5
Nov

Faroeste no Pit Dog

   Postado por: admin   em Papo aberto

faroeste.jpgEu tenho um amigo chamado Lobato, o cara é aquele tipo “bem diferente”, filho da região amazônica ele trás no corpo as marcas indígenas: Pele morena, pouca fala, traços fortes e cabelos pretos e lisos. Um cara sistemático, mas muito inteligente, o tipo de cara que sabe realmente fazer um pouco de tudo, de tocar violão clássico a abrir um cadeado com um grampo (berilo, pros pernambucanos), um cara que saiu cedo de casa e botou o pé na estrada. Participou de Equipe de VPC, estudou no Palavra da Vida- SP, manda bem um inglês, estudou Letras, é muito sincero (só ri quando realmente acha graça da piada), casou com uma menina muito bacana e de uma paciência de Jó (ela merece o troféu Joinha). Hoje eles moram nos EUA, e Lobato trabalha como gerente de um Dunkin’Donuts.

Conheci Lobato nas Antas, ou Anápolis ainda no século passado. Vi ali um sujeito idealista, um cara de idéias boas e outras corajosas, por exemplo: Quando a Presbiteriana do Setor Sul decidiu construir seu templo e os arquitetos e engenheiros começaram a rabiscar o projeto do prédio ele chegou com uma proposta pronta de que se fizesse não um templo, mas uma arena tipo Teatro aberto, um troço muito doido e até interessante, mas não pra uma igreja Presbiteriana do Brasil e nem de outro lugar do mundo. He!! Ele estava também, junto com Betão no começo da “minha” banda, e, diga-se de passagem, o nome da banda foi sugerido por ele.

Entre muitos fatos inusitados que pude acompanhar desse “figura”, um deles se deu num Pit Dog e pra quem não é da área, trata-se de um point de lanche que serve sanduíches feitos na chapa, com bacon, ervilhas , batata palhas, ovos, etc. Deu até saudade agora, o trem cheira a três quarteirões e toda boa praça goiana que se presa tem um.

Já era fim de tarde, começo de noite de sábado quando meu amigo resolveu pegar sua moto (que futuramente seria minha) DT 180, ano 84, original, preta, seu capacete preto e como ele estava de calca preta, colocou um blusão preto, ou seja: O homem de preto. O Pit Dog que ainda esta lá, fica em uma esquina da Praça da Prefeitura tendo de um lado um bom estacionamento e do outro uma escadaria tipo arquibancada que desce pra um bem arborizado jardim, ali também ocorre uma feirinha aos finais de semana. Um ambiente maneiro pra se fazer um lanche e bater papo, mas Lobato só queria fazer o pedido e levar pra casa, pra comer com a digníssima.

Aqui começa o “Ringo não perdoa”, “Só um viverá”, “Procura-se vivo ou morto”, o faroeste caboblo… Ele estava com um panfleto de propaganda de algo tipo programação de eventos do aniversário da cidade. Enquanto o rapaz da chapa terminava de preparar o lanche, o dono do recinto pegou o panfleto e começou a ler. Tudo bem, nada demais. Meu jovem amigo de preto paga, agradece e pede com gentileza o seu panfleto. Há!! O cara cisma de dizer que não vai dar porque achou encima do balcão. Lobato sistemático como era não iria deixar jamais de lutar pelo que era seu, mesmo que fosse um panfletinho amassado, afinal era seu. E foi nessa linha de argumentos seguidos de alterações de ambos os lados, que a coisa beirou agressão, parando com a interferência de populares e funionários. A Cena: O dono, grande e forte, sendo seguro por funcionários e clientes, xingando-o de tudo que é nome, só não o chamou de gente. Lobato com sua testa enrugada dizia: “Você é um cara mentiroso e moleque, você sabe que esse panfleto é meu”. E ele sabia mesmo, mas era um cara ignorante.

Depois do “deixa-disso” Lobato, franzino, mas muito revoltado vira as costas, pula em sua moto preta e sai em alta velocidade. Pronto, já podiam soltar o gigante nervoso, o rapaz fracote, caladão (velho cliente) que se importava com um simples papel já fora embora. O clima de ridículo ficou pairando no ar. 20min depois, o ronco da DT 180, preta, envenenada ecoana esquina. É o rapaz de preto, ele estaciona a moto um pouco distante, tira o capacete, arruma a liga que segura seus cabelos lisos e compridos, vira de frente com sua mesma testa enrugado e um bigodinho de mexicano, e, segurando o blusão caminha rumo ao balcão. Cena típica de faroeste. Todo mundo imaginou a desgraça, o dono que estava pelo lado de dentro do balcão literalmente ficou verde, um tipo; “Incrível Hulk depois da gripe” Foi tudo muito rápido, não deu tempo nem de correr. Ninguém se arriscava a impedi-lo de se aproximar. O pequeno e fracote, agora, suposto “homem do Dolar Furado” (armado?), se tornara temido, todo mundo esperava o pior, esperava que ele sacasse uma arma e fisesse uma tragédia inconsequente, até por que ele saiu transtornado e resolver no braço não seria a melhor escolha.

Lobato olha nos olhos do grandalhão, agora, já nem tão valente e diz bem alto: “Você esta errado, o panfleto é meu, você sabe disso e eu não concordo com sua atitude ridícula, mas eu voltei aqui pra dizer que você pode ficar com ele, estou te dando e quero também te pedir perdão por que eu sou cristão e como cristão não deveria ter chegado a esse ponto. Eu quero que você me perdoe!”. E estendeu a mão pro cara. Você entende o que é “Sorriso amarelo”? O cara depois do susto, suando frio, reconhece sua bobeira e confessa: “Eu é que estou errado você tem razão, eu estou com problemas e estourei à toa, eu é que peço desculpas”. E estendeu a mão. Lobato aperta a mão dele, balança a cabeça e sai. A galera pasma, vê aquele rapaz franzino, de preto dos pés à cabeça virar as costas, ligar sua moto fumacenta, acelerar e sumir na curva da rua deixando na praça uma atitude de braveza jamais vista.

Eu me emociono toda vez que relembro essa história principalmente por duas razões:

UMA - Eu não brigaria por causa de um panfleto que um doido insiste em dizer que é dele. Ainda mais grandalhão.

OUTRA - Eu duvido que eu voltaria pra pedir desculpas. Mas ele fez o certo.

Um xêro pra quem gosta da gente.

Rubão

23
Out

Boa medida, recalcada, sacudida e transbordando

   Postado por: admin   em Papo aberto

monte.jpg ”Boa medida, recalcada, sacudida e transbordando“. Quando li essa frase, já imaginei a melodia com aquele pancadão forte, os gingles de teclados comandados pelos DJs, a dupla com seu visual característico não esquecendo jamais, o boné novo virado pra um lado, aquele bermudão enorme lá embaixo, um camisão de time de futebol americano geralmente com um blusão de capuz por cima e um tênis branco com meias canos baixos, é impossível que um cara em sã consciência use meias até a canela. Isso administrado com muita energia no palco, contagiando a galera eufórica que grita e canta junto com eles o refrão: “Boa medida, recalcada, sacudida e transbordando”

Queridos, interpretação de texto é tudo. Eu deduzi: Com certeza esse é o novo funk da parada, aliás, nem poderia ser diferente, a linguagem é essa mesma.

