10
jun

Dois maços de cheiro verde

   Postado por: Rubao   em Papo aberto

   No interior do sertão brasileiro ainda há muita pobreza, mas nem tudo miséria. Tem algumas regiões em que a escassez e a abundância dividem calçadas, quitandas e até bancos de igrejas. Tem gente que se acha dono até do céu, mas isso é outra história.  

Contaram-me há muito tempo a história de uma senhora já velha que morava num desses interiores do sertão nordestino, a dona Maria das Graças, conhecida como dona Nainha, mulher de vida muito simples, de fogão à lenha, de lamparina, de tamborete e de limitações. Até por que as forças pro trabalho no campo, seu ofício, já não correspondiam mais, as vistas já lhes negavam algumas imagens e a labuta de uma idosa morando sozinha nunca foi fácil.

 

O Filho mais velho de dona Nainha, foi cedo pra cidade grande em busca de emprego, voltou algumas vezes, e, numa dessas levou o único irmão com ele, e nunca mais se soube notícias. Ela evitava falar dos filhos, mas oravam sempre por eles.Dona Nainha vivia do carinho de alguns poucos vizinhos e da venda precária de cheiro verde que ela plantava em um canteiro suspenso no seu quintal, herança do esposo, seu Zé Cândido, o Didinho. Homem trabalhador, mas já falecido de doença de velho mesmo. Ele era bem mais velho que ela, e já havia alguns anos que ela aceitara a vida solitária de viúva com bravura, apesar das lutas.

Eu conheci duas senhoras bem idosas e próximas a mim. Uma era a tia Vitória Rodrigues, conhecida como tia Totora. Ela faleceu ano passado com quase 100 anos. Totora, era uma mulher clara, de olhos azulados, cabelos brancos e lisos e bem baixinha.Uma outra tia minha quando me dava notícias dela, dizia: “A Totora ta tão baixinha, que quando ela anda quase arrasta o nariz no chão” Hehe! Coisas de maranhense. Ela mascou fumo praticamente a vida inteira. Aquele fumo de rolo mesmo, que se vê nos armazéns. Nunca casou, mas criou alguns sobrinhos entre eles minha mãe, que perdeu sua mãe ainda criança e foi morar com a tia.Dizia minha mãe que a Totora quando nova era muito brava e severa, mas quem a conheceu nos últimos anos viu uma velhinha linda, de sorriso gostoso, bochechas rosadas e traços fortes marcados pelas rugas do tempo. Quase sempre sentada na “porta da rua” ela ficava vendo o movimento e acenando pro povo.

Outra velhinha que conheci foi a Dona Genoveva, a Genu. Ela morava com seu único irmão, solteirão e também já velho. A Genu me chamava de Rúbi e eu gostava de sentar no colo dela só pra vê-la raiar, reclamando que eu era pesado, mas logo mandava eu sentar novamente . Uma mulher sem filhos, sem parentes importantes… Mas muito temente a Deus. Logo perdeu seu irmão e ficou só, vivendo da ajuda de irmãos da fé. Ela tinha sempre um sorriso pra dar mostrando seus dentes falhos e uma pele bem enrugara principalmente no rosto, lembrando o chão seco do sertão. Genu era uma senhora baixa de cabelos lisos e ralos, pele queimada de muito sol. Suas orelhas e o nariz pereciam grandes, algo desproporcional. É a Lei da gravidade que não perdoa.

A Genu e a Totora, apesar da pressão do tempo tinham suas belezas, elas eram lindas e importantes na minha vida mesmo sem se conhecerem. E um dia, assim como Genu, a tia Totora, morreu farta de dias.

Quando me lembro da dona Nainha me vem à mente essa duas figuras que conheci de pertinho e me fazem entender melhor a vida dessa mulher velha e sozinha que eu não a conheci pessoalmente, mas que teve uma história de vida tão interessante que eu me vejo na obrigação de partilhar nessas linhas algo sobre essa fantástica mulher do sertão nordestino.

Diz a história que certa feita, dona Nainha teve uma semana de poucas vendas e que nos últimos dias só havia vendido apenas dois maços de cheiro verde. Muito pouco pra quem vivia desse pequeno comércio, mas foi que deu.

Na igreja da cidadesinha, perto de sua casa, na sexta-feira daquela mesma semana, era dia de encerramento da Campanha de Missões. Daquelas pra ajudar no sustento de missionários na África. A comunidade estava envolvida, o povo vestia a melhor roupa, teve muita música, dança e uma mensagem empolgante como deve ser num dia tão importante.

No final, o líder, um jovem pregador, Homem de Deus, fez um apelo desafiador à igreja conclamando que fosse levantada uma oferta de amor aos irmãos missionários na África. Não demorou e um irmão dono de uma frota de caminhões sensibilizado com a luta dos missionários no transporte de mantimentos, pessoas, etc. foi à frente emocionado e disse: - “Querida igreja, estou tocado e quero dizer de bom som que os irmãos lá na África não sofrerão mais com transporte, porque eu vou doar um caminhão. Deus me deu vários e eu vou doar um”. Que coisa linda! Foi um alvoroço, de Glória a Deus! E Aleluia! Outros motivados foram à frente e também fizeram doações significativas, mas já no final, eis que o brulho é quebrado quando uma senhora com dificuldade pra andar atravessa o corredor sob o olhar de todos e o descaso de alguns, e vai até ao gazofilácio. Ela coloca a mão no bolso do vestido  de chita surrado e deposita ali, sua oferta referente à venda de dois maços de cheiro verde na sofrida semana. Ela depositou, olhou pra cima como que agradecendo a Deus por poder ofertar, virou-se, e calada foi embora.

O jovem líder foi á frente e com sabedoria divina chamou a atenção de todos. – “Queridos, como é bonito ver a igreja envolvida em missões, e por isso nós vamos fazer uma singela, porém justa homenagem àquele que se esforçou mais e conseqüentemente fez a maior doação de amor nessa noite. Ele receberá das mãos do presbítero Marcos Dozevan uma simbólica placa. É apenas um gesto de gratidão de nossa igreja pelo empenho dos irmãos. Nela estará escrito: “Parabéns! Primeira Campanha Missionária. Maior oferta” e eu preciso que vocês me ajudem a identificá-lo.

Pronto! Foi uma agitação só. Famílias unidas gritando um nome, outros gritando outro, irmãos com aquela cara de “eu não fiz nada apenas ouvi a voz do coração”, uns diziam – “foi irmão Chico Porca (criador de suínos) que doou parte da venda de sua fazenda”, e um coro mais forte ainda gritava - “irmão Zé Bento, irmão Zé Bento!”. Aquele que doou o caminhão zerado. A política estava instaurada, e inflamava o coração dos clãs na congregação.

O sábio jovem líder pede silêncio e diz: - “Queridos irmãos! Tá todo errado. Vocês não entenderam nada, parece que tenho falado esses dias para os bancos…”. Parou tudo. E ele continuou. – “Quem deu a maior oferta não foi irmão Zé Bento, nem irmão Chico Porca e nem nenhum de nós que estamos aqui. A maior oferta depositada no altar foi da irmã Nainha, aquela viúva que veio por último aqui à frente. Sei que poucos aqui a conhecem ou sequer sabiam seu nome, mas eu a conheço muito bem. Ela até já saiu. Entendam uma coisa queridos; todos nós ofertamos daquilo que nos sobrava, mas ela deu tudo. Aquelas duas moedas era tudo que ela tinha, e tudo é mais que um tanto, é mais que muito. Tudo é tudo. Ela deu a maior oferta”.

Dizem que a velha viúva nunca recebeu aquela placa, até por que, a tal placa não existia mesmo. E, depois daquele dia, não se tem mais notícias de dona Nainha. Acredita-se que pouco tempo depois ela faleceu, mas três coisas marcaram a história de vida daquela amorosa senhora:

1ª Aquela Congregação nunca mais foi a mesma, com relação a ofertar na Casa de Deus.

