunido, e aí chegou um recado de que o doutor tava muito nervoso e queria falar urgente conosco. Quando eu vi que o doutor tava chorando e tremendo. Eu pensei logo na besteira que um dos meninos poderia ter feito, eles andavam meio estranho mesmo, e tem dois deles que são namoradores que só a peste e não é por que são meus irmãos não, mas na conversa dos meninos se não cair, é porque morreu em pé. Eu já tava preparado pro pior. O doutor enxugou a cara, ficou em pé e a gente em volta dele de cabeça baixa, pensando todo tipo de besteira do mundo. 30 anos de cadeia era o pensamento mais fraco. Aí ele falou: - Meninos, cadê Rubem o mais velho de vocês? Ê medo da moléstia! Eu disse:

- Tô aqui doutor.

- Rubem, você e seus irmãos não estão entendendo nada, mas a verdade é que eu não consigo mais guardar segredo, eu sou Zé Pedro, Zezin o irmão de vocês, aquele que vocês pesaram até em matar e resolveram me vender como peão. Saibam que tô muito feliz em ver vocês e que não guardo nenhuma mágoa de ninguém e quero que vocês e o pai fiquem aqui comigo.

Ê choradeira arretada! Ele ao centro, em pé e nós ali ao redor dele, ajoelhados como no sonho.

Um xêro pra quem gosta da gente.

 

Rubão

15
mai

Programa Plataforma

   Postado por: Rubao   em       

Esta semana no Plataforma:

Rubão canta - Nordestinamente

www.plataforma.art.br

30
abr

Eu topei com Jesus

   Postado por: Rubao   em Papo aberto,       

Mas quem ainda não topou se deparou ou se encontrou com Jesus? Todo mundo de alguma forma, ou da sua maneira diz que já encontrou Jesus.

 Na minha faculdade tinha um professor que dizia que Jesus pra ele era aquela mesa no centro da sala. Tinha umas crentes na turma que ficavam enfurecidas e queriam provar que aquilo era um absurdo e tal. Nunca provaram. Até porque segundo o cristianismo quem faz esse convencimento é a terceira pessoa da Trindade e não os crentes.

Eu por exemplo posso dizer sem estar mentindo que sou sobrinho de Jesus, e explico: Meu avô resolveu colocar no seu primeiro filho, irmão mais velho da minha mãe o nome de Jesus Rodrigues. Sou ou não sou sobrinho…? Mas a família não se contentou e outro tio colocou o nome do filho dele de Jesus Almeida. Posso concluir então que sou sobrinho e primo de Jesus, e isso não é segredo não, ta tudo registrado lá na região de Pedreiras no interior do Maranhão. Mas há que foi mais longe e por se achar enxuta e poderosa resolveu namorar com um tal Jesus, o Luz, e namorou. E se você acha que já viu tudo eu vou provar que ainda tem mais.

Semana passada, fui com a primeira dama a uma grande loja de conveniências comprar umas luminárias, e entre muitas novidades, lançamentos, abajus exóticos, chuveiros de última geração, etc. Eis que surge em minha frente o inusitado com sua roupa de época cercado por uma equipe de seis ou sete pessoas formada por um homem e o restante de mulheres todos usando sandálias de couro (sem poeira), um vestido longo azul claro tipo chambre: existe ainda isso? Alguns usam um gorrinho de crochê branco, outros uma bolsinha cruzada no peito tipo aquela de Davi pra colocar pedrinhas. Também não passava despercebido o padronizado corte de cabelo sem estilo, ou melhor, com o estilo “vaca lambeu” e ao cento e a frente ele, Inri Cristo, o próprio. Eu sinceramente não acreditei que era ele, bem ali na minha frente, pertinho de mim, caminhando humildemente, falando com os seus… Pensei até em pedir-lhe uma graça: Que ele pagasse as minhas compras. Pensei também em apertar-lhe a mão pra ver se sentiria algo sobrenatural ao tocar-lhe, mas me contive e resolvi seguir-lhe de longe pelos corredores e prateleiras da loja com fez Pedro e pode ter certeza: Eu o negaria mais de três vezes.

Bruscamente ele parou e eu me senti como quem estava sendo visto ou percebido, como a mulher do fluxo de sangue em meio à multidão. Muitos o olhavam, mas ele se virou e veio em minha direção, então me senti um Zaqueu a um trís de ser convidado a descer depressa. Eu até ensaiei uma disfarçada, mas a virada foi muito brusca e todo o cortejo caminhava após o líder rumo a este pobre mortal. Acredite se quiser, mas naquele salão havia algo entre nós mais importante que eu, bem ali a cerca de três metros estava algo que pra meu alívio e um pouco de decepção. Nem sei como explicar isso. Fato é que ele não tinha nenhum recado pra mim, seus olhos azuis como no original (de Hollywood) se sensibilizaram por uma simples e humilde banheira de hidromassagem de quase R$ 4.000,00. Ôoou! Perder pra uma moça bonita ainda vai, mas pra uma banheira…

Este cidadão de aproximadamente 1,86m, cabelos longos encaracolados, pele clara e que gosta de comparar sua cara com a do Santo Sudário, chama-se Inri Cristo, e atualmente mora em Brasília. Tinha que ser né? Até aí tudo bem, mas o que o diferencia de fato dos “outros” é que ele afirma ser o filho de Deus, aquele que veio ao mundo nascido da virgem Maria em uma manjedoura em Belém da Judeia, ele se diz “O Emissário do Pai”, revela que é Jesus, aquele que morreu na cruz e hoje reencarnado tem nova missão na terra, olhem o que ele fala em seu site:

“Há dois mil anos, como vim na condição de redentor, resgatei os pecados que a humanidade cometera por minha culpa até a crucificação. Quem pecou depois pecou por conta própria e terá que responder pessoalmente por seus atos. Agora que meu PAI reenviou-me como juiz, à exceção dos que vêm à minha presença pedir perdão enquanto estou no período da reprovação, julgarei cada um de acordo com suas obras. Portanto, não será possível perdoar os pecados de todos; um juiz que só perdoa promove a injustiça e estimula a delinqüência (’Eu, aos que amo, repreendo e castigo. Tem, pois, zelo, e faze penitência’ – Apocalipse c.3 v.19)”.    