Boa medida” deve ta falando da Juliana Paes, quem ainda não ouviu falar do “Bar da Boa” da cerveja Antarctica? “Recalcada, sacudida e transbordando” Eu nem vou comentar até porque a coreografia não vai deixar por menos, ao som de “Tum ti tum… tum tumtum Boa medida! Tum ti tum… tum tumtum a Recalcada!…” Já imaginei tudo.

Fiquei com essa frase e a batida na cabeça. Curioso que só macaco de zoológico, fui procurar melhor sobre essa letra.

Um cara gordinho, figuraça, amigo meu chamado Zé Carlos, inventou de ler um livro inteiro esse ano. Só que o cara é xarope, ele em vez de ler sozinho quer que a gente (os amigos) leia com ele. Então ele teve uma idéia: Plin! “Todo dia vou mandar três capítulos por e-mail pra galera”. E não é que o negócio deu certo? Tem “mó” galera acompanhando a leitura. Quero ver ele inventar um negócio pra ganhar dinheiro nessa crise. Mas foi no e-mail de terça-feira que li essa frase, e olhando com calma, veja o que diz o contexto:

É bom lembrar que esse é um livro de História, e nesse bloco de três capítulos o primeiro fala de um rapaz que estava sozinho no alto de um monte, tipo, Morro dos Pirineus – GO. Uma vista linda. Lá estava o rapaz acampado já a vários dias, meditando sobre a vida. De vez enquando isso é bom. Aí de repende pra desconcentrá-lo, surge a voz do mal  que chega pra Ele e diz: 

- Eu sei que você esta com fome. Estou te observando a dias. Então, porque você não come essa pedra? Você pode transformá-la em pão, veja como tem pedras bonitas, cristais, energia positiva (um troço meio esotérico, muito comum no Centro-Oeste).

Mas o rapaz faminto respira fundo e diz:

- Eu não vivo só de pão, prefiro uma boa Palavra.

A voz do mal insiste:

- Ta vendo esses montes e vales, cachoeiras, todo ecossistema e suas belezas naturais? Tudo isso é meu. E se você me pedir e me servir, eu te dou tudo isso e muito mais.

- Sai daqui coisa ruim. Eu nunca vou te pedir nada, nunca vou te servir, Eu já tenho o meu Mestre e só peço pra Ele.

O Livro vai ficando muito interessante em meio ao debate. A voz do mal não desistiu, e de um lugar bem alto, falou provocando mais uma vez o rapaz.

- Pula daí, os guardas do céu vão te pegar nos braços e você vai voar tipo Harry Porter e O Senhor dos Anéis lembra? É por ai. Confie em mim, você consegue. E eu estou aqui pra apoiá-lo.

O rapaz centrado e concentrado respondeu:

- Voz do mal, zarpa daqui, Eu não vou tentar ao meu Senhor.

E assim, depois dessa, voz do mal desistiu e se ausentou dEle. O rapaz desceu de lá cheio de moral, cheio de idéias revolucionárias, cheio de ideais. Ele venceu a provocação maligna, Ele foi aprovado e daí em diante fez um monte de coisas bacanas tipo: Trabalho social em comunidades carentes, trabalho com doentes e pessoas excluídas, assim como palestras em igrejas, escolas, praças, pescarias, acampamentos no deserto, etc. Só se ouvia falar dEle. Ele era formado em medicina, mas o livro conta que em alguns casos, as pessoas eram curadas só de olhar pro sorriso dEle, só de sentir Seu calou ou ouvir Sua voz. Dizem que esse negócio de morro funciona mesmo. Um amigo meu, Zilão, faz um trabalho assim em escolas e hospitais, ele se veste de palhaço e leva alegria e cura pra criançada muitas vezes com câncer. Maravilha por isso!

E como em todo lugar do mundo, quem não se vende, é massacrado pelo sistema. O jovem revolucionário é muito criticado, mas responde com palavras brandas tipo: “Dê a outra face quando te baterem”, “Não guarde nunca mágoa”, “Não julgue o teu próximo” ou “Dê, e te será dado”… E é ai que entra a frase “Boa medida, recalcada, sacudida e transbordando”. Porque você será medido com a mesma medida que medir os outros. Quem faz o bem, só ganha. As coisas ruins que aparecem não são catalogadas no coração. Ele da uma lição de vida. Pensando bem, a frase até que da um funk, mas a interpretação agora é outra. Sai fora Juliana!

Esse livro foi escrito por um médico chamado Dr. Lucas Disciplós, o cara não é brasileiro não, mas o livro é um best-seller, e como a leitura coletiva ta só no começo, Capítulos 4 a 6, se tu quiseres eu posso pedir pro meu amigo Zé, te mandar a parada por e-mail, ele vai se amarrar.

Um xêro pra quem gosta da gente.

Rubão

16
Out

Proverbalizando o Provérbio

   Postado por: admin   em Papo aberto

escada-de-livros-2.jpgPra começo de conversa, esse papo de hoje é sobre um provérbio do livro chamado Provérbios (tem gente que não sabe que existe esse livro, e tem gente que não sabe que existem provérbios que não sejam desse livro). Uma minoria lógico.

Pense num livro bacana de ler! É ele. Nele a gente encontra uma linguagem bem nossa. Quem não conhece uma mulher rixosa(briguenta)?, um cara mal pagador, etc. nem precisamos de um gringo (com todo respeito) pra nos me explicar. Hehe! Aqui no Brasa, como dizem os brasileiros que moram nos States, a gente sabe bem o que é isso, e esse livro é tão nosso e contemporâneo que tem uma linguagem bem brazuca.

O interessante é que ele é tão atual que a gente quase duvida que tenha sido escrito antes do chuveiro elétrico, do asfalto, da geladeira, do telefone, da sandália havaiana, da cueca e da Neosaldina pra cólica. Da pra imaginar?

Tem muitos provérbios interessantes, mas escolhi esse:

“Há três coisas que são maravilhosas demais pra mim,
sim, há quatro que não entendo;
O caminho da águia no céu,
O caminho da cobra na penha,
O caminho do navio no meio do mar
E o caminho do homem com uma donzela. Prov. 30:18-19”.

O caminho da águia pelo céu. Quem já andou de avião tem uma pequena noção do que é voar, mas quando a gente olha pra uma águia voando (Pra quem é do Maranhão que nem eu, pode trocar por um urubu, da no mesmo), percebe-se que ela tem domínio absoluto sobre o espaço aéreo, ela sempre sabe pra onde ta indo e o que esta procurando.