2ª Dona Nainha com certeza não morreu de fome por ter doado tudo o que tinha.

3ª Sua atitude de amor e fé foi uma lição pra congregação, pra mim e pra todos nós que conhecemos sua história. Sabe-se que essa história ultrapassou as fronteiras dos nossos rincões sendo usada pra edificar vidas nos quatro cantos da terra, e ficou conhecida como “A oferta da viúva pobre”.

Um xêro pra quem gosta da gente.

Rubão

17
mai

Davi derrotou Golias pra se encontrar com Francisco

   Postado por: Rubao   em Papo aberto

p1130094.JPGVocê com certeza já ouviu falar a expressão ”Sal da terra e luz do mundo”.  É Jesus quem assim nos chama. (Mt 5, 13-15). E apôis! A luz não é luz para si mesma, não vem para se iluminar, nem o sal salga a si próprio. Mas a luz é acesa para iluminar a tudo e a todos. A nossa fé em Deus é o sal que tempera e conserva, mas se o sal perder o seu gosto, para nada serve e é jogado fora, se nossa fé não se manifestar em atitudes de cristãos, ela é como um sal que perde o seu sabor e é desprezado e pisado pelos homens.

Você também já deve ter ouvido falar da colonização européia em Pernambuco, principalmente a holandesa, daí a grande quantidade de cabras pelos sertões, de pele clara e olhos pintados de azul celeste, verde esmeralda, furta-cor e até cor de burro fugido. É a coisa mais linda.

Você também já deve ter ouvido falar de um rapaz baixinho que encarou um grandalhão desaforado e derrotou o infeliz com uma badocada acima da venta, no meio do para-choque, ou seja, na testa. Sim, falo do pequeno Davi e do gigante Golias.

Pois eu vou lhe falar de um cabra do interior pernambucano que é tudo isso junto. Ele é baixinho, branquelo, magricelo, tem os lhos pintados que até parece que mudam de cor com a lua, valente de enfrentar cangaceiro, sério que só bode andando de canoa, não tem medo nem de coice de jumento que dirá de cara feia, gosta de chapéu de couro que nem lampião e é conhecido pro Marquinhos Sal da Terra. Homem de um coração sensível que só agulha de radiola (toca-disco), homem de Deus. E eu posso dizer com orgulho que “ele é meu amigo”.

Essa semana recebi um e-mail de Marquinhos (graças a Deus a modernidade alcançou o sertão) me contando uma experiência interessante vivida por ele, e eu conheço dezenas delas, me fazendo repensar sobre meus valores nesse mundo de tantas inversões. E, com a autorização dele, quero repartir essa carta com você. Agüente viu! Se você é fraco que nem eu, é bom pegar um copo d’agua.

A Carta : Deixando Cristo para trás.

Oi, véi!!

Escrevi este texto e gostaria de partilhar com você.

Fique na paz de Cristo.

Na beira da estrada, meio do sertão, entre as cidades pernambucanas de Ibimirim e Floresta, numa parada que fizemos para um café. Vimos este homem, saindo do meio da caatinga, numa bicicleta caindo aos pedaços. Ele havia pedalado sessenta quilômetros, por estradas de areia e pedra - próprias daquela região - Vindo de outra cidade que, como se por ironia do destino se chama Betânia, que no hebraico quer dizer “lar dos pobres”. Francisco era o nome daquele senhor e naquele momento ele chegava ao asfalto, ali onde nós estávamos, visivelmente cansado e tinha mais setenta e oito quilômetros pela frente, que faria numa daquelas camionetes que transportam pessoas pelo sertão. 

- Um cafezinho?

Perguntei de maneira amistosa, ao recém chegado, querendo quebrar o gelo, estendendo o copo de café e o pão com queijo que eu tinha nas mãos. 

- Não, Obrigado!

 Respondeu vacilante e com o olho cumprido para aquela refeição que tomávamos. A sua expressão nos dizia claramente: “Por favor, insista!” Entendi sua hesitação e insisti:

 - Que é isso homem? Venha comer com a gente!

A fome falou mais alto do que a vergonha, aquele cidadão de meia idade e de pele enegrecida pelo causticante sol sertanejo, se agachou e começou a comer.

 Vimos, então, que ele estava com muita fome e por uma razão bem simples, porém quase trágica - ele não havia comido nada naquele dia - isso mesmo, sessenta quilômetros de bicicleta, no meio da caatinga, sem nada na barriga. Ele deglutia cada pedaço do sanduíche de queijo de manteiga com certa ansiedade, como se fosse o último, e sorvia os goles de café com nítida expressão de satisfação. Por sorte, nós havíamos levado o suficiente e ele comeu até se fartar.

 No final, amarramos a bicicleta de Francisco em cima da Kombi, entoamos um hino de louvor à Deus e seguimos até Floresta destino dele, nosso caminho. Na estrada partilhamos da nossa fé, do amor de Deus, da nossa alegria de tê-lo encontrado e de tantas outras amenidades. 

Finalmente, chegamos à Floresta, nos despedimos com uma oração rogando ao Pai uma bênção especial sobre a vida daquele sertanejo de Betânia. Talvez nunca mais o vejamos e certamente nunca mais teremos notícias dele. Mas, daquele momento para cá eu trago um questionamento em meu coração: Quantas vezes, pelas estradas da vida, passamos despercebidos deixando Cristo para trás? “Tive fome e não me destes de comer. Tive sede e não me destes de beber”. 

Que Deus nos torne mais atentos.

Um abraço e que Deus te bendiga,

Marquinhos Sal da Terra

Eu fiquei emocionado pricipalmente pela fato em si, mas Marquinhos foi além e me mandou no final do texto um link do registro desse momento maravilhoso, o encontro do pequeno Davi pernambucano e sua equipe com o sertanejo Francisco.

Eu daqui do conforto da minha sala, olhando pro computador, certo de que na minha geladeira tem pelo menos água fria e outras coisas que semanalmente perdem a validade, muito bem acomodado em minha rotina, saindo pra eventos e programas que me pareçam bem (senão, eu não vou), cheio de amigos prontos me atenderem ao toque do celular, me sinto abençoado que nem  Davi, mas quando vejo o amor desses caras que enfrentam o sertão de caatinga à dentro, o calor intenso e a poeira, sem buscar fama, reconhecimento, cachê, foto em revista, conforto, etc. Só pelo alegria de falar aos sertanejos de um amor maior que o de dar um pedaço de pão com café, de dar uma carona ou fazer uma boa ação. O amor de se entregar ao ponto de morrer por nós, o amor de Cristo. Aí eu me sinto um Golias levando uma pedrada na testa.

Dos cabras que aparecem no vídeo, um foi baderneiro e cachaceiro de amanhecer na calçada, , um escândalo pra família e a sociedade, outro era brabo na peixeira principalmente depois da pinga, outro foi violento de botar revolver na boca de sujeito e bate só pra ver o sangue correr e outro foi braço forte dos homens da máfia pesada do jogo do bicho em São Paulo. Todos transformados. Quero resaltar que nenhum deles vê vantagem nesse “currículo” e nem saí por contando essa parte de suas vidas, eles preferem falar da caminhada sadia e fantástica que é seguir os passos do Grande Mestre. Agora me diga: Pela cara, que é quem? Eu duvido que você adivinhe, mas a resposta fica mais difícil ainda quando eu pergunto: Quem tem o coração mais quebrantado? Eu tenho que engolir seco, passar a mão nos olhos pra desembaraçar (e poder ver pelo menos as teclas) e dar graças a Deus. Por que se Golias é grande, maior é Davi que confia em Deus.

Marquinhos nesse dia curiosamente não estava de chapéu de couro,  mas é o que aparece de boné preto cantando. “Ninguém detém é obra santa”. Com ele, Lalo no violão, Jorge no triangulo, Israel na zabumba, Elias na sanfona, Laércio Lins cantando e Alvinho, que é o que está arrodeando, e, enquanto os cabras cantam ele continua servindo o sertanejo Francisco, de jaqueta azul. Que sena fantástica!