E continua:  “Para quem vende meu nome antigo (Jesus), é muito fácil sair por aí dizendo: ‘Jesus faz milagre’, ‘Jesus cura’, quando na verdade quem cura e faz milagre é DEUS. Estes são os falsos profetas cuja vinda eu previ há dois mil anos: ‘Orai e vigiai, que ninguém vos engane, porque falsos cristos e falsos profetas virão em meu nome, farão prodígios e enganarão a muitos.”   

Se eu fosse louco, diria que sou sobrinho de Jesus, e primo de Jesus, e que me encontrei face a face com Jesus Cristo o filho de Deus reencarnado e em Brasília. Mas com eu não sou louco, fico apenas com as duas primeiras afirmações.

Um xêro pra quem gosta da gente.

Rubão

25
fev

Pérolas do Coletivo

   Postado por: Rubao   em       

Você já andou de coletivo? Eu descobri que a molecada lá em casa mesmo sendo filho de pobre nunca andou de coletivo.  Então resolvi perguntar pra um guri lá da Comunidade se ele sabia o que era andar de coletivo. A resposta: – É andar em grupo tio?

Andar de coletivo pra quem não sabe é andar de ônibus, desses que circulam pela cidade. Perece brincadeira né? Mas quer ver uma coisa – Qual foi a última vez que você andou de coletivo? Pra quem faz muito tempo, a resposta geralmente começa com “Já faz um tempão, mas foi um tempo de muita ralação” e termina com “Bons tempos que não voltam mais”.

Outro dia andando num coletivo e não estava muito cheio, percebi que o motora do dia, não era um cara comum, além de dar sempre uma meia freiada e duas buzinadas pras gatinhas do outro lado rua, o cara usava um óculos de surfista bem extravagante, acho que a cor era amarelo queimado. Há um padrão de uniforme nas empresas de ônibus que é calça preta e camisa azul tipo bata, mas nada que impedisse o motora de usar por baixo e quase que cobrindo todo o uniforme uma camisa de artista, mas artista de verdade lembrando Alípio Martins, Lindomar Castilho, Bartô Galeno ou mesmo Raimundo Soldado (só alguém muito desatualizado pra não conhecer esses ícones da música brasileira) lembrei até de um artista lá da Anápolis que ficou famoso com a música “O seu gato é gay” Seu nome era Ailton José, nome artístico claro, mas ele passou pra lei de crente e como teve uma mudança profunda e  tornou-se um artista de Deus resolveu também mudar de nome, hoje ele é o cantor José Luis, o ex- Ailton José. O cabra cristão é criativo né não?

 Voltando ao motora, ele dirigia conversando com o cobrador, contando vantagem de mulheres sempre olhando no retrovisor e arrumando de cabelo que lhe cobria as orelhas, é impressionante o tratamento que ele dava pra cada moça que subia no ônibus, melhor ainda era a cara das moças depois do Olhar 46 dele, acho que elas não acreditavam. Ele não dizia nada, mas obviamente, se achava. O show saiu barato pra quem tava só assistindo, é como se seu motorista particular fosse um artista do rádio e da televisão.

Fui mais pro meio, e de repente um celular toca ao som de “Festa no Apê”, a moça atende e começa a conversar em voz alta. Ninguém tava a fim de saber da vida dela, mas ela não se tocava e contava tudo, de marido ciumento a visinha fofoqueira. Três coisa me chamaram a atenção: 1º- Por que eu não tenho tanto crédito no celular? 2º- Por que minha bateria não dura tanto? 3º- Graças a Deus eu não sou louco de ficar contando minha intimidade, por “horas”, pra todo mundo. Depois de um tempão de conversa fiada ela deu um  ”tchau…beijo”. Ufa! Agora estou livre pra pensar no que quiser, pensei. Três minutos depois…  “Vai ter festa lá no meu apê” Aí não, isso é tratamento. Fui lá pra trás e sentei quase na ultima cadeira.

De repente começou uma gritaria lá na frente, um susto em todo mundo, mas a paz veio quando percebemos que era um artista ambulante, o cara é muito bom. Depois de chamar a atenção com os gritos ele começou a provocar o motorista dizendo já o viu num programa de TV e começou pedir autógrafo e a pedir que a galera tirasse foto no celular dele ao lado do “artista” motora, além de procurar uma câmera escondida dizendo que devia uma pegadinha . Haha! Aí ele partiu pras imitações das meninas de cada cidade satélite andando em pé no ônibus, ele foi dos setores mais pobres até uma “Patricinha” do Lago Sul, a galera chorava da rir.

Não demorou e ele resolveu mexer com o povão e começou a a cantar e dançar paródias, depois inventou de senta no colo das pessoas, passar flanela na cabeça dos carecas (eu estava de boné) provocou todo mundo até se virar pro cobrador a dar um grito: Juvenal!! Haha! E continuou dizendo que tudo aquilo é pra chamar a atenção dele, que eles eram um caso antigo interrompido por ciúmes, mas ele deveria perdoá-lo. O cobrador não gosta nada, claro! Mas aí é que ele mexeu mesmo, a galera dando risadas e gritos, então, ele pede silêncio e diz bem alto: – Vocês devem estar duvidando de mim, mas eu provo que é verdade, querem ver? O coro unânime grita. Queremos! Ele continua: – Motorista mais galã de Brasília, se esse caso de amor é verdadeiro dê três buzinadas por favor. Haha!! O cara nem esperou e bip, bip, bip. Com essa até o cobrador caiu na risada.