O caminha da cobra na penha, esse é tão curioso quanto estranho. Pra onde vai a cobra se arrastando, deslizando sobre terra, paus ou pedras se ela é praticamente cega? Mas ela sabe, por mais louco que isso possa parecer. Eu sou do tempo em que “cobra é pra se matar”, ainda bem que a conscientização chegou até este cabeça-xata. E a cobra segue seu caminho, a gente não entende, mas ela sabe pra onde ta aindo.

O caminho do navio no meio do mar é outra loucura. É como se ele falasse : “Eu não preciso de caminho, só do rumo” Assim passeia o navio pelos mares, sobre ondas e perigos desconhecidos. Cada um segue por um caminho único, mas é possível que todos cheguem ao seu destino. Muito louco, além de não afundar, aquele bicho pesado vai deixando um risco no mar como um animal que demarca seu território, mas ele sabe pra onde ta indo.

Agora, o caminho de um rapaz com uma virgem, esse é o mais pirado que existe. Se você é um rapaz com menos ou com 97 anos de idade, sabe que esse troço mexe até com a tripa do cabra. Frear é preciso, o problema é subestimar o poder do impulso. Zeca Baleiro canta: “Quando o homem inventou a roda, logo Deus inventou o freio, um dia, um feio inventou a moda e toda roda amou o feio” Hehe! Boa. Maldito o homem que confia na suas próprias forças, ou seja, no seu próprio freio. Rita Lee cantou: “Mulher é bicho esquisito, todo mês sangra”. Um pregador disse o seguinte: “Certos homens são tão esquisitos que não podem ver nem perna de mesa”. Eu hein!

Esquisito mesmo é o caminho de um homem com uma donzela. É tão misterioso que nem vou tentar  se explicar. Só que  “eles” não são culpados de tudo. Minha irmãzinha, nunca se ache feia a ponto de achar que ninguém vai te perceber ou te desejar. A surpresa pode estar na próxima esquina. Também não se ache tão maravilhosa a ponto de pensar que os homens se arrastarão diante dos seus encantos. Realmente, um macho vai se arrastar até te dar o bote, e depois, ele vai contar vantagem pro amigo mais próximo, que tem um amigo mais próximo, que…

Nesse caminho é recomendável usar sempre cinto de segurança, olhar pelo retrovisor, as mãos devem estar bem visíveis, não beber antes de dirigir, ser prudente e não ultrapassar os limites de velocidade. Se você estiver no máximo a 80 km creio que dará tempo de frear. Tô só supondo! Tem gente que capota a 40 km/h. Rsrs.

Agora, a boa notícia é que nesse caminho nem tudo é desgraça, Graças a Deus! Esse caminho pode ser tão voraz quanto excepcionalmente divino. Com a benção de Deus, meu irmão, nesse caminho você pode deixar até uma Ferrarri na poeira. Mas que é um mistério é. Diz aí.

O cara que escreveu esse Provérbio usou esses elementos todos: O caminho da águia no céu, o caminho da cobra pela penha e o caminho do navio pelo mar. Só pra dizer que a coisa mais sagrada e misteriosa, santa e pagã, abençoada e maldita, e, inexplicável em palavras é o caminho de um homem com uma donzela. O cara joga a bomba, diz que o trem é maravilhoso, e para por aí sem explicar coisa alguma.

E se você não entendeu nada, pergunte pro seu pastor, pro seu padre ou pro seu professor de yoga. Quem sabe ele te explique alguma coisa. Eu já fui longe demais.

Um xêro pra quem gosta da gente.

Rubão

9
Out

Mais alguma pergunta?

   Postado por: admin   em Papo aberto

judo3yp6.jpgAcabei de chegar com meu guri da aula de judô, dele. Ele além de judô faz natação, gosta de matemática, bateria, não é regueiro ( por enquanto) curte Phil Colins, tá cabeludo, vai fazer oito anos no próximo dia 19 e tá solteiiiiirão. A guria já fez nove anos e só estuda pro vestibular da UnB (ponto). 

Voltemos, pois! Na aula de judô tivemos uma surpresa, o jovem professor que comandava o aquecimento, de repente parou, deu um comando e fez reverência pra alguém que estava chegando de quimono branco, cabelo comprido, preto, liso e amarrado pra trás, com uma cinturinha nada delgada, mas bem arrumada por trás da faixa preta e pés descalços. Pensei que fosse um japonês cabeludo fazendo uma visita, mas quando se virou de frente, percebi que era uma mulher, na realidade uma jovem senhora de aproximadamente 38 anos. O professor sai de cena e ela tomou conta da aula. Não entendi nada, e nem a gurizada. Ela falou:

- Boa tarde, tudo bem com vocês? A aula hoje será comigo. OK!

A presença feminina é algo diferente mesmo, dava perceber pelos comandos e o carinho quando passava a mão na cabeça da galera e trazia ao peito com um instinto feminino lembrando um gesto materno. Pura simpatia e show de aula.

Percebendo a minha perplexidade, a mãe de um aluno tocou em mim e cochichou:

- Essa aí, é a dona da Escola ela veio hoje por que eu reclamei do professor da última aula, ele é muito bruto.

- Ah tá, saquei! 

A garotada que já tem uma formação machista começou a questioná-la:

- A senhora é faixa preta? - Perguntou um garoto de cabeça raspada e elétrico.

- Sou, e já faz um bom tempo. Não perece não é? (sorriu).

Apesar do total domínio da arte e da turma, ficou claro que alguns alunos não queriam vê-la como uma líder e tentavam fazer os comandos relaxadamente querendo beber água o tempo todo (claro que ela só deixou uma vez) e empurrando uns aos outros, herança do professor anterior. Ela chamou a atenção com rigor e logo veio outra pergunta:

- Você é faixa preta mesmo, tem alguma medalha?

- Sou sim. Um dia eu conto minha história pra vocês. E ficará melhor se você me chamar de senhora.

- Mas você é baixinha, já ganhou alguma medalha?

O olhar fixo com uma risada usando apenas o lado esquerdo da boca mostrando um furinho na bochecha respondeu tudo. Certa vez juiz perguntou pra um amigo meu:

- Você é o Filho do Homem? – Obviamente que querendo provocá-lo.

- Você é que ta dizendo. - Respondeu Ele.

Outro dia esse mesmo meu amigo caiu (ciladamente) numa blitz e foi injustamente preso num puro ato preconceito e covardia. Aí outro preso, mala, todo enrolado, bandido, que já saiu até no Brasil Urgente do Datena, chegou pra Ele e disse:

- Se você é o “cara” mesmo, o “poderosão” como estão falando uns três “peladinhos” lá fora, por que você não se salva sozinho? Por que não da uns golpes de judô nesses caras e sai andando pela porta da frente?

O cara zombou mesmo, mas só pra se ter uma idéia, esse bandido, sínico e mala, morreu naquele mesmo dia numa morte humilhante e sofrida, já o meu amigo ta vivinho da Silva e ainda salvou um cara “gente fina” que também tava preso e no meio daquele tumulto falou pra Ele não esquecê-lo quando estivesse longe dali, no paraíso. Meu amigo nem pensou, já levou o cara junto. Mais alguma pergunta?