É só clicar: (: www.youtube.com/watch?v=qn6pxAByF3k )

Um xêro pra quem gosta da gente.

Rubão

30
abr

Cara de pamonha na Festa do Milho

   Postado por: Rubao   em Papo aberto

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Já era quase seis horas da tarde de sábado quando meu telefone tocou. Do outro lado da linha, um sotaque pernambucano, carregado que só mula de garimpeiro e florido de brincadeira.

-Ei macho! Tu vem aqui me ver?

-Ôxe! Não deve ser difícil não, Mas eu não to reconhecendo tua voz.

-E apôis! É Firmino, meu irmão. De Caruaru (PE). Sim, e tô bem aqui perto de tua casa, mas é o seguinte, venha e já traga sua viola que nós estamos aqui só lhe esperando. Óia! vamos tocar daqui a pouco visse.

- Ei cara, o trem não é bagunçado não. Mas me dê 5 minutos. - respondi animado.

Essa não é a primeira vez que esses cabras fazem isso. Da outra vez que vieram, veio junto o zabumbeiro Damião, um sujeito de uma história linda, mas a verdade é que os cabras tinham acabado de chegar, eles só viajaram 2.200 Km de Caruaru a Brasília num monza cinza, não sei que ano, sem ar condicionado e com cinco pessoas dentro e ainda na chagada, bateram o carrro por um descuido a 800m de parar, certamente fruto do cansaço. Eles garantem que boa da parte da viagem vieram cantando.

Tem um camarada pernambucano que mora perto de minha casa, e, é mais amigo deles do que eu, por que eles sempre vão direto pra casa dele, o GG. Pelo apelido, só pode ser gente boa. E é mesmo, esse é o apelido do meu pai. GG tava com um compromisso e eu além de entrar pro grupo assim de cara… (cara-de-pau e de nordestino mesmo, ainda mais como o chapéu de couro que ganhei) teria que levá-los ao local, um prazer. E fomos à Festa do Milho na Ceilândia - DF. A galera já estava esperando o grupo e eu infiltrado ali, achando uma maravilha.

Um caminhão cruzado na rua, barracas com tudo que é coisa boa de milho, outros grupos tocando, muito gente e até bêbum, esses nunca faltam em festa de rua. De repente o cara da organização grita: “E agora com vocês o pessoal lá de Caruaru-PE, é forró pé-de-serra do puro, valendo mesmo, vamos recebê-los com uma salva de palmas”. -  assim foi. Subimos todos de chapéu de couro com zabumba, sanfona, triângulo, violão e baixo. Eu falei pra Jorge, o vocalista e líder, - Não diga pra ninguém que eu sou daqui, ainda mais com essa cara, esse chapéu de couro e essa alpercata, estou me sentindo original com muito orgulho e vou passar batido. - e num é que ainda apareceu um cara que me reconheceu? mas foi só um, os outros diziam: “Fizeram boa viagem?”,  “Que som original o de vocês”, “Vocês ainda vão tocar né?” Essas coisas.

Mas lá pelo meio da apresentação, o povo atento dançando lá embaixo, tava até rolando um sorteio pra quem dançasse melhor o forró, foi quando Jorge, o vocalista, entre uma música e outra começou a falar com um sotaque ainda mais arrastado que o de Firmino, o sanfoneiro, chamando a atenção de todos: -Tem alguém aí que sabe o que é levar uma pêia? levar uma taca? Pois sim, é levar uma surra. - continuou: - Eu vivi por quase dois anos recebendo ameaças diárias de uma cabra que quando tava atacado encostava o dedo na minha cara e dizia: -To doido pra lhe dar uma pêia pra lhe deixar molim seu crentinho sem vergonha.  - eu nunca fiz nada pra aquele sujeito, mas ele me odiava. Um dia ele me parou num beco e disse - Por que você não reage seu crentinho? eu lhe mato qualquer dia desse. - Eu respondi. - Mata nada,  sabe porque? por que eu tenho uma boa notícia pra você, Jesus te ama! tu tá precisando é de Deus visse! você precisa de conversão. 

Só de ouvir esse testemunho foi me dando uma raiva tão danada do tal valentão que eu lembrei do meu tempo de Tiro de Guerra, quando dei um chega pra lá no sargento que quase joguei ele fora do alambrado numa partida de futsal só por que ele era saliente e a galera botando pilha, gritava lá de fora: - Aroxa Rubão!! e ele era saliente mesmo. - então me perguntei: - como poderia alguém fazer o mal pra Jorge? o cara viajou um dia e meio, pra ficar só dois dias em Brasília e dizer que tem um Deus que ama a todos e que Seu amor é maior que o de um homem pro uma mulher e maior que o amor de uma mãe por seu filho, e, um cabra ficou por quase dois anos atormentando esse mesmo Jorge que tá aqui na minha frente? isso é um infeliz, isso da raiva até em Russel Shedd (um cara mais crente que eu). -mas Jorge continuou falando: -Sabe aquele rapaz que por muito tempo me ameaçou uma pêia e por muitas outras me jurou de morte? ele nunca me bateu, mas hoje ta aqui batendo com vontade no zabumba pra glória de Deus. É Branco, o zabumbeiro ao lado de Rubão.

Ôxe!! eu já sou um senhor de idade, não posso ter certos tipos de choque, não!.. Olhei pro zabumbeiro do meu lado, um cabra branco até no nome, baixinho de olhos pintados da cor de burro fugido. Ele olhou pra mim, fez um bico, balançou a cabeça e sorriu. Eu quase morri. O povo que assistia ficou boquiaberto com a história, e eu… Quando terminamos de tocar, eu puxei o baixinho pro canto e perguntei:

- Que história é essa de querer bater em Jorge?

- Bater não, eu queria é matar, eu tinha raiva de crente, ainda mais que nem ele que não retrucava uma provocação e só vivia falando de Deus. Até por que tinha uns crentes xaropes na região que me entregavam quando eu armava uns roubos ou parada de droga e “os homens” baixavam na área. E como ele era o mais crente, sobrava pra ele.

- Sim, mas, e aí?

- E aí que ele me ganhou pelo testemunho visse! Um dia eu não agüentei e perguntei por que ele não me odiava. Eu estava bêbado, disposto a tudo. Ele olhou pra mim, colocou a mão no meu ombro e disse: -É por que Jesus te ama. Você precisa conhecer o Senhor Jesus, e óia! eu não me asusto contigo não, visse! eu já trabalhei em São Paulo por muitos anos com os homens do jogo do bicho, coisa pesada, mas Deus me mudou. - aí eu perguntei: - E como eu faço? - eu tava muito bêbado, e ele disse: - Quando você melhorar, procure a igreja mais próxima de sua casa. - eu esperei foi nada, fui no mesmo dia. Entrei numa igreja, aí um irmão grandão quis me expulsar de tudo que é geito, eu olhei pra ele e disse: Se eu morrer hoje sem conhecer Jesus a culpa é sua, se eu for pro inferno você será culpado pela minha alma, pela minha desgraça, eu quero conhecer Jesus é hoje. Aí ele deixou eu ficar. E foi alí mesmo que me entreguei. Jorge virou meu pai, acima dele, só Deus.

Eu confesso que fiquei meio incrédulo, não com o poder de Deus, mas que estivesse frente à frente com o mesmo rapaz que odiava o pregador. Jorge me disse que não conhece homem tão temente a Deus.

Conversando com Branco, ele me contou que tinha 25 anos, era casado há mais de 10 e tinha duas filhas.

- Êpa!! Como assim? - retruquei.

 - É isso mesmo. eu tinha 15 e minha esposa tinha 12 quando casamos, hoje ela tá com 22 anos, uma benção. Óia! Eu trabalhei firme ate de madrugada de torneiro mecânico pra entregar uns serviços e poder viajar, deixei as contas pagas, dei 50 conto pra minha esposa, botei 50 no bolso e vim.

