Todo mundo já deu ou pegou uma carona.
Há uns três anos atrás viajando por esse mundão, bem longe daqui encontrei com um cara que segundo ele, eu lhes dei uma carona na minha moto DT 180 Yamaha, preta, 1984. Foi depois de um show em Anápolis, isso já faz mais de 12 anos, ele tava indo embora, já era tarde, e eu ofereci uma carona. De um determinado ponto do percurso a casa dele pegava outro rumo, ele queria que eu o deixasse ali, mas fiz questão de levá-lo, claro. Eu o conhecia só de vista, estávamos no mesmo evento e nem foi muita coisa numa cidade onde em 10 minutos você fugia de sua rota e voltava sem complicações.
Pra mim não foi nada, mas pra ele foi muita coisa, até porque a pé seria uma boa caminhada, mas ele não esqueceu e fez questão relembrar o fato. O Cara hoje não é mais um rapazola, ta bem e mora nos EUA.
Eu já peguei muita carona e dei também, inclusive pra quem não precisa. E isso é um grilo que eu tenho comigo faz tempo. Acho que desde menino isso me incomoda. Na saída do cursinho, do clube, da igreja a tendência das pessoas sempre foi de passar por aquele irmãozinho que ta no ponto de ônibus, dar uma buzinada e gritar – “Não esquece da reunião de quarta-feira” e ir embora, mas se o irmão que ta indo pro ponto é aquele que por uma “fatalidade” teve que deixar o carro estragado no estacionamento da igreja e que de repente até tem outro carro em casa, mas não poderia sair em dois, claro, e que tem grana pro taxi e está esperando o próximo. Esse não fica sem carona, mesmo que o percurso aumente em 20 Km, ele irá sempre ouvir um – “Que isso, você faria o mesmo” E faria mesmo.
Outro dia voltando pra casa, contrariando todas as minhas opiniões sobre carona a estranhos, e isso é importante até porque em cidade grande não se deve nem receber carona quanto mais dar, é o fruto da violência desenfreada, mas passando pela saída de Lago Norte sentido EPIA em Brasília, tem um pedaço que não tem nada além de umas chácaras afastadas do lado oposto. Pois bem, um camarada andando vira-se e me da com a mão, eu passei só um pouco, mas freei e ainda dei uma ré.
- Entra aí.
-Com licença, bom dia!
- Tá indo pra onde? – Perguntei esperando que ele me disesse, a Rodoferroviária, que ficava a uns 5 km dali.
- Preciso ir pra Braslândia, mas qualquer lugar tá bom.
- E o que você faz à pé nesse meio de estrada?
- É que eu fui assaltado ontem à noite lá em Sobradinho.
- Sobradinho fica a uns 10Km pra frente, como você veio parar aqui?
- Eu estava vindo da casa dos meus pais e como fui assaltado, fiquei sem nada, passei a noite na rodoviária e hoje cedo saí à pé pela BR aí errei a estrada e entrei pra cá.
- Mas à pé pra Braslândia? Você trabalha de que? Você tem família?
- Eu tinha que fazer alguma coisa, ninguém quis me dar carona, muito menos dinheiro. Eu trabalho numa fazenda depois de Braslândia e tenho uma filha.
Num momento desses, você começa a pensar um monte de coisa, por exemplo: “Esse cara ta com conversa fiada, se ele tentar me assaltar eu devo reagir ou não? Afinal, ele não é tão forte” ou “Porque que eu fui parar pra um estranho?” ou “Algo esta me lembrando os filmes: A morte pede carona I e II, De carona com a morte e Uma carona para o inferno.”. Misericórdia, ta amarrado!!
Eu falei que ele deu sorte, a probabilidade de alguém parar é pouquíssima, sem falar que poucos seguem pro meu destino, que é Taguatinga e é lá que fica a entrada pra Braslândia. Novamente me perguntei “Que que eu to fazendo que não despacho esse cara logo?” O cara tava com sono, com fome, sem grana e chegou a dar umas cochiladas rápidas.
Certo de que estava fazendo a minha boa ação do dia, sem sequer ter perguntado o nome dele, 25 minutos depois, parei e disse: – Aqui é a entrada, é só andar uns 150 m e esperar por ali, você deve conseguir uma carona. Ele me agradeceu, não me assaltou e fui embora vendo-o andando cabisbaixo pelo retrovisor. Cheguei em casa em menos de 5 minutos, já era quase 3h da tarde, almocei rápido e saí novamente, eu tinha uma gravação agendada à tarde, mas não tirava algumas perguntas da minha cabeça: “Porque eu não o trouxe pra almoçar em casa?” ou “Porque não o levei a um restaurante ali perto?” não me custaria mais que R$15,00 um almoço no Giraffas com direito a refrigerante e eu ainda poderia levá-lo à Rodoviária de Taguatinga de onde sai ônibus pra cidade dele, e que não deve ser caro.
Então, sensibilizado e tudo não passou de 15 min, resolvi volta lá onde o deixei disposto a me redimir, mas pra minha decepção ele não estava mais lá. Pense num cara desapontado! Perdi a chance de ser abençoado.
O sábio Mestre já ensinava a seus seguidores: “Quando vocês dão cobertas ao que passa frio é a mim que vocês estão aquecendo, quando vocês dão comida ao que está faminto é a mim que vocês estão saciando a fome”.
Meu conselho é o seguinte: Não é aconselhável dar carona a estranhos, mas se você tiver esse privilégio, faça-o bem feito.
Um xero pra quem gosta da gente.
Some de mim não
Rubão


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