O meu guri começou uma briga de empurra-empurra com um menino lá, e a professora mandou os dois, darem as mãos, pedirem desculpas olhando nos olhos e pagarem apoio até a hora que ela mandasse parar. E pra galera que não parava de questioná-la, ela mandou fazer uma fila olhando pra ela e disse:

O Judô tem uns princípios que eu chamo de palavrinhas básicas e ensino isso pros meus filhos: “Respeito para com o próximo, do mais novo ao mais velho, dizer - sim senhor (a), com licença, me desculpe e obrigado”. E pro meninos e meninas curiosos (xaropes), eu comecei no judô aos 13 anos, fui campeã aos 17, fui onze vezes consecutivas campeã brasiliense de Judô, várias vezes campeã brasileira, e fui convocada para o Pan de 1987 e para as Olimpíadas de Seul 1988, mas tive de ser substituída por que quebrei o braço nos treinamentos. Eu tenho as medalhas e os jornais lá em casa pra quem quiser conferir. Mais alguma pergunta?

Silêncio total. Deu até vontade de pular no cangote dela e dar um xêro, mas pensei rápido. “Esse mulher não vai me entender e ainda vai me dar um golpe”. Mas que deu vontade deu. Ela mandou meu guri e o colega ficarem em pé, e despachou a turma.

Sim! Eu estava me esquecendo de dizer que ela tem:

Registro Faixa Preta 4º Dan de Judô: 102-4D
Registro Faixa Preta 1º Dan de Karatê: ACL 1309
Registro Faixa Preta de Kickboxing:
Registro Faixa Preta 5° Grau de Artes Marciais.

Um xêro pra quem gosta da gente.

Rubão

2
Out

Mas eles não estavam mais ali

   Postado por: admin   em Papo aberto

criancasnaagua.jpgJoão tinha 22 anos quando saiu de sua casa no interior de Pernambuco deixando a família, toda uma história, e aventurou-se solitário naquele ônibus entoando seu monólogo apenas para aquela janela transparente que misteriosamente misturava lembranças do que ficou, coisas novas correndo do outro lado do vidro e a expectativa do que a vida lhe traria. O ônibus seguia com destino a Campinas, grande cidade próxima à capital São Paulo.

João, como milhares de nordestinos, partiu a convite de parentes pra tentar a sorte na cidade grande. Era uma oportunidade imperdível de estudar, trabalhar e quem sabe, um dia voltar pra “terrinha” como orgulho de seu povo.

O Jovem chega e depara-se com uma avalanche cultural a começar pelo sotaque carregado, era estranho, ouvir e ser ouvido. Também o clima frio inimaginável em Pernambuco. Pra ele, uma camiseta e uma camisa de mangas compridas por cima resolveriam qualquer novidade climática, coitado! Além da surpresa a bronquite, a vegetação diferente, culinária diferente (sem aquela farinha), ritmo de vida acelerado, algumas coisas trocadas como, por exemplo: A macaxeira era mandioca e a mandioca era macaxeira, mas com pouco tempo João se familiarizou com a cidade e as coisas, e começou a “caminhar com seus próprios pés”, superou os desafios da saudade com novas amizades, conseguiu emprego e saiu da casa dos parentes pra dividir república com amigos sonhando alto com a nova vida.

A cidade grande além de muitas oportunidades oferece também os perigos da violência urbana que vão desde seqüestros relâmpagos até ao violento e malvado trânsito que não perdoa classe, cor ou credo.

Pois bem, João se torna vítima do caos urbano quando recebe num final de tarde a triste notícia de que seus parentes, os únicos ali naquele mundão de meu Deus, sofreram um terrível acidente voltando pra Campinas e faleceram. A cabeça de João dizia pra ele: Corre, pára, telefona, fica calado, grita, chora, consola, faz alguma coisa, procura informação, informa… Tudo ao mesmo tempo.

João ainda incrédulo olha em sua volta e vê um grupo de amigos consoladores e solidários, mas aqueles que o levaram, os únicos que ele conhecia até pouco tempo em Campinas, eles não estavam mais ali. Como administrar dor, saudade e questões? Como calar as perguntas que se organizam, fazem fila e gritam exigindo explicações?

Todo semana surge no Brasil uma nova ONG a partir de alguém que teve sua história marcada pela violência. Ninguém é tão sensível a esse monstro como aqueles que foram vítimas dele. Só quem passa é que sabe.

Pois bem, se você trocar Pernambuco por Maranhão, Campinas por Anápolis-GO e João por meu nome, você concluirá que essa história é a minha história. E é mesmo. A minha querida prima Flor (Nini) e seu esposo, meus únicos conhecidos no Centro-Oeste me trouxeram pra cá, e de uma hora pra outra, numa mistura de imprudência ao volante com a indecência de nossas estradas, eles e o filho mais velho, numa tarde cinzenta de domingo, antecipam o fim da história num trágico acidente voltando pra Anápolis. Pronto, fiquei “órfão”! Todo mundo que eu conhecia se foi, eles não estavam mais ali. Era uma sensação esquisita quando eu olhava pra rua e dizia: Ali mora dona Célia, ali mora Gilberto, aquele doutor é bom médico e bom visinho, aquela galera é minha amiga e me conhece pelo nome. Tudo a partir de alguém que… A minha esposa quando solteira morava na casa de frente da casa da minha prima, e foi lá que eu a conheci. Que doideira! Daí veio faculdade, banda, família, irmãos do peito, um universo de coisas e amigos em “outras terras” que eu não conseguiria contar nas mãos, nos pés e nem nas folhas. Mas eles não estavam mais ali.

No Maranhão, filho de primo é sobrinho. (ponto). Na época, três filhos da minha prima, portanto meus sobrinhos, que não estavam no carro e tinham menos de dez anos, ficaram órfãos e sofreram todo tipo de pressão psicológica que se possa imaginar. Não é fácil entender nessas circunstâncias o que é Dia das mães, pai herói, medo de escuro, comida saudável, puberdade, ser visto sempre como um coitado, conviver com respostas que não gostaria de dar, enfim, ser órfão. Isso acontece todos os dias, mas assim como nas ONGs, interessa mesmo é pra quem sente na pele. Eles dizem que “Deus tem um plano e sabe todas as coisas”. Palavra deles. Amém!

Outro dia passei lá “na rua” a calçada onde eu gostava de sentar com meu violão em meados dos anos 80, no friozinho de um sábado ao final da tarde, tava lá, o mesmo asfalto tava lá, alguns vizinhos ainda estavam lá, mas eles não estavam mais ali.

Meus sobrinhos vão bem obrigado! Estão formados e encaminhados na vida, acreditam em Deus como Senhor do universo e ainda me chamam de tio, e ai daquele que não chamar. “Respeito é bom e conserva os dentes”. rsrs. Ficaram órfãos, mas não desamparados, nunca vi nenhum deles mendigando o pão e nem questionando Deus por coisa alguma, eu também não questiono.