Se ele veio só pra contar um pouco de sua história e dizer o quanto Deus é bom mesmo que pra uma só pessoa, então valeu, por que eu fui o primeiro.

Ficamos de nos encontrar na segunda-feira, dia que eles iriam arrumar o carro pra voltar. No domingo eu já tinha compromisso e não poderia acompanhá-los, mas não sei por que eles não me ligaram de volta. Hoje é quarta-feira e imagino que já voltaram. Só tive contato com Branco das 18:30h às 22:30h de sábado, mas não sai da minha memória aquele baixinho de cara gorda com chapéu de couro, olhos claros e avermelhados de sono, encostado no balcão da barraquinha me contado um pouco de sua história enquanto comíamos um bolo de milho com refrigerante. E eu ali, ouvindo aquele bombardeio, de olhos arregalados, duvidando da minha fé e com a minha cara de pamonha.

Um xêro pra quem gosta da gente.

Rubão

17
abr

Carta do Som do Céu

   Postado por: Rubao   em Papo aberto

acampamento-mpc.jpgCARTA DO SOM DO CÉU - MANIFESTO DE ARTISTAS CRISTÃOS

Introdução
Nós, músicos, artistas e líderes eclesiásticos, cristãos, vindos das variadas regiões brasileiras, estivemos reunidos entre os dias 6 a 12 de abril de 2009, no Acampamento da Mocidade Para Cristo do Brasil, dias de comemoração dos 25 anos do Som do Céu, para discutir dois temas principais: “A música e os músicos na igreja” e “A igreja como promotora de cultura”.

Agradecemos a Deus pelos dias de comunhão fraterna entre nós e pelo privilégio de ouvi-lo entre as vozes pastorais e proféticas que ecoaram em nosso meio. Reconhecemos que a música cristã tem ocupado um espaço significativo em nossos dias, tanto na igreja como na sociedade em geral. No entanto, observamos que nem sempre essa participação tem sido consistente e coerente com a Palavra de Deus – nosso referencial maior – nem rendido glórias ao Senhor da Igreja. Desejamos, portanto, apresentar à Igreja brasileira a “Carta do Som do Céu”, sintetizada em 25 pontos, que resume nossas inquietações e propõe ações práticas à Igreja de Cristo Jesus, nesse princípio de século XXI:

1. O artista cristão deve desenvolver o seu dom criativo e submetê-lo exclusivamente aos valores da Palavra de Deus;

2. Cremos que a arte, na perspectiva da graça comum, é um presente dos céus a toda humanidade e não está restrita aos cristãos;

3. Desejamos que haja coerência entre a vida, o ministério e a profissão do artista cristão, cujo discurso deve estar aliado à sua prática;

4. Esperamos que o artista cristão busque servir a Deus e à sociedade com excelência e integridade, dedicando-se ao desenvolvimento dos talentos e dos dons recebidos do alto;

5. A igreja precisa estar atenta ao artista cristão como parte do rebanho de Deus e dar a ele a atenção devida, despida de preconceitos, e oferecer-lhe pastoreio e discipulado, objetivando a sua formação espiritual e ética;

6. Esperamos que o artista cristão esteja envolvido em uma igreja local, servindo-a e amando-a como Corpo de Cristo. Deve ser rejeitada toda e qualquer tentativa de desenvolvimento de uma fé individualista e distante da comunidade;

7. Reafirmamos que a elaboração de textos e letras deve ter embasamento nos valores da Palavra de Deus;

8. Comprometemo-nos a dedicar atenção e reflexão às canções que são introduzidas no culto de adoração e nas demais atividades da igreja, buscando um repertório equilibrado e consciente e evitando, de todas as formas, que heresias e desvios teológicos adentrem sutilmente em nossas comunidades;

9. As igrejas, as instituições de ensino teológico e os artistas cristãos devem combater o ensinamento equivocado e amplamente difundido de que louvor e adoração restringem-se à musica, ensinando, por demonstração e exemplo, que se trata de um estilo de vida que envolve todas as áreas da nossa existência e que a música, assim como outras formas de arte, é expressão legítima de louvor e adoração;

10. A igreja deve agir como facilitadora na adoração e abrir espaço para que todos expressem seu louvor a Deus;

11. Esperamos que o músico cristão busque e desenvolva a santidade, vivendo uma vida piedosa, tanto no serviço prestado a Deus na igreja, quanto fora dela, em sua atividade profissional;

12. Rejeitamos a dicotomia que faz separação entre o sagrado e o secular e cria espaços estanques na vida do cristão. O Senhor Jesus é soberano e governa todas as instâncias da vida, e, por isso, devemos somente a ele a nossa fidelidade, agradando-o em tudo e rejeitando tão-somente o que ofende a sua glória;

13. A Igreja não se pode esquivar de sua responsabilidade diante da cultura na qual está inserida; deve mentoriar a reflexão e a prática de uma teologia de arte e cultura;

14. Incentivamos as igrejas a abrir suas dependências para a realização de eventos culturais como exposições, mostras, cursos, saraus e outras atividades visando à educação, à divulgação e à aproximação da sociedade;

15. Mesmo entendendo que todo trabalho na igreja é voluntário, podemos honrar com sustento ou remuneração aqueles que se dedicam ao ministério musical, se a comunidade disponibiliza de recursos para tal;

16. Entendemos que nossa arte deve encarnar uma voz profética e manifestar em seu conteúdo os valores do Reino;

17. Recomendamos que as igrejas promovam encontros de reflexão sobre a utilização das artes no Reino de Deus, capacitando os artistas para a realização de seu trabalho;

18. Incentivamos os músicos a expressar em sua arte a beleza de Deus por meio de uma contextualização e diversidade musical;

19. Reconhecemos o caráter essencialmente transformador e questionador da nossa arte e não cremos que ela deva estar a serviço do mercado;

20. Muito embora os artistas cristãos não se devam render aos senhores da mídia, tornando-se reféns desta, podem utilizar de maneira ética os meios de comunicação como canal para a divulgação de sua arte, proclamando, assim, o Reino de Deus;

21. No que se refere ao relacionamento entre os músicos e a liderança eclesiástica, encorajamos o diálogo, o respeito e o reconhecimento mútuo de seus ministérios como algo dado por Deus;

22. Incentivamos que os artistas cristãos busquem perante o Estado e a iniciativa privada recursos para a promoção de sua arte por meio de leis de incentivo à cultura, editais para financiamento de projetos culturais etc.

23. Encorajamos as igrejas a investir na educação e na formação de artistas;

24. Propomos que as igrejas e as instituições de ensino teológico incentivem as diversas manifestações artísticas e não somente a área musical;

25. Compreendemos que o ofício de artista é legítimo como tantos outros, podendo ser exercido pelo artista cristão no mercado de trabalho e devendo ser apoiado e incentivado pelas comunidades cristãs.