Depois de muita brincadeira ele distribuiu seu cartão pra galera, pediu desculpas por qualquer coisa e disse que era um artista popular que trabalhava em festas de empresas, aniversários, rua, etc. e que sorrir faz bem pra alma, quem da risadas trabalha melhor, vive mais feliz, e que todos deveriam lembrar de agradecer a Deus por ter acordado, por ter um trabalho, uma familia e que as lutas são parte da vida, mas com fé em Deus a gente vence. A galera bate mais palmas e muita gente inclusive eu, colaborou com um real no chapeu que ele passou. Um cara só tinha duas moedas de vinte e cinco centavos e deu, ele perguntou:  – É só isso que vale o meu show seu infame, cinquenta centavos? Foi só mais uma brincadeira.  Ele agradeceu a colaboração é concluiu: – Pessoal, eu trabalho com essa arte de levar alegria há mais de 10 anos aqui em Brasília e graças a Deus o meu tão sonhado reconhecimento chegou, nesse domingo pela manhã eu estarei  às 10h na Globo quem puder me ver pra dar IBOPE eu… A galera interrompe a fala com mais salva de palmas.  – Calma gente, a Globo é uma loja de Materiais de Construção lá na Ceilândia. Fiquem com Deus.

Um xêro pra quem gosta da gente.

Rubão

15
dez

Pra lá de cem

   Postado por: Rubao   em Papo aberto

Esse final de semana realmente foi pra lá de cem, foi tanta coisa boa que teria que matutar as idéias pras escrevê-las numa ordem ou então citar algumas de forma aleatória, e, é o que eu vou fazer agora.

Viajei pras “Antas”, encontrei velhos e bons amigos, sobrinho sangue-bom, visitei um amigo que esteve  muito doente e se recupera de um derrame. Foi muito legal ver a satisfação dele ao nos receber, assistimos até ao DVD do Gregory Isaacs, jamaicano mestre do reggae.

Mas eu fui principalmente pra assistir ao casamento da filha de um amigo meu. Um cara gente fina, do tipo: “Todo mundo fala bem”. Que casamento bacana, vários carecas como eu, muitas pessoas bonitas, velhas amigas já não tão novas, o tempo não perdoa, sou testemunha viva disso. Ali, duas coisas interessantes me chamaram a atenção:

1- Um dos músicos do casamento, velho amigo meu, me chamou e depois do abraço me mostrou outro jovem músico e disse:  “ – Cara, ele ta doido pra te encontrar, tu não vai acreditar o que ele me falou… Quando ele era pequeno o pai dele pegava aula de violão na nossa Escola de Música e como ele gostava de desenhar na sua mesa enquanto esperava, você falou que pra ele ser um grande desenhista teria que ter além do talento uma assinatura de artista e criou uma pra ele. “O cara hoje é artista, pintor e usa a mesma assinatura que você ensinou.” 

Ainda não vi sua arte, mas to de cara até agora, to curioso e certamente vou conhecer melhor o trabalho dele. Meu batimento deve ter ido pra lá de cem.

2- O pai da noiva, meu amigo, visivelmente emocionado e não por menos, em sua fala entre outras coisas disse:  “ Essa é minha filha querida, a primeira, aquela que aprendi a trocar as fraudas, a dar banho, passar talquinho, aquela que me fez amar mais a Deus…” E Olhando pros olhos disse: Eu e sua mãe estamos muito felizes por esse momento, momento que não poderia ser imaginado, até porque eu vivo cada dia intensamente, não deixo que ansiedade do amanhã me tire a paz, mas preste atenção, de hoje em diante, depois de Deus, a pessoa mais importante, aquela que você deve amar mais nessa terra, não é sua mãe, não sou eu, ou as suas irmãs, família, você deverá amar ao seu esposo” E falou a mesma coisa pra ele.

 Foi de prender a respiração, um pai falar uma parada dessa não deve ser fácil. Estamos num mundo em que a frase imediata é: “esposo vira ex-, namorada vira  –ex, sogro vira –ex, cunhada vira –ex, mas pai, mãe, irmãos, não. Esse é o padrão da sociedade moderna onde casar é só uma etapa e a probabilidade de se separar é um fato considerável, e como.  Mas os padrões do meu amigo, pai da noiva, são outros, são profundos, na  cabeça dele essa possibilidade é zero, ele falava com plena convicção de que aquela união pública foi selada primeiro no céu.   Enfim, foi uma das coisas mais bonitas que já ouvi num casamento. Um cara pra lá de cem.

No domingo cedo, eu estava de volta a Brasília pro ensaio final do nosso Musical de Natal. Fizemos uma festa como eu gosto, eu e todo mundo lá da Comunidade. Nada de trenó, chaminé, neve, ursinho, “ Jingle Bells” e olha que eu tenho uma foto ao lado da placa, na esquina onde foi composta essa música nas proximidades de Boston, e tudo começou com corridas de trenós.

Nossa festa teve uma baita produção, até porque um maluco lá levou um caminhão do tamanho daqueles de entregas da Casas Bahia, hehe!! Cheio de equipamentos de som e iluminação, o cara é doido.

Fizemos questão de compor músicas com a nossa cara, com os mais variados sotaques brasileiros, com cavaco, violões, viola caipira, muita percussão e uma linguagem e cenário bem contextualizados pra contar e cantar nossa visão de Natal “O Jesus nascido em Belém (não do Pará, né Bio?) mas bem VIVO entre e em nós” Dessa vez foi tudo filmado e pretendemos futuramente dispor isso em DVD pra que outros usem esse material como ferramenta de propagação do nome do Mestre.

Nota dez pros mais de sessenta envolvidos no Musical que rolou no domingo a noite com direito a reapresentação na segunda, e casa cheia nos dois dias. Vocês não são dez, são pra lá de cem.