Um xêro pra quem gosta da gente.

Rubão

25
Set

Eu bem que tentei

   Postado por: admin   em Papo aberto

casamento_2.jpgEsse final de semana entre um show na sexta e outro na segunda tive um casamento imperdível no sábado. O casamento da filha de um velho amigo não acontece todo dia e nem se deve perde sem uma justificativa que seja no mínimo hemorrágica (nem sei o que é isso) Mas não se deve perder.

Então, acredite se quiser, com muito sacrifício não pra ir ao evento, mas pra me arrumar, tirei um terno preto do guarda-roupa, escolhi uma gravata vermelha, separei uma camisa branca, um par de meias pretas, meu sapato Mr. Foot, preto, tamanho 42 que não fica desgastado não sei por que, um lenço pros imprevistos e passei olhando pra uma boina, mas desisti dela. Foi difícil.

As bodas estavam programadas pra acontecer num lugar maravilhoso a 300 m do Rio Corumbá numa área bem trabalhada em seus relevos valorizando o paisagismo verdemente ecológico tendo ao centro uma enorme piscina, onde ali, ás margens daquela água azul se daria o enlace matrimonial.

Como era numa Estância, cheguei um pouco cedo, já pensando em me arrumar lá, isso já era programado pelo pai da noiva, alguns até ficaram pra dormir nas confortáveis acomodações. Daí em diante, três coisas me chamaram a atenção: Uma é que eu havia esquecido o cinto, mas logo descobri que com a pressão abdominal a calça ficou firme. Eu não iria dançar encima da mesa mesmo, e ainda tem aquele detalhe de que os bem informados devem abotoar apenas os dois botões de cima do terno. Pura besteira, nem faz sentido, da próxima vez, só de birra vou abotoar todos, tô nem aí pra etiqueta. A segunda é que tinha muita comida e bebida, coisa de chamar a atenção. Maravilha! E uma terceira, é que o tempo estava fechado e os pingos que sujaram meu carro na estrada, estava lá também. CARAMBA!

Sabe aquela mulherada que decora o salão? Essas são todas iguais, estão sempre com aquele cabelo na chapinha (feita às pressas), bem maquiadas, com o mesmo terninho preto, super estressadas misturando testa enrugada com sorriso forçado, mas são muito dedicadas, é verdade. Já viu isso? A pois… Elas estavam loucas, o troço era a coisa mais linda, mas não à prova d’agua, aí ficou aquela coisa de tira, volta, junta as cadeiras, cobre as mesas e a piscina perecendo um formigueiro com aqueles pinguinhos, aquilo foi pior que dor de dente. Eu não falei dos castiçais. Imagine aquele corredor à luz de velas, o noivo meio pálido com seu cabelo no gel, nervoso, mas esperançoso. A rapaziada jogou bola a tarde inteira, tomou um banho rápido, botou um perfume e aproveita pra falar do Campeonato Brasileiro com os manos, a  mulherada competindo fofoca, armação de cabelo, decotes e obviamente com as costas peladas, passando um frio miserável, mas mantendo a pose, esperam ansiosas o momento, as daminhas parecendo porcelanas e a noiva entrando encantadora rumo ao altar. Fique imaginando.

Olhei pro céu, e disse: - Misericórdia! Tinha quatro meses que não caia uma gota de água e bem no casório… Aí como bom amigo do pai da noiva, eu pensei, vou orar por um milagre. Eu já ouvi uma história de um caso semelhante, o pai do noivo que conheço só de ouvir falar e parece ser gente boa, também presenteou o filho com uma festa junto com o casamento, e como era por essa época do ano, ele foi mais cauteloso e preferiu fazê-la no salão de festas, e você acredita que até deu uma chuvinha também? Desse milagre ele não precisou, só que ao contrário do meu amigo, ele calculou errado as bebidas e no bom da festa faltou vinho, Hum! Pense num mico que seria! Aí ele precisou de um milagre. Ah! meu irmão! O pai do noivo tinha um amigo chegado assim que nem eu, e não é que Ele teve a mesma idéia e falou:

- Amigo, minha mãe tá preocupada com você e eu tive uma idéia, vou orar a Deus pedindo um milagre, vamos encher esses tonéis de água e eu vou pedir pra que Ele transforme tudo em vinho.

- Ora mesmo, por que eu já tô desesperado. Disse o pai do noivo.

E não é que os tonéis que estavam com água se transformaram em tonéis de vinho, rapaz! E vinho da melhor qualidade pra fechar a festa. Colocaram até o nome de “Vinho tinto seco Caná da Galiléia”. (Vinho bom geralmente tem o nome feio mesmo) Coisa de primeira, literalmente. E não é conversa fiada não, o pessoal que tava lá é que conta essa história e até a publicaram.

Aí eu pensei cá comigo, eu também vou orar com fé, se aquEle amigo do pai do noivo orou e aconteceu lá, eu como amigo do pai da noiva vou orar e vai acontecer aqui. Pense numa oração de fé! Eu falei:

– Senhor quebra esse galho pro meu amigo, ele deveria ter feito um plano “B”, mas o Senhor viu a correria. Ele é cabra bom, e esse é o casamento da única filha dele, o Senhor sabe com é. Muito obrigado por me ouvir, amém.

Você acredita que Ele ouviu minha oração? Pois ouviu. Ouviu e me respondeu na hora, foi pá e bola. Desse Ele:

- Rapaz, você é um bom amigo e eu te ouvi, e te digo mais, fiquei sensibilizado com sua preocupação, mas vou ser direto, tem tanta gente orando agradecendo a chuva nesse mesmo momento, que seria covardia eu mandar pará-la agora, mas fique triste não.

– Sim, respondi.

– Eu vou abençoar o casamento.

- Amém né, fazer o que?

E foi ali, numa lateral da varanda, com os arranjos reorganizados em improviso, ao som da marcha nupcial e dos pingos do céu, que minha “sobrinha” se casou com a benção de Deus.

Um xêro pra quem gosta da gente.

Rubão

18
Set

Quem sofre de véspera é peru

   Postado por: admin   em Papo aberto

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Uma das pragas que o século XXI herdou do século XX, foi a ansiedade, que sempre existiu, mas estamos convivendo com este ser invisível num grau alarmante que pega do doutor ao servidor. Sem falar que ela trouxe consigo a Depressão e a Síndrome do Pânico, eu mesmo conheço algumas pessoas próximas que conviveram ou convivem com este mal.