São Sebastião das Águas Claras, 9 de abril de 2009.
Assinam:

Debatedores:
Aristeu de Oliveira Pires Junior – Canela (RS)
Carlinhos Veiga – Brasília (DF)
Denise Bahiense – Rio de Janeiro (RJ)
Erlon de Oliveira – Belo Horizonte (MG)
Gladir Cabral – Florianópolis (SC)
João Alexandre Silveira – Campinas (SP)
Jorge Camargo – São Paulo (SP)
Jorge Redher – São Paulo (SP)
Marcos André Fernandes – Garanhuns (PE)
Marlene F. Vasques – Goiânia (GO)
Nelson Marialva Bomilcar – São Paulo (SP)
Paulo César da Silva – São José dos Campos (SP)
Romero Fonseca – Goiânia (GO)
Rubão Rodrigues Lima – Brasília (DF)
Sérgio Pereira – Ribeirão Preto (SP)
Wesley Vasques – Goiânia (GO)

Demais participantes:
Alfredo de Barros Pereira – Brasília (DF)
Andréa Laís Barros Santos – Maceió (AL)
Aracy Clarkson Ferreira – Rio de Janeiro (RJ)
Armando de Oliveira – Salvador (BA)
Bruno Leonardo Alves da Fonsêca – Garanhuns (PE)
Caio César da Silva Pereira – Brasília (DF)
Carolina Gama – Campinas (SP)
Carolina Lage Gualberto – Belo Horizonte (MG)
Cláudia Barbosa de Souza Feitoza – Brasília (DF)
Danielle Martins Lima – (MG)
Davi Julião – São Paulo (SP)
Dora Bahiense – Florianópolis (SC)
Elecy Messias de Oliveira – Goiânia (GO)
Fábio Cândido de Jesus – Anápolis (GO)
Felipe de Freitas Hermsdorff Vellozo – Niterói (RJ)
Francely F. Barbosa – Anápolis (GO)
Glauber Plaça – São Paulo (SP)
Gleice de Oliveira Vicente Cantalice – Maceió (AL)
Guilherme e Alessandra Fontes Vilela Carvalho – Belo Horizonte (MG)
Guilherme Praxedes – Belo Horizonte (MG)
Hadassa de Moraes Alves – Viçosa (MG)
Irineu Santos Junior – Belo Horizonte (MG)
Isabella Sarom Sabino Honorato – Anápolis (GO)
Ismael S. Rattis – Brasília (DF)
João Carlos Pereira Junior – Vitória (ES)
Jocemar “Mazinho” Filho – Recife (PE)
Jônatas de Souza Reis – Belo Horizonte (MG)
Karen Bomilcar – São Paulo (SP)
Leonardo de Azeredo Peclát – Goiânia (GO)
Leonardo Rodrigues Barbosa – Brasília (DF)
Lidiane Dutra da Silva – (MA)
Marcel Martins Serafim – Jacareí (SP)
Marcelo Gualberto da Silva – Belo Horizonte (MG)
Márcia Pacheco Foizer – Brasília (DF)
Marilda Redher – São Paulo (SP)
Marivone Lobo – Ribeirão Preto (SP)
Pedro Barbosa de Souza Feitoza – Brasília (DF)
Rafael Ribeiro Santos – São Paulo (SP)
Renata Telha Ferreira – Rio de Janeiro (RJ)
Roberto Cândido de Barros – Curitiba (PR)
Selma de Oliveira Nogueira – São Paulo (SP)
Silvestre Moysés Loyolla Kuhlmann – São Paulo (SP)
Stênio Március – São Paulo (SP)
Talita Estrela R. Martins – Belo Horizonte (MG)
Vânia Sathler Lage – Belo Horizonte (MG)
Walma Oliveira – Rio de Janeiro (RJ)

Manifeste seu apoio (ou crítica) no site Cristianismo Criativo: ( ou aqui)
http://www.cristianismocriativo.com.br/index.php?option=com_content&task=view&id=335&Itemid=36

17
mar

E era sexta-feira 13

   Postado por: Rubao   em Papo aberto

lua-5.jpgA última sexta-feira, a próxima passada, foi sexta-feira13. Uáu! De cara esse nome chama a atenção. Logo pela manhã, no sinaleiro, um daqueles garotos vendedores de jornal quase esfregou na minha cara um jornal com uma manchete onde se lia “sexta-feira 13, saiba como se prevenir ” Mais isso não é privilégio nem desse jornal nem de Brasília, todos os noticiários e telejornais deixaram um espaço em “relevo” por tal dia de azar. Isso é assunto mundial.

É um saco ver aquelas moças e rapazes jornalistas tão estudados e cultos fazendo matérias enormes sobre um tema desses e “ai” de quem não fizer. Então resolvi dar uma chance pra mídia e fiquei observando o que poderia acontecer num dia tão “importante” com esse. Dizem que quebra espelho nesse dia da muito azar. A tradição diz também que passar por baixo de escada, cruzar com um gato preto na rua, etc. São coisas que você não deve experimentar nesse dia muito menos se à noite tiver lua cheia. Alguns afirmam até já terem visto o lobisomem. Eu hein!

Passei o dia em estado de observação e nada. Lá pelas 20h fui a uma reunião, abriu até uma lua bonitona, mas nada além de um dia agradável e normal. Aí lembrei que no final da tarde, saí pra dar minha caminhada diária e quando já estava voltando, um camarada em um carro parado no acostamento me chama. “Por favor, será que você pode me dar uma ajudar aqui? Meu carro ta apagando e eu não sei nada disso” Disse ele. O cara tava com um problema no carro e toda água do RADIADOR (viu Betão?) vazava e esquentava muito. Eu não sei mexer em nada de mecânica, mas eu percebi uma coisa: Plin! Eu tenho cara de mecânico, de sargento da PM ou de professor de capoeira. É mole? Com essa cara e um pouco de talento eu poderia ganhar uma grana arrumando carros, ou sendo PM prendendo muitos bandidos e traficantes em nome da Lei e como mestre de capoeira teria uma boa escola na periferia, regatando crianças da rua. Mas ter a cara de capoeirista tem dois lados: Um é que o mala fica com medo de mim por eu seu lutador em potencial, isso é bom. Por outro lado, quem for me encarar nunca virá só, ele deve pensar: “Esse cara é lutador, vou ter que levar mais cinco comigo” Aí eu to lascado.

Mas a verdade é que enquanto eu explicava pro cara que não sabia nada de mecânica um carro parou um pouco à frente, deu uma ré, e desceu um sujeito, sem cara de mecânico já dizendo: E aí beleza? Que que ta pegando aí? O cara era um ex-mecânico vindo do trabalho e vendo o nosso desespero resolveu parar pra ajudar e ainda me falou rindo: “Eu sei como é ficar no prego, ainda mais uma hora dessas”.

Numa outra sexta-feira, que não sei se era 13, mas há uma chance, aconteceu um grande marco na história da humanidade, a Sexta-feira Santa ou Sexta-feira da Paixão que é a sexta antes do domingo de Páscoa e pode cair em qualquer dia entre 20 de março e 23 de abril. Foi nesse dia que aconteceu o beijo da traição e nesse mesmo dia o Rei dos Judeus morreu crucificado no Calvário, seria trágico se fosse apenas uma morte vergonhosa de cruz, aquele ato foi muito mais, foi uma entrega voluntária. O Rei morreu inclusive em favor daqueles que o mataram. Uma sexta inesquecível. 

Sim, voltando… Era a sexta-feira do azar segundo todos os jornais. O carro quebrou em pleno rush de fim de tarde, eu não sei nada de mecânica, mas o cara (ex-mecânico que não deixa de ser mecânico) parou o carro, abriu o porta-malas, tirou uma caixa grande de ferramentas, alguns fios e disse: “Vou fazer uma gambiarra que vai dar pra você chegar em casa tranquilo, aí, é só desligar esse fio que o carro desliga e amanhã você chama um mecânico, isso é coisa simples”. E o carro funcionou.

A verdade é que ninguém para pra ajudar, ainda mais num trânsito daquele e na hora em que as oficinas estão fechando as portas, e, não é comum um mecânico passar por perto nessas horas muito menos parar só pra ajudar. Ele não aceitou nada, dava umas risadas largas como quem era um velho amigo meu e foi embora dizendo que foi um prazer e que tinha que correr por que ainda iria pegar menino na escola. O cara do carro agradeceu quase beijando-o e fomos felizes pras nossas casas. E era uma sexta-feira 13.

Um xêro pra que gosta da gente.

Rubão

25
fev

Baixe meus CDs de graça

   Postado por: Rubao   em Papo aberto

Abaixo à PIRATARIA

Baixe meus 2 CDs solo, Poema e Uma História e Um Violão de graça.

Resolvi combater a pirataria com postura e atitude não comprando cd pirata e me associando à Trama Virtual, site onde artistas disponibilizam suas músicas pra serem LEGALMENTE baixadas e ainda recebem dos patrocinadores do site. Maravilha!

No canto direito, tem uma janela (cadastre-se) e é o que você deve fazer. Ao cadastra-se você automaticamente estará autorizado a baixar os CDs. Pronto!