Domingo depois da primeira apresentação e da rodada do pizza na casa do diretor musical, cheguei em casa super feliz, tomei um banho e liguei a televisão. Oscar Niemayer estava sendo entrevistado. O homem que segundo um apresentador da Band é tão conhecido lá fora quanto Pelé, o gênio das curvas que segundo seu sobrinho, ficou muito feliz quando o médico liberou que ele voltasse a fumar sua cigarrinha (Cigarro cuja mortalha é um fragmento de folha de fumo. Aurélio), o cara que desenhou Brasília, a cidade que encanta o mundo por sua arquitetura, e avenidas e concretos e tesourinhas e a Catedral de Brasília, uma de suas melhores obras. Quem vem a Brasília não pode deixar de ir à Catedral e tem um macete curioso pra curtir a acústica da igreja: Duas pessoas, uma em cada extremidade da parede encostando o ouvido naquele pequeno vão à meia altura podem conversar cochichando a uma distância considerável sem que os outros ouçam.  Fiz isso com meu pai outro dia.

Na entrevista Oscar falou de muitas coisas. Do seu amor ao trabalho, da beleza fundamental das mulheres, de suas obras pelo mundo, etc. Confesso que sou fã da obra desse velhinho, mas quando o jornalista lhe perguntou:

- Você tem uma ligação muito forte com a religião através das belíssimas igrejas que você desenhou, eu te pergunto, você acredita em Deus?- Sem pestanejar ele disse:

- Eu não creio em nada, a ciência explica tudo, não me importo com quem crer, mas me contento com a ciência.

Alguém já escreveu “De que me adianta ganhar o mundo inteiro e perder a minha vida?” é uma referência a alma, para aqueles que crêem em Deus. O problema é que aqueles que crêem, sofrem com a incredulidade dos ateus. E não é só por sua fala, até porque aquele que não conhece é como o que não vê, e, é muitas vezes melhor que aquele que conhecendo faz uma “oração pedrosa” hipócrita, abençoando um dinheiro sujo.

Espero que o mestre da arquitetura tenha tempo e disposição pra conhecer o Senhor das linhas, das curvas, da arquitetura e da ciência. O Senhor da criação. Oscar acaba de completar 102 anos, ele também é um cara pra lá de cem.

Um xêro pra quem gosta da gente.

Rubão

26
nov

O Carona

   Postado por: Rubao   em Papo aberto

Todo mundo já deu ou pegou uma carona. 

Há uns três anos atrás viajando por esse mundão, bem longe daqui encontrei com um cara que segundo ele, eu lhes dei uma carona na minha moto DT 180 Yamaha, preta, 1984. Foi depois de um show em  Anápolis, isso já faz mais de 12 anos, ele tava indo embora, já era tarde, e eu ofereci uma carona. De um determinado ponto do percurso a casa dele pegava outro rumo, ele queria que eu o deixasse ali, mas  fiz questão de levá-lo, claro. Eu o conhecia só de vista, estávamos no mesmo evento e nem foi muita coisa numa cidade onde em 10 minutos você fugia de sua rota e voltava sem complicações. 

Pra mim não foi nada, mas pra ele foi muita coisa, até porque a pé seria uma boa caminhada, mas ele não esqueceu e fez questão relembrar o fato. O Cara hoje não é mais um rapazola, ta bem e  mora nos EUA.

Eu já peguei muita carona e dei também, inclusive pra quem não precisa. E isso é um grilo que eu tenho comigo faz tempo. Acho que desde menino isso me incomoda. Na saída do cursinho, do clube, da igreja a tendência das pessoas sempre foi de passar por aquele irmãozinho que ta no ponto de ônibus, dar uma buzinada e gritar – “Não esquece da reunião de quarta-feira” e ir embora, mas se o irmão que ta indo pro ponto é aquele que  por uma “fatalidade” teve que deixar o carro estragado no estacionamento da igreja e que de repente até tem outro carro em casa, mas não poderia sair em dois, claro, e que tem grana pro taxi e está esperando o próximo. Esse não fica sem carona, mesmo que o percurso aumente em 20 Km, ele irá sempre ouvir um – “Que isso, você faria o mesmo” E faria mesmo.

Outro dia voltando pra casa, contrariando todas as minhas opiniões sobre carona a estranhos, e isso é importante até porque em cidade grande não se deve nem receber carona quanto mais dar, é o fruto da violência desenfreada, mas passando pela saída de Lago Norte sentido EPIA em Brasília, tem um pedaço que não tem nada além de umas chácaras afastadas do lado oposto. Pois bem, um camarada andando vira-se e me da com a mão, eu passei só um pouco, mas freei e ainda dei uma ré.

- Entra aí.

-Com licença, bom dia!

- Tá indo pra onde? – Perguntei esperando que ele me disesse, a Rodoferroviária, que ficava a uns 5 km dali.

- Preciso ir pra Braslândia, mas qualquer lugar tá bom.

- E o que você faz à pé nesse meio de estrada?

- É que eu fui assaltado ontem à noite lá em Sobradinho.

- Sobradinho fica a uns 10Km pra frente, como você veio parar aqui?

- Eu estava vindo da casa dos meus pais e como fui assaltado, fiquei sem nada, passei a noite na rodoviária e hoje cedo saí à pé pela BR aí errei a estrada e entrei pra cá.

- Mas à pé pra Braslândia? Você trabalha de que? Você tem família?

- Eu tinha que fazer alguma coisa, ninguém quis me dar carona, muito menos dinheiro. Eu trabalho numa fazenda depois de Braslândia e tenho uma filha.

Num momento desses, você começa a pensar um monte de coisa, por exemplo: “Esse cara ta com conversa fiada, se ele tentar me assaltar eu devo reagir ou não? Afinal, ele não é tão forte” ou “Porque que eu fui parar pra um estranho?” ou   “Algo esta me lembrando os filmes:  A morte pede carona I e II, De carona com a morte  e Uma carona para o inferno.”. Misericórdia, ta amarrado!!

Eu falei que ele deu sorte, a probabilidade de alguém parar é pouquíssima, sem falar que poucos seguem pro meu destino, que é Taguatinga e é lá que fica a entrada pra Braslândia. Novamente me perguntei “Que que eu to fazendo que não despacho esse cara logo?” O cara tava com sono, com fome, sem grana e chegou a dar umas cochiladas rápidas.