Pois bem, esses dias andei me sentindo extremamente ansioso e sem grandes razões, mas ciente de que elas existem. Tudo tem uma causa que por sua vez cria uma reação. Descobri cá com meus botões que é por causa dos dois shows que farei nos próximos dias. Não deveria ser razão pra tanto, já faço isso a mais de 16 anos, mas…

Sabe aquele friozinho? Sempre me acompanha. Ainda mais que a timidez, eterna e fiel companheira, não troca de parceiro. Um dos meus problemas com a timidez não é o fato de ser, mas é o de ninguém acreditar. Caramba! As vezes até penso que é gozação. “Neguinho” vem  nuns papos tipo: “Cara, vamos lá. Você pega o microfone a agita a galera enquanto começa.” Humm! E ainda tem aqueles que dizem: “Cara, vou marcar pra você dar uma palestra na minha Faculdade” Nossa! Só de pensar, já tô suando.

Sou um cara detalhista, o que não quer dizer organizado e produtivo, parece que os detalhes às vezes ficam por conta de coisas irrelevantes, de qualquer forma… Ontem resolvi “chutar o balde” conta a ansiedade. - Quer saber? Pensei eu. - Vou comprar um camisão discreto (?), uma boina invocada, dar um trato no sandalhão de couro e vou correr pro abraço. Pra ser exato, corri pro calçada pra meu roller diário. Maravilha! Fato é, ficar em casa pensando e pensando… Não tá com nada. O lance é sair de casa, olhar vidas, e ai, você descobre que esse tempo é necessário para que sua mente tenha liberdade de respirar, além da barriguinha que da um leve toque de sumiço e a sensação de atleta do ano.

Na minha caminhada pelo calçadão, viajei legal nas idéias e fui de Paulo a Djavan. Paulo diz: “Não andeis ansiosos por coisa alguma” Ele até sugere que se faça uma oração a Deus. Algo saudável e sem contra-indicações. Djavan canta: “Quem sofre de véspera é peru” Muito boa essa. Aí eu dei uma risada, tipo aqueles caras que conversam, sozinhos lembra? Aí mano, todo cara que passava por mim, eu olhava, balançava a cabeça e dizia em pensamento: - Sexta dia 19 de setembro, estarei dividindo o palco com o grande músico goiano Carlinhos Veiga no Matim Cererê em Goiânia, e vou pra cima. aparece lá. Aí vinha outro cara e eu dizia: -Segunda feira dia 22 de setembro, estarei dividindo o palco com Carlinhos Veiga na Funarte, sala Cássia Éller em Brasília, e vou pra cima, aparece lá. E assim eu ia reversando. Do meio pra fim eu já estava dizendo assim: - Galera! Combina aí pra não ir todo mundo pro mesmo lugar senão vai ficar gente de fora. Hé! Curtição pura e ainda cheguei leve em casa.

Se você estiver nas redondezas, aperece lá. Eu vou correr pra cima. E só pra relembrar, como diz meu colega Djavan: “Quem sofre de véspera é peru”. Eu hein!

Um xêro pra quem gosta da gente

Rubão

10
Set

Tá vazio o portão

   Postado por: admin   em Papo aberto

portao1.jpgDomingo passou na TV uma reportagem sobre aquele rapaz que depois de ser flagrado pelo pai desviando grana da empresa, foi demitido e ainda perdeu a vaga pra madrasta (namorada do pai). Resumindo o cara articulou e matou o pai e a madrasta a tiros. Em condicional, e proibido de afastar-se de sua residência em São Paulo, ele foi encontrado no interior de Rio Grande do Sul levando uma vidinha normalzinha como se nada tivesse acontecido. Seu nome, Gil Rugai. Muito paia esse moleque.

Ai lembrei da história de outro rapaz que quase matou os pais, mas de desgosto. Seu nome, Pedro Filho, um rapaz assim como Gil Rugai, de família equilibrada e até então, um bom garoto. Só que o cara começou a andar com umas figuras estranhas, cheias de idéias estranhas e seu comportamento tornou-se insuportável com o povo de casa. É aquela velha história, o cara tem tudo, roupinha lavada, comidinha da mamãe, frutas na cesta da cozinha, um cachorro de raça da moda (pode ser um pit bull), o carro que, se ainda não é o dele, é o que ele administra os horários de final de semana com aquela voluntária condição de lavar o carro no sábado, ao som do novo hip hop do Snoop Dogg, pra mais tarde radicalizar, hora andando muito devagar pra que todos o vejam, hora andando muito rápido pra que todos…

Por mais duro que o coroa seja, ele termina cedendo pra não entrar naquele seleto grupo dos pais ausentes. Esse é um sentimento terrível. Tanto que quando o menino entra pras drogas a primeira coisa que ele alega é que não era compreendido em casa. E nesse caso todo pai está “errado”. Isso também é paia. Conheci faz pouco tempo um rapaz num encontro de Casas de Recuperação, ele mesmo me contou que certo dia estava tão chapado que chegou a jogar a mãe com violência contra o portão. Um cara que teve tudo, inclusive colinho e colégio bom e ainda assim saiu de casa. Onde esta a culpa?

Mas Pedro Filho foi além, chutou o balde e resolveu sumir, escafeder-se, sair de casa, curtir a vida sem as regras de um lar. Então surgiu o grande problema, a grana. Acredite se quiser, o cara ficou tão pirado que pediu a herança antecipada. Alguém já me disse que pedir herança em vida, é pedir pro pai morrer. E é mesmo.

Imagine a cara do coroa tentando contornar a situação sob os olhares carregados de uma mãe vendo sua “cria”, fruto do seu ventre, agindo com tamanha insensatez. A verdade é que venderam um carro daqui, uma loja de aluguel dali, e contrariados passaram a grana pro “filhão”. O cara saiu e nem deu tchau, cheio da grana partiu pro Nordeste onde tem sol, praia, mina e farra o ano todo. Pronto. Estava no paraíso. Pedro filho fez amizade ate com o filho do prefeito e namorou uma prima do cara, mas o bicho em vez de montar uma pousadinha pra ele ou um pequeno negócio, só torrava, só torrava… e a grana acabando, você já viu esse filme? Todo mundo conhece alguém assim.

O “Mané”, se valendo do desperdiçado tempo que ficou numa boa escola de guitarra e violão, inventou de tocar num barzinho. Os turistas bêbados nem reclamavam da péssima qualidade do seu som, mas as cervejas, o fumo, os bermudões de surf e o aluguel do quartinho consumiam mais grana do que entrava, claro. Aí já era! O cara quebrou legal, a galera do luau sumiu, a sobrinha do prefeito caiu fora, o dono do barzinho o despachou e ele foi caindo na real.

Envergonhado ele saiu do litoral numa carona de caminhão e foi até Prodilândia cidadezinha do interior a 150 Km de onde estava, parada que só folha de árvore de natal.

Faminto e disposto a fazer qualquer coisa, ele consegue trabalho num pequeno sítio e, como não tinha habilidade com cavalos e com gado, lhe sobrou a opção única de cuidar dos porcos. E olha que o chiqueiro desse sítio deve ter sido campeão mundial de mau cheiro. Ghuwr!!! Qualquer cristão vomitaria só de olhar, mas sem escolha ele se submete a passar os dias cuidando e até comendo coisas que deveriam ir pros porcos.