Passe lá faça download, indique pra sua galera e me dê sua opinião.

Todo artista tem que ir aonde o povo esta” Já dizia Milton Nascimento. 

Clic aqui: http://tramavirtual.uol.com.br/artista.jsp?id=90920

Aquele abraço

Rubão

16
fev

Qual o preço de uma prostituta?

   Postado por: Rubao   em Papo aberto

maos.jpgComecei o Ano Novo cheio de propósitos e metas, coisa que todo mundo faz nas suas juras de fim de Ano. Uma delas era perder peso. Um cara de 1,72m, careca, beirando os 46 anos e pesando murchando a barriga 81 kg não tava bem na fita. Em alguns momentos eu me sentia rolando em vez de caminhando. Hehe!! To atacando de 76 Kg, isso sem murchar a barriga (que não quer dizer nada, mas pra foto…). Não Parei com a gorducha coca-cola, não faço regime, não dispenso um churrasco, mas ando diariamente 6 Km e ainda entrei pra pelada que a galera da Comunidade ta fazendo toda segunda-feira no Mackenzie. Pros que me acompanham sabem que há um ano isso seria impossível dado o meu grave problema de saúde, Mas Deus que é maior que os problemas ta me concedendo essa graça mesmo que recomeçando pela banheira, e ai daquele que não tocar a bola pra mim. Rsrs.

Há quase dois anos sem jogar bola, meu finado tênis de futsal foi arrebatado e eu improvisei minhas peladas com um tênis de caminhada que por sinal é horrível pra jogar ainda mais pra quem estava parado, acima do peso e tropeçando nos próprios pés. Finalmente resolvi comprar um tênis novo, oficial, coisa de peladeiro profissional.

Quem conhece Taguatinga-DF sabe onde fica a Praça do Relógio, o centro comercial onde estão todas as lojas de material esportivo como é em toda cidade. Pense num cara eufórico! Eu mesmo, afinal era segunda-feira e eu poderia estrear com tênis novo pra desespero dos zagueiros e goleiros adversários. 5h da tarde, e eu tinha que agir rápido. Parecia marcação, mas na loja que achei o modelo certo, não tinha o tamanho, enfim, fui em cinco lojas com direito a repassar em 3 delas isso tudo sem grande evolução na minha frenética busca, por fim refiz os planos econômicos e optei por um tênis bem mais caro, mas tão confortável, leve e bonito que da até dó de sujar. Rsrs.

O centro de Tagua (tinga) não muda muito se comparado a São Luis, Anápolis e Goiânia, cidades que conheço bem. Entre uma loja e outra existe umas portas que dão a uma escada ou corredor com algumas moças minusculamente vestidas, maquiadas e com ar de quem tem algo a ofereceu, e tem. O próprio corpo. Não sei qual o “preço” daquelas moças, mas não faz muito tempo que saiu no jornal de Brasília que meninas estavam se prostituindo por até R$ 1,99.

Na minha correria entre as lojas eu não as vi, passei batido, mas vindo da loja com um par de tênis novo, satisfeito e sem correria passei pela terceira vez no mesmo lugar e percebi que tinha uma “dessas” moças em pé sorridente e mexendo com quem passava ali, e só aí, foi que eu percebi que elas estavam ali e provavelmente estarão hoje e amanhã como mais um produto no centro comercial. Eu vi a moça em pé, mas percebi que tinha outras espremidas nas escadas do corredor e uma delas me olhou e continuou me olhando e eu a olhei nos olhos. Ela não conseguia rir, nem falar, nem se mexer, apenas deixou o semblante cair e me fitou os olhos como quem não tinha sido vista a dias ou anos. Ela estava ali como as outras dizendo com seu corpo: “Quanto você paga por mim? Aceito proposta e contraproposta”. Mas seu olhar sem muita vida, sem muito brilho me dizia: “Socorro! Help! Estou morrendo. Alguém, por favor, ouça meu olhar!” Que situação constrangedora, quase morri encucado com aquilo. Num primeiro momento eu tive vontade de jogar pedras vendo a moça mexer com todos, num segundo eu queria ajudá-las ou pelo menos ouvir o grito calado daquela alma condenada à vulgaridade e a humilhação de comer das migalhas que qualquer um pode paga por seu corpo. Essa certamente a radiografia de todas inclusive aquela em (de guerra).

Conta o Grande livro de História que uma mulher chamada Raabe, assim como aquela moça, era prostituta, talvez a mais famosa que história conheceu. No auge de sua “miséria humana” Ela era conhecida por sua vulgar profissão num tempo em que apedrejamento era como festejo de São João no interior, uma festa, mas ela foi corajosa e escondeu em sua casa 2 espias (missionários de Deus) e quando os perseguidores a mando do rei de Jericó chegaram para prendê-los ela disse: “Eles estiveram aqui, mas chagando a noite se foram e não sei onde estão, se vocês correrem talvez os alcancem”. Com essa atitude de proteção ela correu todos os riscos até por que sendo prostituta não era alguém que se confiasse, ela os escondeu no terraço de sua casa entre uns talos de linho que havia arrumado. Como sua casa fazia parte do muro da cidade ela os desceu por uma corda, mas antes, olhando nos olhos os fez prometer que se lembrariam dela e de sua família. A palavra dela dizendo que jamais diria por qual caminho eles foram, valeu mais que a moral de toda uma cidade com seus títulos de cidadãos, festas de 15 anos, formaturas do primeiro filho, bon$ casamentos e número de mandatos de políticos moralistas.

Aqueles homens ficaram escondidos onde só ela sabia e nunca foram achados. Tempos depois eles voltaram com um forte exercito e mataram e destruíram tudo e todos, mas Raabe foi poupada e teve sua dignidade restaurada. A história é interessante e recomendo que você a conheça melhor. (Josué 2 a 6)

Vale a pena ouvir a voz de um olhar, não sei como ajudar aquela moça do corredor, mas aquele olhar me falou muito mais que muitos poemas e scraps cheios de flores brilhando com textos adocicados de auto-ajuda. O olhar tanto de Raabe quanto da moça do corredor me ensinam hoje que o tempo esta para pensar em ajudar ao próximo e não em qual produto vai limpar melhor o meu umbigo. Uma prostituta não tem preço ela já foi comprada pelo SANGUE que já foi derramado no madeiro.

Ah! Acredite se quiser! Raabe foi mulher de Salmon possivelmente filho de Calebe e mãe de Boaz e de sua descendência nasceu Jesus, o nosso Salvador. (Mat.5-1)

Um xêro pra quem gosta da gente.

Rubão

23
dez

Vai entender…

   Postado por: Rubao   em Papo aberto

casa-simples-2.jpgNossa Comunidade decidiu fazer uma cantata de Natal. Fazer mesmo, dos pés à cabeça. Das músicas aos textos e cenário, sem falar de um maluco que se empolgou e queria colocar som e iluminação “De cinema” e colocou. Uma cantata com banda ao vivo e músicos e som profissionais, e , como é a nossa cara, tudo à base de ritmos brasileiros com triângulo, pandeiros, zabumba, viola, etc. Com músicas minhas, da Janice, do Carlinhos Veiga e do Zazo (Banda Céu na Boca), do samba ao xote, fizemos nossa Cantata contextualizada.

O povo pirou o cabeção quando chegou à igreja e viu tanto canhão de luz e coluna de som além da peça que foi show. O “trem” ficou tão bem produzido que no sábado mesmo resolvemos que faríamos uma reapresentação na segunda, se todos pudessem claro. Todos confirmaram, menos um. O Maurício, o cara tinha uma reunião da empresa em Floripa na segunda. Ele não faz um solo, mas sua participação no contexto era tão importante quando qualquer outro, além do que foram muitos ensaios e tal, mas… Ele com uma cara de “Deus me livre” aceitou seu sofrido destino de desfalcar o elenco, beijou a mulher e os meninos e entrou naquele “pássaro grande”. Acredite se quiser, acontece um problema no Aeroporto de São Paulo e três pessoas foram gentilmente convidadas a desafivelarem seus cintos, pegarem seus objetos pessoais e se retirarem da aeronave. Hehe! Quem era um deles? O Maurício.