Certo de que estava fazendo a minha boa ação do dia, sem sequer ter perguntado o nome dele, 25 minutos depois, parei e disse: – Aqui é a entrada, é só andar uns 150 m e esperar por ali, você deve conseguir uma carona. Ele me agradeceu, não me assaltou e fui embora vendo-o andando cabisbaixo pelo retrovisor. Cheguei em casa em menos de 5 minutos, já era quase 3h da tarde, almocei rápido e saí novamente, eu tinha uma gravação agendada à tarde, mas não tirava algumas perguntas da minha cabeça: “Porque eu não o trouxe pra almoçar em casa?” ou “Porque não o levei a um restaurante ali perto?” não me custaria mais que R$15,00 um almoço no Giraffas com direito a refrigerante e eu ainda poderia levá-lo à Rodoviária de Taguatinga de onde sai ônibus pra cidade dele, e que não deve ser caro.

Então, sensibilizado e tudo não passou de 15 min, resolvi volta lá onde o deixei disposto a me redimir, mas pra minha decepção ele não estava mais lá. Pense num cara desapontado! Perdi a chance de ser abençoado.

 O sábio Mestre já ensinava a seus seguidores: “Quando vocês dão cobertas ao que passa frio é a mim que vocês estão aquecendo, quando vocês dão comida ao que está faminto é a mim que vocês estão saciando a fome”.

Meu conselho é o seguinte: Não é aconselhável dar carona a estranhos, mas se você tiver esse privilégio, faça-o bem feito.

Um xero pra quem gosta da gente.

Some de mim não

Rubão

16
set

O filho duma mãe

   Postado por: Rubao   em Papo aberto

Ja faz um tempo, talvez uns 30 anos. Eu me deparei com uma situação embaraçosa. Minha mãe por uma razão que não me lembro e acredito sem dúvidas que estava cheia de razão, ficou muito nervosa comigo e disse quase que gritando na frente dos meus amigos

- Rubem, se você me desobedecer eu vou te bater. -Eu respondi na bucha.

- Falar é fácil! – Ela saiu da graça e com razão.

- O Que! Tu ta me desafinado? – Disse ela nervosa. Aí eu tive aquela sacada genial que só se tem uma vez na vida.

- Falar é fácil, mas fazer… é mais fácil ainda.

Todo mundo caiu na risada, inclusive minha mãe, dona Julinha. Foi uma mistura de rebeldia com arrependimento com saída pela tangente que até hoje quem estava na hora não esquece a cena. Já fiz coisas piores. Claro.

Esses dias eu estava lendo o meu livro de história e cai no famoso episódio daquele rapaz mal educado e egoísta que qualquer um de nós poderia trocar o nome dele por alguém conhecido, com as devidas proporções que a história se encaixaria perfeitamente.

A história fala de uma cara que cansou de andar de skate pelos blocos e quadras de Brasília, e apelou geral. Pensou ele “Que surfar no Lago Paranoá que nada, eu quero é ir pra California”. Acho até que foi ele quem inspirou o Lulu Santos, “Garota eu vou pra Califórnia Viver a vida sobre as ondas. Vou ser artista de cinema. O meu destino é ser star …” Na realidade o cara queria surfar na California e de lá partir pro Havai, e foi. Mas pra isso ele teve que armar uma pra cima do coroa. Pense num pai equilibrado financeiramente, aposentado, mas ainda novo cheio de vida, tocando os negócios. Tava tudo certo na família até que o “bicho” resolve aloprar e em pleno almoço de domingo após a EBD ele diz:

- Pai eu vou desistir da Facul, tô com altos planos e sei que posso realizar. Minha ideia é curti a vida enquanto eu sou jovem, olhe pro senhor. Trabalhou a vida inteira e ainda ta ralando e não curtiu nada. Eu quero que o senhor antecipe minha parte dos bens porque eu já tô indo.

- O que? Disse o pai olhando pra ele desapontado.

Eu já li esse texto umas duzentas vezes e nunca vi falar da mãe dele. Ora, se ele ta vivo é porque teve mãe. Se o texto não fala da mãe, não fala que ela era viva, mas também não fala que ela havia falecido, Portanto eu quero acreditar que a mãe, como sempre foi quem mais sofreu com tudo isso.

Ôxe! Qual mãe que tendo dois filhos exemplares, daqueles que todo mundo quer ter pelo menos um, não se desespera quando um deles, o mais novo, se rebela e divide tudo criando um clima estranho até porque pra dar a parte dele, muita coisa teve que ser vendida, fora a satisfação pra familiares e a sociedade, mas o pior mesmo a dor de ver o mundo ganhando a luta conta a família.

O garoto partiu cheio da grana, incessível e determinado. Deixou o cabelo crescer (dreads) e bancava tudo nos festivais de reggae e surf que apareciam inclusive a droga. Mas é isso mesmo, quem houve reggae da maneira errada, vai entrar na maconha mesmo, assim como quem houve rock da maneira errada, vai cair no “Sexo, drogas e rock’n roll “, assim como quem ouve música clássica da maneira errada vai entrar em depressão ou pânico num quarto escuro, assim com quem houve sertaneja da maneira errada vai entrar numas de traído e ainda vai chamar um parceiro pra chorar as mágoas juntos. Sem falar da boemia do sambista, dos “Créus” da galera do funk, etc. Então o problema não era o reggae era ele mesmo. Ufa!!

A gente nem precisa entrar de cara no mundão pra saber que quando a grana vai acabando, os amigos “fiéis” vão sumindo, os sorrisos e abraços apertados ficam raros, os sussurros de “te amo meu amor” se tornam em “acho que foi um engano nossa relação”. Isso é regra. Acabou a grana, acabou a curtição, os amigos, os amores, a cama quente, a comida farta, a razão de viver.