Com aquele aroma caracteristico no ar, ele teve que ter estômago de anta. Aliás, ele foi uma anta ao sair de casa e estava percebendo isso. O orgulho dizia: Não volta, todos vão rir de você. A boa escola dizia: Se é pra comer resto aqui, é melhor ser motoboy do seu pai e ter comida boa todo dia.

Moral, o cara, já especialista, pega mais uma carona e agora de volta pra casa. Derrubado, magro, dentes precisando de reparo, um monte de óleo de peroba na cara pra encarar os velhos e a determinação de pedir perdão e ser aceito pelo menos como um empregado. Aí surge a cena mais louca, que daria até um filme. O coroa lá do portão reconhece o moleque vindo, mesmo que defigurado e corre pra abraça-lo e beijá-lo. O grande barato é que não foi por coincidência, ele nunca desistiu de esperar o filho de volta, todo dia estava lá olhando pro horizonte esperando angustiado, mas certo de sua volta.

O pai organiza uma festa, com roupas novas, vinho do melhor, tênis da hora, etc. Tudo de bom, como se ele tivesse passado no vestibular do ITA. A mãe chora sem parar a alegria transborda, e o outro filho, o mais velho, enciumado não se contém de raiva. – Eu sou trabalhador e nunca tive isso, esse mala torra tudo e ainda ganha festa? Isso é injustiça.

A história de Pedro Filho deixa um pergunta no ar: Quem é você nessa história?

1- O próprio Pedro Filho, o garoto que causou todo esse desconforto na família, mas voltou arrependido?

2- O irmão mais velho, que se sente injustiçado e até certo ponto com razão?

3- O pai que nunca desistiu do portão até que o filho voltasse quase 3 anos depois?

Pedro Filho nunca imaginou que seria tão humilhado como foi em Prodilândia, assim como não imaginava que seu pai o amasse tanto.

Já é fim de tarde e o portão finalmente esta vazio…

Um xêro pra que gosta da gente

Rubão

2
Set

Chicote doido

   Postado por: admin   em Papo aberto

corpoemas_18.jpgAcabei de chegar da Feira do Livro de Brasília. Fique mais de 5h em pé, devorando livros, almanaques, livros, origamis e livros. Minha menina fez a festa, e  nós as contas do investimento. Foi um bombardeio de literatura, arte e informação. Esse ano quem me chamou muito a atenção foram os “cabras do Cordel”. Perece que as letras se lhes escorrem dos dedos. Então empolgado pelo clima, me atrevi a riscar, esse, que se cantado, seria um repente.

 

Chicote Doido

Chicote doido, chicote de dar em doido
Chicote doido vai bater noutro lugar.

Sou nordestino barulhento, enjoado
Vim pra animar a festa desse cidadão honrado
Mas não vou ficar calado diante da hipocrisia
Que é a praga deste mundo e que destrói a alegria
Que provoca esse rapaz simpático e inteligente
Que esta se rindo de lado, pois falta um dente na frente
Ele é um grande amigo meu, mas está muito carente.

Se ele esta muito carente, olhe bem pra este outro
Tá com a cara de faminto, mas comeu uma qualhada
Só que não foi um copinho, foi logo uma latada
E tudo embananou-se num purum pum-pum danado
Que incomodou num raio de 10.000 m 2
Derrubando homem valente, não no murro, no desmaio
Esse bicho é amigo meu, mas está desmantelado.

Pode estar desmantelado, mas é um cara bacana
Que que eu digo deste outro, que parece um pau-de-cana
Que até o sol derrete perante sua boniteza?
Que faz barata cuspir e dá enjôo em gambá prenha
Tem sorriso de dragão e bafo de urubu
Que que eu vou dizer pro mundo se isso for mesmo beleza,
Se ele também é amigo meu e contraria a natureza?

Já percebi que nessa roda tem doutor
Homem estudado, formado lá na faculdade
É com respeito seu doutor advogado
Que eu lhe chamo pro repente diante dessa platéia
Que tem moça sorridente e uns três com diarréia
Tem bicudo orelhudo todo metido a galã
Com a cintura no pescoço sonhando em ser modelo
Pra ele é encantamento, mas pra nós é pesadelo.

Já que o senhor é doutor pode tomar a palavra
Mas pra conservar os dentes, pense bem na sua fala
Todo cuidado é pouco quando for mexer comigo
Se sobrar para o senhor eu não me responsabilizo
Seu doutor é estudado treinado na falação
Mas, difícil é burro brabo e eu amanso uns três por dia
Para mim é brincadeira, pro doutor é agonia.

Aqui na cidade grande só se diz que é doutor
Quem passou na faculdade de engenheiro, advogado
Medicina, professor, de repórter e “agronomista
Lá pra nós é diferente, basta ter 16 anos
Passar dos 40kg, viajar pra todo lado
Ser macho e atrevido que o cabra já tá formado
Pelo que passei na vida eu já tenho é doutorado.

Tenho fama de brigão, mas é que o povo fala muito
Olhe que eu sou legal fui até com sua cara
Outro dia apareceu um fulano Bruce Lee
Metido que nem garrote com olhim de jutirí
Só dei-lhe um, no pé da venta que o japa desembestou-se
Fugindo que nem cigano, e eu não peito infarento 
Porque cada muro meu é um coice de jumento.

Eu não sou um psicólogo, mas já percebi de longe
Tem uns três aqui rezando sorrindo pra não chorar
Desde que eu tô cantando não mudaram de lugar
Já que o cheirinho incomoda, disfarce e dê uma voltinha
Com esse sorriso amarelo de melão morrer de inveja
Pode sair de fininho que eu já vi a borradeira
Diga que é indigestão, mas eu sei que é caganeira.

Eu já vou me retirando, pois já conversei bastante
Se o convite for refeito quem sabe volto outro dia
E eu pergunto o que seria desse artista sem vocês?
Se o amigo me pedir vou cantar tudo outra vez
E pra quem não é murrinha e tem um bom coração
Colabore com um real ajudando o “Maranhão
E se gostou que bata palmas
Pra esse filho do sertão.

Um xêro pra quem gosta da gente.

Rubão

26
Ago

O craque que eu vi jogar

   Postado por: admin   em Papo aberto

2371598008_64c6110e341.jpgQuem foi o maior jogador que você já viu jogar? Essa é uma pergunta que não sai de moda. Eu sou da turma de Zico e Dinamite até Romário, mas todos esses na realidade eu só vi jogando pela TV. Tive a sorte de encontrar a uns cinco anos atrás com Zico no Aeroporto de Cumbica – SP. Ficamos eu e um amigo naquela: é, não é, é, não é. E não é que era mesmo? Até peguei um autógrafo do Galinho. Ta lá guardado, quem sabe um dia as pessoas venham me procurar pra vê-lo. Um autógrafo de um craque é uma jóia rara.

