Eu tenho um amigo chamado Lobato, o cara é aquele tipo “bem diferente”, filho da região amazônica ele trás no corpo as marcas indígenas: Pele morena, pouca fala, traços fortes e cabelos pretos e lisos. Um cara sistemático, mas muito inteligente, o tipo de cara que sabe realmente fazer um pouco de tudo, de tocar violão clássico a abrir um cadeado com um grampo (berilo, pros pernambucanos), um cara que saiu cedo de casa e botou o pé na estrada. Participou de Equipe de VPC, estudou no Palavra da Vida- SP, manda bem um inglês, estudou Letras, é muito sincero (só ri quando realmente acha graça da piada), casou com uma menina muito bacana e de uma paciência de Jó (ela merece o troféu Joinha). Hoje eles moram nos EUA, e Lobato trabalha como gerente de um Dunkin’Donuts.
Conheci Lobato nas Antas, ou Anápolis ainda no século passado. Vi ali um sujeito idealista, um cara de idéias boas e outras corajosas, por exemplo: Quando a Presbiteriana do Setor Sul decidiu construir seu templo e os arquitetos e engenheiros começaram a rabiscar o projeto do prédio ele chegou com uma proposta pronta de que se fizesse não um templo, mas uma arena tipo Teatro aberto, um troço muito doido e até interessante, mas não pra uma igreja Presbiteriana do Brasil e nem de outro lugar do mundo. He!! Ele estava também, junto com Betão no começo da “minha” banda, e, diga-se de passagem, o nome da banda foi sugerido por ele.
Entre muitos fatos inusitados que pude acompanhar desse “figura”, um deles se deu num Pit Dog e pra quem não é da área, trata-se de um point de lanche que serve sanduíches feitos na chapa, com bacon, ervilhas , batata palhas, ovos, etc. Deu até saudade agora, o trem cheira a três quarteirões e toda boa praça goiana que se presa tem um.
Já era fim de tarde, começo de noite de sábado quando meu amigo resolveu pegar sua moto (que futuramente seria minha) DT 180, ano 84, original, preta, seu capacete preto e como ele estava de calca preta, colocou um blusão preto, ou seja: O homem de preto. O Pit Dog que ainda esta lá, fica em uma esquina da Praça da Prefeitura tendo de um lado um bom estacionamento e do outro uma escadaria tipo arquibancada que desce pra um bem arborizado jardim, ali também ocorre uma feirinha aos finais de semana. Um ambiente maneiro pra se fazer um lanche e bater papo, mas Lobato só queria fazer o pedido e levar pra casa, pra comer com a digníssima.
Aqui começa o “Ringo não perdoa”, “Só um viverá”, “Procura-se vivo ou morto”, o faroeste caboblo… Ele estava com um panfleto de propaganda de algo tipo programação de eventos do aniversário da cidade. Enquanto o rapaz da chapa terminava de preparar o lanche, o dono do recinto pegou o panfleto e começou a ler. Tudo bem, nada demais. Meu jovem amigo de preto paga, agradece e pede com gentileza o seu panfleto. Há!! O cara cisma de dizer que não vai dar porque achou encima do balcão. Lobato sistemático como era não iria deixar jamais de lutar pelo que era seu, mesmo que fosse um panfletinho amassado, afinal era seu. E foi nessa linha de argumentos seguidos de alterações de ambos os lados, que a coisa beirou agressão, parando com a interferência de populares e funionários. A Cena: O dono, grande e forte, sendo seguro por funcionários e clientes, xingando-o de tudo que é nome, só não o chamou de gente. Lobato com sua testa enrugada dizia: “Você é um cara mentiroso e moleque, você sabe que esse panfleto é meu”. E ele sabia mesmo, mas era um cara ignorante.
Depois do “deixa-disso” Lobato, franzino, mas muito revoltado vira as costas, pula em sua moto preta e sai em alta velocidade. Pronto, já podiam soltar o gigante nervoso, o rapaz fracote, caladão (velho cliente) que se importava com um simples papel já fora embora. O clima de ridículo ficou pairando no ar. 20min depois, o ronco da DT 180, preta, envenenada ecoana esquina. É o rapaz de preto, ele estaciona a moto um pouco distante, tira o capacete, arruma a liga que segura seus cabelos lisos e compridos, vira de frente com sua mesma testa enrugado e um bigodinho de mexicano, e, segurando o blusão caminha rumo ao balcão. Cena típica de faroeste. Todo mundo imaginou a desgraça, o dono que estava pelo lado de dentro do balcão literalmente ficou verde, um tipo; “Incrível Hulk depois da gripe” Foi tudo muito rápido, não deu tempo nem de correr. Ninguém se arriscava a impedi-lo de se aproximar. O pequeno e fracote, agora, suposto “homem do Dolar Furado” (armado?), se tornara temido, todo mundo esperava o pior, esperava que ele sacasse uma arma e fisesse uma tragédia inconsequente, até por que ele saiu transtornado e resolver no braço não seria a melhor escolha.
Lobato olha nos olhos do grandalhão, agora, já nem tão valente e diz bem alto: “Você esta errado, o panfleto é meu, você sabe disso e eu não concordo com sua atitude ridícula, mas eu voltei aqui pra dizer que você pode ficar com ele, estou te dando e quero também te pedir perdão por que eu sou cristão e como cristão não deveria ter chegado a esse ponto. Eu quero que você me perdoe!”. E estendeu a mão pro cara. Você entende o que é “Sorriso amarelo”? O cara depois do susto, suando frio, reconhece sua bobeira e confessa: “Eu é que estou errado você tem razão, eu estou com problemas e estourei à toa, eu é que peço desculpas”. E estendeu a mão. Lobato aperta a mão dele, balança a cabeça e sai. A galera pasma, vê aquele rapaz franzino, de preto dos pés à cabeça virar as costas, ligar sua moto fumacenta, acelerar e sumir na curva da rua deixando na praça uma atitude de braveza jamais vista.
Eu me emociono toda vez que relembro essa história principalmente por duas razões:
UMA - Eu não brigaria por causa de um panfleto que um doido insiste em dizer que é dele. Ainda mais grandalhão.
OUTRA - Eu duvido que eu voltaria pra pedir desculpas. Mas ele fez o certo.
Um xêro pra quem gosta da gente.
Rubão







Acabei de chegar da Feira do Livro de Brasília. Fique mais de 5h em pé, devorando livros, almanaques, livros, origamis e livros. Minha menina fez a festa, e nós as contas do investimento. Foi um bombardeio de literatura, arte e informação. Esse ano quem me chamou muito a atenção foram os “cabras do Cordel”. Perece que as letras se lhes escorrem dos dedos. Então empolgado pelo clima, me atrevi a riscar, esse, que se cantado, seria um repente.