Quebrado de tudo, andando de humilhantes caronas ou a pé e comendo do pior dessa terra inclusive a comida que era jogada pros porcos, a ficha caiu e ele lembrou do papai, da mamãe e do mano. “La em casa eu tinha tudo, minha mãe faz a melhor feijoada do mundo, e o bolo de mandioca. Hum! Na fazenda eu jogava milho de primeira pra engordar nossos porcos, cabras, vacas e até cavalos puro-sangue. Os nossos funcionários nunca precisaram comer restos, eles tinham vida digna. O orgulho me diz pra eu desistir de tudo, mas o coração me manda voltar, vou pedir perdão. Quero ser pelo menos como um dos peões de meu pai. Eu acho que ele vai me dar um emprego.”

Era um fim de tarde lindo de sábado com o sol se pondo num tom avermelhado, como só no acontece no cerrado brasileiro. O pai e a família estavam na fazenda, como faziam todos sábados, quando de repente, do portão principal da fazenda ele viu um homem surgindo na curva da estrada.

Eu acredito que a mãe viu primeiro da janela da cozinha e gritou -“É ele! É meu filho voltando” O pai sabia que era o filhão e correu ao seu encontro. Só um pai de verdade pra cheirar e beijar daquele jeito um cabra tão sujo e fedido. – “Você não vai ser peão aqui coisa nenhuma, nós vamos é dar uma festa” Disse ele, depois de ouvir as desculpas do filho.

O irmão mais velho, mesmo com saudade e acompanhando o sofrimento dos pais não gostou nada. E resmungou pro pai:

- Quem rala aqui sou eu, mas ninguém me da nada, nem um churrasco, nada. Agora esse mala torra tudo e volta com cara de anjo e o senhor da uma festa?

– Meu filho. – Disse o pai. – Teu irmão estava morto e agora ta vivo, tinha se perdido, mas tai ele, nós temos é que festejar mesmo. E sabe de uma coisa filho, tudo isso aqui é teu, você sempre teve, você sempre pôde e ainda pode fazer o que quiser.

Como seria a nossa vida sem o amor do Pai, aquele amor incondicional, que apaga tudo e recomeça do zero, tudo de novo com festa, danças, anéis, roupas novas e sandálias. Não tem coisa mais louca que um pai de braços abertos no portão seguido de um cafuné de mãe. Não tem.

Às vezes eu me vejo como irmão mais velho, tendo tudo e não vendo nada, às vezes me vejo como o mais novo pensando só em mim, achando que o mundo é meu e que eu não preciso de ninguém, mas eu queria mesmo era me ver como o pai, sempre de braços abertos no portão pra abraçar, pra perdoar, pra jogar as mágoas no fundo do mar e esquecer e nunca mais se lembrar delas.

Segundo a história, a vida da família continuou tranqüila e harmoniosa como um riacho seguindo seu rumo molhando a terra, mas que esse cara é um verdadeiro “Filho duma mãe” É. Ou não é?

Um xêro pra quem gosta da gente.

Rubão

4
ago

Quem canta atrai ou espanta

   Postado por: Rubao   em Melhores Artigos, Papo aberto

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Me contaram uma história e eu creio que seja verdadeira até porque a fonte é rigorosamente confiável. A história fala de um agente penitenciário que tentou suicídio depois de uma movimentação de fuga no presídio que ele trabalhava.

E por falar em suicídio eu tive a curiosidade de saber o que isso representa em números. Veja esses dados: Em 2004 a média nacional era de 4,5 mortes por 100 mil habitantes, no Japão essa média chegou ao absurdo de 25 mortes por 100 mil habitantes. Da até medo. Nem quis me arriscar a ver os dados de hoje.

Recentemente em Taguatinga-DF, um policial militar, depois de uma crise de ciúmes da ex-esposa, atirou nela e depois se suicidou. Os jornais estão cheios de histórias semelhantes tanto que já nem nos incomodamos mais, aceitamos como mais um caso de fraqueza ou de desequilíbrio emocional, coisas dos tempos modernos.

E fica uma pergunta: O que será que leva alguém ao extremo de dizer: “Pra mim, morrer é a única opção” ou “Não existe mais sentido na vida, vou me matar”? Há quem diga que a música acalma a alma, tem até a história de um rei que quando estava atribulado com insônias e perturbações noturnas, mandava chamar um músico, um cabra dos bons. E quando o músico cantava o rei se sentia aliviado e dormia tranquilo. Há um ditado popular que diz: “Quem canta seus males espanta” e pelo jeito, dependendo da música e de quem canta perece que espanta até os males dos outros com é o caso do rei.

Sim, mas a história do agente penitenciário ou carcereiro me chamou atenção, primeiro pelo nome, Raimundo Nonato da Silva, não poderia ser mais maranhense e consequentemente conterrâneo que isso, aliás, poderia se fosse José de Ribamar da Silva com esse nome você acha de doutor a estivador. Mas seu Raimundo intimamente chamado de Mundinho também me chama atenção por sua reputação. Um cabra reconhecido com um bom pai, um bom esposo, um companheiro verdadeiro, e um profissional competente, assim dizem os colegas de trabalho, enfim um sujeito com a dignidade de comer do suor do seu rosto e a devoção de ir ao Maranhão pelo menos de dois em dois anos pra visitar sua gente.

Olhe! Pra ele não tem coisa melhor que reencontrar Painho, mainha, a primaiada, amigos de infância, e parte dos nove irmãos que ainda moram lá em Axixá. Ele aproveita ainda pra rever a pracinha da Matriz onde rolou o primeiro beijo, o Rio Munim de tantos saltos mortais e peladas na prainha e relembrar os tempos de “brincadeira com a rapaziada” como é carinhosamente chamada a participação no batalhão ou simplesmente na dança do Bumba-meu-boi. A cidade é muito conhecida pela expressão artística e cultural do famoso Boi de Axixá, um dos mais tradicionais grupos de sotaque e de orquestra do Maranhão que em 2009 completou 50 anos.