A partir dos meus 12 anos, fui morar no interior do Maranhão, na famosa Codó (o nome vem de codorniz). Meu endereço era: Pça. da Bandeira nº… Morar de frente pra uma praça era muito doido, as casas eram grudadas umas nas outras, mas bem espaçosas, as janelas das salas davam direto pra rua, então se “você” estava de castigo, dali da “prisão” dava pra acompanhar tudo sem sair de casa. Dava pra deitar na pedra da janela e descobrir animais feitos de nuvens brancas naquele céu azul anil, mesmo. Brincadeira que a molecada nem sabe mais o que é.

A minha praça, era um grande retângulo com casas no seu comprimento. Tinha uma calçada boa pra gente correr de bicicleta, e cair também. Bem no meio estava a estátua de um Cristo e, todo ano vinha um cara não sei de onde, contratado por comerciantes, pra ficar rodando de bicicleta em volta da estátua por três dias sem parar. E a gente ali, assistindo. Vi Luiz Gonzaga com seu Trio cantar a 70 m da minha casa. Privilégio hein!

Na praça, na época de chuva, todas as casas tinham bicas pra rua, era uma água morna, nunca mais achei chuva nessa temperatura, a galera brincava de piscina nas poças das calçadas, banhava muito e corria até não agüentar mais. Maravilha!

Ali, além de bancos, flores e árvores sombrosas tinha o campinho de areia, endereço de todas as tardes da rapaziada, a turma aí chegando, chegando… Lá pelas 3h a bola rolava pra só parar de noitinha. E era de lá mesmo que eu ouvia minha mãe gritando: “Rubem, vai comprar o pão”. Todo dia no mesmo horário, no bom da pelada ela me chamava e eu como bom garoto… Corria imediatamente após 25 minutos de resistência, entre uma barreira (próximo, time de fora) e outra.

Do campinho a gente via a 100m o trem passar, um dia indo, outro voltando, com seu apito ensurdecedor e seus vagões carregados, gritando nos trilhos e levantando poeira. Esse era o mesmo trem que João do Vale cantou: “Pequei o trem em Teresina pra São Luis do Maranhão… E queimado lenha e soltando brasa, tanto queima como atrasa”. Do outro lado da linha do trem, numa esquina, antes do consultório do seu Beija - o Dentista da cidade - todo dia à tardinha tinha ensaio aberto da Banda The Jets, que eu sempre ia pra assistir. Eu queria fazer parte de uma banda que nem aqueles caras. Só não gostava do visual, eles eram muito comuns e eu achava que artista tinha que ser mais invocado. O dono, e baixista da banda, era o Antonio. Na Guitarra, o cabeludo e irmão dele era o Zé, e no teclado o Crente, apelido herdado do tempo em que ele freqüentava a Cristã Evangélica e outros. Os caras eram feios, mas a banda era boa. Hehe!! Depois eu descia pra pelada. A gente jogava bola dançando ao som do The Jets cantando Zé Ramalho, The Fevers, Rita Lee, Bob Marley e outros. Era muito massa. Do outro lado, na outra esquina, o famoso pé de tamarindo, azedo que só ele, mas era uma referência. Entre o tamarineiro e banda subia, com um canteiro bem arborizado no meio, uma Avenida de pista dupla até lá no alto da Igreja. No sentido oposto estava o Tiro de Guerra, ladeado pelas ruas que seguiam, descendo pro Mercado Municipal. Se preferir é só pegar à direita que vai dar no Rio Itapecuru. Tava tudo ali, tudo era visto e desfrutado com um privilégio impar, de qualquer lugar da praça.

Quase tudo mundo “da praça”, como éramos conhecidos, tinha um apelido: Fuica, Magão, Zé Gordão, Totoringô, Galo Mago, Babaquara, Crocodilo, Robô, Ovo de Cobra, Braço de Radiola, Peninha, Cheira Peido (rsrs) e Coração de Papel, entre outros. Tinha até apelido de assovio, a gente assoviava a musiquinha e o cara apelava. Hehe!!O meu era o mesmo de hoje ta? Sem gracinha!

Quando alguém me pergunta: “Quem foi o maior jogador que você viu jogar?” Se é pra encurtar a conversa, eu respondo Zico. Sou fã. Mas o maior craque que eu vi jogar, não foi Zico, foi Fabinho (ou o Velho Fábio), fomos colegas de sala de guri até o Pré-vestibular, em São Luis. Ele tinha um corpo franzino que lembra Juninho Paulista, magro, pernas compridas, muito ágil e chutava com as duas pernas. Nunca vi Fabinho ser driblado, mas vi muitos que caíram de costas com seus dribles. Ele era perfeito no chute de meia distância com o goleiro adiantado ou não. O Velho Fábio era o tipo de craque que quando não tava a fim de jogar não jogava, mas estava lá na praça, apelidando a galera a fazendo todos rirem, um mestre na gozação. Porém, quando estava jogando era um matador imperdoável, chamava a responsa pra si e decidia, ele humilhava os adversários e ainda ria.

Certo dia, na escola, depois de uma das brincadeiras do “velho”, no intervalo das aulas, eu e ele tivemos um desentendimento e quase chegamos a brigar. A briga então, ficou marcada pra hora da saída. A turma do deixa disso não deixou, e assim ficou pro dia seguinte. Eu passei aquela noite pensando: “Como vou ganhar dele e mostrar pra todos que sou mais forte, sem machucá-lo?”. Eu não tinha ódio dele e foi uma coisa boba. A tal briga não aconteceu, mas ficamos intrigados.

É muito paia ficar de mal de um amigo, ainda mais um cara que você admira, mas fui levando de barriga e ficamos assim por quase três meses, uma tortura. Tínhamos aproximadamente 17 anos.

Numa manhã, eu estava passando de bicicleta e o Velho Fábio pulou na minha frente, ele já estava me esperando Pensei: “Caramba! O cara vai querer brigar!”.

Ele me parou e disse:

– Cara, eu tomei umas cervejas pra criar coragem (era a hora, pensei) e quero te pedir desculpas, eu sou teu amigo e não da pra ficar assim. Vamos parar com essa frescura. 

O Cara me deu a mão, me abraçou e disse:

– Hoje vou me acertar com todo mundo.

E foi.

Velho Fábio essa foi a maior jogada de craque que eu vi você fazer, e não adianta transferir os méritos pra umas poucas cervejas, não. Se assim fosse, “nas assembléias dos botecos” teríamos os melhores maridos, pais, amigos…

Eis a questão:
Como dar um “Glória a Deus!” pela atitude de alguém que bebeu pra me pedir um perdão sincero?
Como não dar um “Glória a Deus!” pela atitude de alguém que bebeu pra me pedir um perdão sincero?
Eu, dos degraus do meu “politicamente correto” não tive peito pra encará-lo, por sua vez ele… Teve. Glória a Deus!

Fabinho, se estivéssemos de mal até hoje, ainda assim você seria meu craque preferido, mas craque que se presa surpreende, se supera, contraria a todas as lei e decide aos 47 do segundo tempo.

Essa não tem preço, mas vou ficar te devendo.

Um xêro pra quem gosta da gente.

Rubão