Ficamos sabendo do caso no domingo, antes da apresentação quando juntamos a turma nos batstidores pra fazermos  aquela oração de entrega e clemência e o líder falou: - “Galera, tenho uma benção pra contar. O Maurício acaba de ligar, ele estava dentro do avião pronto pra voar quando o Comandante avisou … (Contou a ladainha toda) E Maurício ligou do Aeroporto pedindo pra guardá-lo por que ele já ta vindo pra cá” . O negócio foi tão invocado que nem precisamos atrasar, na hora de começar a apresentação lá estava o Maurício com aqueles olhos vermelhos. Foi em cima. Puff! Vai entender… Tem uma hora (cena) em que ele entra e da um grito… Mas pense num grito alto! Rsrsrs.

Quinta-feira pela manhã, eu e meu amigo Carlinhos fomos à Administração Regional do Lago Norte levar mais um furgão cheio de doações pra Santa Catarina. Voltando ele conversou:

- Cara, to com uma votade de ir lá no Varjão (Varjão é um assentamento próximo ao Lago Norte onde mora uma irmã muito querida, a Arlete. Ela esta construindo sua casinha).

- Uái! (goianamente falando) Se você quiser, podemos ir, agora.

- Não vai te atrapalhar não? Beleza!

Numa rara localização de revelo acidentado em Brasília, de dentro do carro mesmo, tínhamos uma panorâmica do Varjão. Engatamos a primeira e seguimos. A nossa amiga esta construindo ali, finalmente, sua tão sonhada casinha. Ela como todos os moradores daquele setor, ganhou um lote, mas o dela tinha um terreno tão íngreme que o telhado do seu barraco ficava abaixo do nível da rua. Você consegue imaginar o que é isso? O que é em dia de chuva, ter que subir nas camas pra água correr por baixo sem que se trate de enchente? Isso no DF. Pois bem, essa era a realidade dela. Mas a Arlete conseguiu ganhar da Administração um aterramento de 50 caminhões de terra nivelando seu lote. Uau!

Ela com seu digno trabalho de diarista, juntou uma grana e mandou levantar as paredes de sua nova casa, na realidade, parte dela. São dois cômodos que segundo ela seriam suficientes pra que ela saísse do aluguel provisório ( barraco próximo ao seu lote onde mora desde que começaram a aterrar) e voltasse pro lote, agora aterrado e com uma casa nova.

Eu e meu amigo saímos com destino ao Varjão pra vermos a “benção” da nossa amiga, a gente sabia que toda quinta-feira ela trabalha fora e não estaria em casa, mas fomos assim mesmo. Fique atento!

Assim que entramos no Varjão, em meio ao movimento da cidade agitada eu vi a Arlete passando com dois dos seus seis filhos ( Mulher de 35 anos, jovem, avó e guerreira que a três anos se diz filha de Deus e que não se cansa de falar do Seu amor e o que Deus fez e faz na vida dela) Ela nos disse que a casa que limparia na quinta, a patroa pediu que ela limpasse na quarta, por isso a “sorte” de a encontramos. Tudo bem, assim poderíamos ir juntos, e fomos.

Dois choques eu tive: Primeiro, a casa que ela tão orgulhosa falava e tanto desejava nos mostrar e entrar feliz com seus filhos era menor que minha garagem. Nossa! Que realidade impactante! Segundo: Andando pela construção, meu amigo percebeu algo estranho. Pra segurar o aterro foi construído um muro bem reforçado, um tipo de barreira, sei la, mas por alguma razão, com as chuvas a terra havia pressionado a parede do aterro que cedeu fazendo uma curva ou barriga. Caramba! Que risco de tragédia. Foi providência de Deus nos levar ali. Ela ficou desesperada, até por que queria entrar até o final de semana, mas agora nem pensar. Então decidimos ir juntos à Administração que tem como procedimento normal o sistema de agendamento e posterior reunião com a administradora, uma coisa totalmente morosa. Entramos no carro e algumas quadras a baixo, a Arlete gritou, -“Olha ela ali, aquela é a administradora” .Paramos o carro. E por graça de Deus, a administradora que não atende ninguém assim, nos atendeu na rua mesmo, e mais, alterou sua agenda, chamou o engenheiro, e juntamente com sua equipe nos seguiu até ao lote pra olhar a situação. Todos ficaram preocupados, a coisa era séria mesmo. Ela nos agradeceu e prometeu usar do que fosse preciso pra fazer o reparo urgente e ainda, caso houvesse prejuízo à construção, faria uma reposição total. Tudo assim na bucha!

Agora veja, a gente não tinha programado ir ali, a Arlete deveria estar trabalhando na quinta-feira, a administradora só atendo com agendamento, não havia engenheiro à disposição (O cara é novo contratado) e mais, a Arlete me disse que um filho de Deus foi lá no mesmo dia e pagou 2 meses atrasados de aluguel do barraco, Até Janeiro ta tudo pago. Vai entender…

Um Pai resolveu entregar seu unico filho que nasceu no dia dia de Natal, pra morreu pelo Maurício, por mim, pelo Carlinhos, pela Arlete e por você, pra que houvesse Esperança, pra que o Natal tivese sentido. Nasceu o Salvador. Vai entender… tanto Amor.

Um xêro pra quem gosta da gente.

Rubão

5
dez

E a água veio e levou

   Postado por: Rubao   em Papo aberto

blumenau-sc-octuberfest-183800.jpgNão da pra não se sensibilizar com a tragédia ocorrida em Santa Catarina, aliás, esse será o motivo de muita roda de conversa. Umas em volta de seus sofás confortáveis, outras em pé lembrando dos sofás que a água levou. 

Estive cantando em Blumenau por duas vezes, e conheci uma linda e hospitaleira cidade colonizada por alemães (polacos), com uma arquitetura de riqueza e beleza e inestimáveis. Uma terra de povo bonito e trabalhador, da Oktoberfest (conheci na igreja uma moça que era ex-campeã da famosa competição de beber o chopp mais rápido), de um rio onde se via capivaras às suas margens pegando um sol. 

Em Blumenau é cultura, todo mundo trabalha muito e fala pelo menos dois idiomas. Ali fiz boas amizades, entre outros conheci o Alex um cara gordinho, na faixa dos 150 kg ou mais, que na beira da piscina (a parte sofrida das viagens) matava a galera de rir dançando a “Dança dos cisnes” e depois pulando na piscina, obviamente molhando todos e tudo em volta. A gente brincava dizendo que a cada mergulho a piscina baixava meio metro. Hehe! Me deparei também com uma juventude muito alegre, fazedora e contadora de piada. Fiquei assustado (bom susto) porque sempre as pessoas diziam que a galera do Sul era muito fechada e não foi isso que conheci. Com as devidas proporções parecia o Nordeste.

Outra coisa interessante que lembrou minha querida São Luis, é que lá, eles colocavam na mesa e faziam questão de nos servir com orgulho, um refrigerante local, que não lembro o nome agora, mas era gostoso. Eles não fazem pose com a Coca-cola como nós aqui em Brasília e talvez aí. Muitas vezes até por achar que nossos visitantes vão nos chamar de murrinhas se só tiver Guaraná ou outro. Eu gosto da Coca, mas detesto a pressão. Em São Luis, nos orgulhamos de beber e servir o Guaraná Jesus, refrigerante local, que tem o mesmo preço da Coca-cola, não faz comercial e vende mais que ela. Gosto é gosto. E só pra informar, por uma questão de honra a Coca-cola comprou o Guaraná Jesus por uma quantia não revelada (certamente altíssima) só pra ter a honra de dizer que se ela perde pra outro refrigerante em algum lugar do mundo (Maranhão) ela perde pra ela mesma. Tá tudo em casa.