Seu Raimundo trabalhava na segurança de bandidos perigosos e tinha sobre si grande responsabilidade. Ninguém entrava ou saía sem sua ordem. Pois bem, num certo dia chegou dois sujeitos presos acusados de badernagem e foram inclusive violentamente agredidos pelos policiais, esse tipo de prisão é rotina, a diferença é que esses dois sujeitos eram cidadãos de bem, tinham formação e não cometeram nada, nada foi achado ou provado contra eles. Acredita-se que foram fruto de uma armação.

Um fato interessante que clamou a atenção, segundo relatou do próprio Sr. Raimundo. Foi quando os caras já presos e machucados começam a cantar como quem estava feliz, trazendo uma comoção muito grande entre os presos e até mesmo entre os guardas. Seu Raimundo garante que dormiu ouvindo os cânticos e acordou com um barulho muito forte. – “Parecia uma barroada (batida) de frente entre duas carretas. Misteriosamente os cadeados se abriram e as portas de ferro se escancararam deixando toda guarda vulnerável, seria uma fuga em massa como nunca vista na história daquele presídio de segurança máxima”. Disse ele.

Ora, pra um cabra que veio de Axixá não era de se estranhar que ele pensasse que era coisa do “bicho feio” e foi o que ele pensou mesmo. -”Foi um barulho tão danado que eu acordei de um pulo e quase me borrei de medo quando vi todas as portas escancaradas, os presos gritando, uma nuvem de poeira nos corredores… foi um troço de louco”. Disse o carcereiro. Ele ficou tão desesperado com a certeza de que todos fugiriam e que não poderia jamais justificar as fugas e ainda seria lixado, que pegou sua arma e atentou instintivamente contra si próprio querendo se matar. Mas outra coisa interessante aconteceu: Os dois homens que cantavam e que pra ele, tinham poderes, gritaram e correram até ele impedindo que naquele momento houvesse uma tragédia, um suicídio, e mais interessantes ainda, eles não permitiram que nem um preso fugisse. Que coisa hein!

Eu acho que alguém ainda vai fazer um filme dessa história porque ela é realmente impressionante. Tanto que depois, eles, os dois homens presos e seu Raimundo Nonato jantaram juntos e conversaram bastante. Eles foram reconhecidos como inocentes pelo Estado inclusive com um pedido formal de desculpas e a história foi mais longe, os cabras ficaram amigos duma tal maneira… Sim, do tipo irmãos de fé. Ora, se até batizaram os filhos de seu Raimundo.

Se alguém souber mais dessa história me conte. A verdade é que por privacidade os dois rapazes são conhecidos apenas pro Silas e Paulo. Tentei achar mais coisas na internet sobre Raimundo Nonato da Silva, mas assim como José de Ribamar, tinha tanta gente com esse nome que achei até quem não presta, aí eu desisti.
Fato é, cantar, faz bem pra sua alma, pra alma dos outros e por incrível que pareça pode até quebrar cadeias.

Um xêro pra quem gosta da gente.

Rubão

Carlinhos Veiga, Rubão e banda, acabaram de chegar de uma viagem de 10 dias pelos Estados do Maranhão e Paiuí, onde trocaram informações cantando, tocando, fotografando, ouvindo e pesquisando as histórias e culturas (como o Bumba-meu-Boi do Maranhão) do povo nordestino, parte desses brasis.

Pra saber melhor sobre esse trabalho, que tambem foi cultural, confira clicando no link abaixo.

http://www.carlinhosveiga.blogspot.com/

Deixe seu comentário.

*Novidade: Peça já seu Cd da Cia de Jesus, (Reggae a terra, Na Terra Brasilis e Quatro) Edição Especial no quadro: páginas, DISCOGRAFIA. No canto direito do blog.

abraço

10
jun

Dois maços de cheiro verde

   Postado por: Rubao   em Papo aberto

   No interior do sertão brasileiro ainda há muita pobreza, mas nem tudo miséria. Tem algumas regiões em que a escassez e a abundância dividem calçadas, quitandas e até bancos de igrejas. Tem gente que se acha dono até do céu, mas isso é outra história.  

Contaram-me há muito tempo a história de uma senhora já velha que morava num desses interiores do sertão nordestino, a dona Maria das Graças, conhecida como dona Nainha, mulher de vida muito simples, de fogão à lenha, de lamparina, de tamborete e de limitações. Até por que as forças pro trabalho no campo, seu ofício, já não correspondiam mais, as vistas já lhes negavam algumas imagens e a labuta de uma idosa morando sozinha nunca foi fácil.

 

O Filho mais velho de dona Nainha, foi cedo pra cidade grande em busca de emprego, voltou algumas vezes, e, numa dessas levou o único irmão com ele, e nunca mais se soube notícias. Ela evitava falar dos filhos, mas oravam sempre por eles.Dona Nainha vivia do carinho de alguns poucos vizinhos e da venda precária de cheiro verde que ela plantava em um canteiro suspenso no seu quintal, herança do esposo, seu Zé Cândido, o Didinho. Homem trabalhador, mas já falecido de doença de velho mesmo. Ele era bem mais velho que ela, e já havia alguns anos que ela aceitara a vida solitária de viúva com bravura, apesar das lutas.

Eu conheci duas senhoras bem idosas e próximas a mim. Uma era a tia Vitória Rodrigues, conhecida como tia Totora. Ela faleceu ano passado com quase 100 anos. Totora, era uma mulher clara, de olhos azulados, cabelos brancos e lisos e bem baixinha.Uma outra tia minha quando me dava notícias dela, dizia: “A Totora ta tão baixinha, que quando ela anda quase arrasta o nariz no chão” Hehe! Coisas de maranhense. Ela mascou fumo praticamente a vida inteira. Aquele fumo de rolo mesmo, que se vê nos armazéns. Nunca casou, mas criou alguns sobrinhos entre eles minha mãe, que perdeu sua mãe ainda criança e foi morar com a tia.Dizia minha mãe que a Totora quando nova era muito brava e severa, mas quem a conheceu nos últimos anos viu uma velhinha linda, de sorriso gostoso, bochechas rosadas e traços fortes marcados pelas rugas do tempo. Quase sempre sentada na “porta da rua” ela ficava vendo o movimento e acenando pro povo.

Outra velhinha que conheci foi a Dona Genoveva, a Genu. Ela morava com seu único irmão, solteirão e também já velho. A Genu me chamava de Rúbi e eu gostava de sentar no colo dela só pra vê-la raiar, reclamando que eu era pesado, mas logo mandava eu sentar novamente . Uma mulher sem filhos, sem parentes importantes… Mas muito temente a Deus. Logo perdeu seu irmão e ficou só, vivendo da ajuda de irmãos da fé. Ela tinha sempre um sorriso pra dar mostrando seus dentes falhos e uma pele bem enrugara principalmente no rosto, lembrando o chão seco do sertão. Genu era uma senhora baixa de cabelos lisos e ralos, pele queimada de muito sol. Suas orelhas e o nariz pereciam grandes, algo desproporcional. É a Lei da gravidade que não perdoa.

A Genu e a Totora, apesar da pressão do tempo tinham suas belezas, elas eram lindas e importantes na minha vida mesmo sem se conhecerem. E um dia, assim como Genu, a tia Totora, morreu farta de dias.

Quando me lembro da dona Nainha me vem à mente essa duas figuras que conheci de pertinho e me fazem entender melhor a vida dessa mulher velha e sozinha que eu não a conheci pessoalmente, mas que teve uma história de vida tão interessante que eu me vejo na obrigação de partilhar nessas linhas algo sobre essa fantástica mulher do sertão nordestino.

Diz a história que certa feita, dona Nainha teve uma semana de poucas vendas e que nos últimos dias só havia vendido apenas dois maços de cheiro verde. Muito pouco pra quem vivia desse pequeno comércio, mas foi que deu.

Na igreja da cidadesinha, perto de sua casa, na sexta-feira daquela mesma semana, era dia de encerramento da Campanha de Missões. Daquelas pra ajudar no sustento de missionários na África. A comunidade estava envolvida, o povo vestia a melhor roupa, teve muita música, dança e uma mensagem empolgante como deve ser num dia tão importante.

No final, o líder, um jovem pregador, Homem de Deus, fez um apelo desafiador à igreja conclamando que fosse levantada uma oferta de amor aos irmãos missionários na África. Não demorou e um irmão dono de uma frota de caminhões sensibilizado com a luta dos missionários no transporte de mantimentos, pessoas, etc. foi à frente emocionado e disse: – “Querida igreja, estou tocado e quero dizer de bom som que os irmãos lá na África não sofrerão mais com transporte, porque eu vou doar um caminhão. Deus me deu vários e eu vou doar um”. Que coisa linda! Foi um alvoroço, de Glória a Deus! E Aleluia! Outros motivados foram à frente e também fizeram doações significativas, mas já no final, eis que o brulho é quebrado quando uma senhora com dificuldade pra andar atravessa o corredor sob o olhar de todos e o descaso de alguns, e vai até ao gazofilácio. Ela coloca a mão no bolso do vestido  de chita surrado e deposita ali, sua oferta referente à venda de dois maços de cheiro verde na sofrida semana. Ela depositou, olhou pra cima como que agradecendo a Deus por poder ofertar, virou-se, e calada foi embora.

O jovem líder foi á frente e com sabedoria divina chamou a atenção de todos. – “Queridos, como é bonito ver a igreja envolvida em missões, e por isso nós vamos fazer uma singela, porém justa homenagem àquele que se esforçou mais e conseqüentemente fez a maior doação de amor nessa noite. Ele receberá das mãos do presbítero Marcos Dozevan uma simbólica placa. É apenas um gesto de gratidão de nossa igreja pelo empenho dos irmãos. Nela estará escrito: “Parabéns! Primeira Campanha Missionária. Maior oferta” e eu preciso que vocês me ajudem a identificá-lo.

Pronto! Foi uma agitação só. Famílias unidas gritando um nome, outros gritando outro, irmãos com aquela cara de “eu não fiz nada apenas ouvi a voz do coração”, uns diziam – “foi irmão Chico Porca (criador de suínos) que doou parte da venda de sua fazenda”, e um coro mais forte ainda gritava – “irmão Zé Bento, irmão Zé Bento!”. Aquele que doou o caminhão zerado. A política estava instaurada, e inflamava o coração dos clãs na congregação.

O sábio jovem líder pede silêncio e diz: – “Queridos irmãos! Tá todo errado. Vocês não entenderam nada, parece que tenho falado esses dias para os bancos…”. Parou tudo. E ele continuou. – “Quem deu a maior oferta não foi irmão Zé Bento, nem irmão Chico Porca e nem nenhum de nós que estamos aqui. A maior oferta depositada no altar foi da irmã Nainha, aquela viúva que veio por último aqui à frente. Sei que poucos aqui a conhecem ou sequer sabiam seu nome, mas eu a conheço muito bem. Ela até já saiu. Entendam uma coisa queridos; todos nós ofertamos daquilo que nos sobrava, mas ela deu tudo. Aquelas duas moedas era tudo que ela tinha, e tudo é mais que um tanto, é mais que muito. Tudo é tudo. Ela deu a maior oferta”.

Dizem que a velha viúva nunca recebeu aquela placa, até por que, a tal placa não existia mesmo. E, depois daquele dia, não se tem mais notícias de dona Nainha. Acredita-se que pouco tempo depois ela faleceu, mas três coisas marcaram a história de vida daquela amorosa senhora:

1ª Aquela Congregação nunca mais foi a mesma, com relação a ofertar na Casa de Deus.

2ª Dona Nainha com certeza não morreu de fome por ter doado tudo o que tinha.

3ª Sua atitude de amor e fé foi uma lição pra congregação, pra mim e pra todos nós que conhecemos sua história. Sabe-se que essa história ultrapassou as fronteiras dos nossos rincões sendo usada pra edificar vidas nos quatro cantos da terra, e ficou conhecida como “A oferta da viúva pobre”.

Um xêro pra quem gosta da gente.

Rubão