“E a água veio e levou o Zé” Fiz essa frase, parte da música Zé, 1900 (e alguma coisa) me referindo ao dilúvio que por causa do pecado do homem, Deus permitiu que a água caísse e arrastasse tudo e todos menos Noé e os animais na arca.

O que aconteceu em Santa Catarina, me lembrou muito a história do dilúvio, então a pergunta é: Quem pecou, os catarinenses? Alguém pecou pra que esse “dilúvio” viesse sobre aquelas terras? “Arrastando árvores, pensamentos, seguindo a linha do que foi escrito pelo mesmo lábio tão furioso…” (Zé Ramalho).

O homem perdeu a noção de preservação da natureza. Não há ecossistema, nem sistema e nem diadema que resista a tanta poluição. Não sabemos onde jogar nosso lixo, todo mundo sabe que saco plástico leva 100 anos pra se decompor, mas qual de nossas casas não tem um tanto deles, qual supermercado não nos dá de graça uma sacolinha? Procure uma estrela no céu de São Paulo, se achar “bata um retrato” isso é relíquia. Se pudéssemos estar hoje na linha (limite) da Floresta Amazônica, teríamos que andar ou correr “estádios” (Nem sei por que eles usam essa medida, mas é bom pensar no maior que puder) pra acompanhá-la até o final do mês. Chamam isso de 10matamento. As geleiras estão derretendo, o mar esta mais quente e subindo. Cidades vão sumir em 50 anos, isso é fato. Esse é o nosso pecado.

Nós temos culpa nesse desastre e nada nos garante que o próximo não passe “Se arrastando feito cobra pelo chão” (Gilberto Gil) levando nossa rua. Eu conheci bem Blumenau, dormi em uma casa de madeira, muito confortável por sinal, mas que ficava num morro e que não devem estar no mesmo lugar agora. Nem a casa, nem o morro. Conversei essa semana com um amigo e ele me disse que a casa dele não foi afetada, mas tudo em volta foi. Como refazer a casa numa rua que não existe mais? E a história? E os valores? Como esquecer os parentes e amigos que a água levou?

Criamos em nossa Comunidade (igreja) um Ponto de Coleta e juntamos aproximadamente uma tonelada de mantimentos e roupas. Mandamos hoje. Mandamos também dinheiro por fonte segura. O Brasil está comovido e não é pra menos. Nós somos os culpados.

Devemos chorar a dor de nossos irmãos, colaborar com o que estiver ao nosso alcance, ensinar nossos filhos sobre preservação e pedir a Deus que tenha misericórdia deles pela tragédia e de nós por nossos pecados. Pra que um dia não venhamos também a dizer: “A minha casa era ali, e a água veio e levou”.

Um xêro pra quem gosta da gente.

Rubão

23
nov

Um caminhão carregado de madeira

   Postado por: Rubao   em Papo aberto

caminhao-2.jpg A banda já estava a uma semana rodando por esse mundão de meu Deus, A gente levava uma tralheira e não esquecíamos jamais as caixas de CDs, camisetas, boinas, adesivos, pulseiras,… Andávamos preparados pra sobreviver na selva, mesmo que ele fosse de pedra.

Na estrada tudo ficava perto quando estávamos em nossa Kombi 1996 semi-nova, cor branco-gelo, com um baita adesivão de cada lado e cinco marmanjos aventureiros dentro. Lembrei até daquela “piada pronta”:

- Como é que se faz pro botar cinco elefantes dentro de um Fusca?

- É simples. Dois na frente e três atrás.

Era assim que a gente se arrumava naquela Kombi cheia de coisas e instrumentos. Lógico.

Final de semana e lá estávamos nós chegando a Sampa, pra ser mais exato na Vila Madalena. Mandamos um som no sábado, evento esse que não me lembro de nada e no domingo pela manhã também tocamos, e esse eu me lembro bem. Era um dia, pra variar frio e cinzento, coisa rara em São Paulo. Rsrs. A minha alergia estava à flor da pele. A galera lá, já me conhecia e providenciava sempre um brother de lá que é médico, Dr. Josué (Josuca pros íntimos) pra me entupir de remédio. Era como eu agüentava abraçar o povo com aqueles blusões cheirando a mofo com perfume, uma tortura pra qualquer alérgico na face da terra. Mas pra cada abraço que eu recebia, eu esquecia 15 espirros e como todo mundo dava um bom abraço, no final eu sempre sobrevivia. Hehe!!

Meio dia, a galera programou um almoço comunitário, um ambiente muito descontraído. Sentei numa mesa e na minha frente sentaram dois camaradas, um mais falador e outro branquinho fazendo o tipo meio tímido. O papo foi rolando sobre vários assuntos até que o cara conversador disse:

- Esse aqui (tocando no branquinho ao seu lado)  gosta muito da música de vocês e coincidiu dele vir aqui pela primeira vez e encontrar já vocês.

- Opa. Maravilha por isso!

- Mas o interessante mesmo foi a maneira como nos conhecemos.

- Ham!

- Cara, eu tinha uma empresa aqui na área de móveis e estava muito bem, ganhei muito dinheiro, mas comecei a dar umas cabeçadas e as coisas desandaram, também levei uns calotes grandes e quebrei legal, tanto que não conseguia crédito nem pra comprar matéria prima. Sai um dia desesperado e fui até o Paraná na esperança de arrumar alguém que me vendesse madeira fiado, pra que eu recomeçasse, mas sem crédito, ninguém abria as portas.

- Caramba! Você já tinha rodado o Estado de São Paulo todo e agora estava no Paraná e nada?

-Exatamente. Entrei Paraná adentro pedindo que Deus me abrisse uma porta. Eu já tinha ido até à fronteira visitando madeireiras e nada. O desespero e a descrença já tinham tomado conta de mim.

- Que Barra heim! Mas e aí.

- Já voltando, parei na última madeireira da estrada, fiz uma oração, criei coragem e entrei. O pessoal me recebeu bem, mas eles não estavam vendendo madeira, eles queriam mudar de ramo e pensavam em vender a madeireira com tudo. Eles estavam desiludidos  eu mais ainda por que nem uma tábua de madeira eu tinha pra vender e vi ali minha última esperança morrendo, bateu um desespero, mas… Agradeci a atenção, o pessoal me acompanhou até a saída, e foi aí que aconteceu uma coisa muito louca. Um dos sócios da madeireira, filho do velho dono, olhou pro meu carro (vidro) e falou: “- Você os conhece?” Eu falei, “- Quem? Ah, claro, estive recentemente com eles em São Paulo. Por que você pergunta?” “- Rapaz, eu sou fã desses caras a anos, mas tudo que tenho aqui é uma fitinha K7 de capa vermelha, por aqui não se encontra nada deles.”

- Foi mesmo cara?

- Escuta só. O cara era irmãozinho e fã de vocês, nos identificamos a partir do adesivo da banda Cia. de Jesus que comprei quando vocês estiveram aqui a uns anos atrás. E sabe o que aconteceu? Entramos novamente na loja, batemos um bom papo, abri meu coração pra ele e acredite, ele me vendeu fiado um caminhão de madeira, coisa de primeira. E mais, ficamos amigos, sócios e ele esta aqui em São Paulo pra acertarmos os detalhes finais de nossa segunda loja e o cara da fitinha K7, da madeireira, é esse aqui do meu lado (o branquinho).

“O que é loucura pros homens, é sabedoria pra quem conhece a Deus. I Cor.1:18”. Nunca mais reencontrei esses manos. Mas eu sempre me desmancho quando me lembro daquela típica e atípica manhã fria de domingo Paulistano. E tinha mais gente na mesa comigo. A rapaziada da banda pode confirmar a veracidade dessa “loucura” santa.

Você venderia um caminhão de madeira fiado pra um cara que você nunca viu mais gordo e nem mais magro, quebrado, só por causa de um adesivo?

Um xêro pra quem gosta da gente.

Rubão