Ja faz um tempo, talvez uns 30 anos. Eu me deparei com uma situação embaraçosa. Minha mãe por uma razão que não me lembro e acredito sem dúvidas que estava cheia de razão, ficou muito nervosa comigo e disse quase que gritando na frente dos meus amigos
- Rubem, se você me desobedecer eu vou te bater. -Eu respondi na bucha.
- Falar é fácil! – Ela saiu da graça e com razão.
- O Que! Tu ta me desafinado? – Disse ela nervosa. Aí eu tive aquela sacada genial que só se tem uma vez na vida.
- Falar é fácil, mas fazer… é mais fácil ainda.
Todo mundo caiu na risada, inclusive minha mãe, dona Julinha. Foi uma mistura de rebeldia com arrependimento com saída pela tangente que até hoje quem estava na hora não esquece a cena. Já fiz coisas piores. Claro.
Esses dias eu estava lendo o meu livro de história e cai no famoso episódio daquele rapaz mal educado e egoísta que qualquer um de nós poderia trocar o nome dele por alguém conhecido, com as devidas proporções que a história se encaixaria perfeitamente.
A história fala de uma cara que cansou de andar de skate pelos blocos e quadras de Brasília, e apelou geral. Pensou ele “Que surfar no Lago Paranoá que nada, eu quero é ir pra California”. Acho até que foi ele quem inspirou o Lulu Santos, “Garota eu vou pra Califórnia Viver a vida sobre as ondas. Vou ser artista de cinema. O meu destino é ser star …” Na realidade o cara queria surfar na California e de lá partir pro Havai, e foi. Mas pra isso ele teve que armar uma pra cima do coroa. Pense num pai equilibrado financeiramente, aposentado, mas ainda novo cheio de vida, tocando os negócios. Tava tudo certo na família até que o “bicho” resolve aloprar e em pleno almoço de domingo após a EBD ele diz:
- Pai eu vou desistir da Facul, tô com altos planos e sei que posso realizar. Minha ideia é curti a vida enquanto eu sou jovem, olhe pro senhor. Trabalhou a vida inteira e ainda ta ralando e não curtiu nada. Eu quero que o senhor antecipe minha parte dos bens porque eu já tô indo.
- O que? Disse o pai olhando pra ele desapontado.
Eu já li esse texto umas duzentas vezes e nunca vi falar da mãe dele. Ora, se ele ta vivo é porque teve mãe. Se o texto não fala da mãe, não fala que ela era viva, mas também não fala que ela havia falecido, Portanto eu quero acreditar que a mãe, como sempre foi quem mais sofreu com tudo isso.
Ôxe! Qual mãe que tendo dois filhos exemplares, daqueles que todo mundo quer ter pelo menos um, não se desespera quando um deles, o mais novo, se rebela e divide tudo criando um clima estranho até porque pra dar a parte dele, muita coisa teve que ser vendida, fora a satisfação pra familiares e a sociedade, mas o pior mesmo a dor de ver o mundo ganhando a luta conta a família.
O garoto partiu cheio da grana, incessível e determinado. Deixou o cabelo crescer (dreads) e bancava tudo nos festivais de reggae e surf que apareciam inclusive a droga. Mas é isso mesmo, quem houve reggae da maneira errada, vai entrar na maconha mesmo, assim como quem houve rock da maneira errada, vai cair no “Sexo, drogas e rock’n roll “, assim como quem ouve música clássica da maneira errada vai entrar em depressão ou pânico num quarto escuro, assim com quem houve sertaneja da maneira errada vai entrar numas de traído e ainda vai chamar um parceiro pra chorar as mágoas juntos. Sem falar da boemia do sambista, dos “Créus” da galera do funk, etc. Então o problema não era o reggae era ele mesmo. Ufa!!
A gente nem precisa entrar de cara no mundão pra saber que quando a grana vai acabando, os amigos “fiéis” vão sumindo, os sorrisos e abraços apertados ficam raros, os sussurros de “te amo meu amor” se tornam em “acho que foi um engano nossa relação”. Isso é regra. Acabou a grana, acabou a curtição, os amigos, os amores, a cama quente, a comida farta, a razão de viver.
Quebrado de tudo, andando de humilhantes caronas ou a pé e comendo do pior dessa terra inclusive a comida que era jogada pros porcos, a ficha caiu e ele lembrou do papai, da mamãe e do mano. “La em casa eu tinha tudo, minha mãe faz a melhor feijoada do mundo, e o bolo de mandioca. Hum! Na fazenda eu jogava milho de primeira pra engordar nossos porcos, cabras, vacas e até cavalos puro-sangue. Os nossos funcionários nunca precisaram comer restos, eles tinham vida digna. O orgulho me diz pra eu desistir de tudo, mas o coração me manda voltar, vou pedir perdão. Quero ser pelo menos como um dos peões de meu pai. Eu acho que ele vai me dar um emprego.”
Era um fim de tarde lindo de sábado com o sol se pondo num tom avermelhado, como só no acontece no cerrado brasileiro. O pai e a família estavam na fazenda, como faziam todos sábados, quando de repente, do portão principal da fazenda ele viu um homem surgindo na curva da estrada.
Eu acredito que a mãe viu primeiro da janela da cozinha e gritou -“É ele! É meu filho voltando” O pai sabia que era o filhão e correu ao seu encontro. Só um pai de verdade pra cheirar e beijar daquele jeito um cabra tão sujo e fedido. – “Você não vai ser peão aqui coisa nenhuma, nós vamos é dar uma festa” Disse ele, depois de ouvir as desculpas do filho.
O irmão mais velho, mesmo com saudade e acompanhando o sofrimento dos pais não gostou nada. E resmungou pro pai:
- Quem rala aqui sou eu, mas ninguém me da nada, nem um churrasco, nada. Agora esse mala torra tudo e volta com cara de anjo e o senhor da uma festa?
– Meu filho. – Disse o pai. – Teu irmão estava morto e agora ta vivo, tinha se perdido, mas tai ele, nós temos é que festejar mesmo. E sabe de uma coisa filho, tudo isso aqui é teu, você sempre teve, você sempre pôde e ainda pode fazer o que quiser.
Como seria a nossa vida sem o amor do Pai, aquele amor incondicional, que apaga tudo e recomeça do zero, tudo de novo com festa, danças, anéis, roupas novas e sandálias. Não tem coisa mais louca que um pai de braços abertos no portão seguido de um cafuné de mãe. Não tem.
Às vezes eu me vejo como irmão mais velho, tendo tudo e não vendo nada, às vezes me vejo como o mais novo pensando só em mim, achando que o mundo é meu e que eu não preciso de ninguém, mas eu queria mesmo era me ver como o pai, sempre de braços abertos no portão pra abraçar, pra perdoar, pra jogar as mágoas no fundo do mar e esquecer e nunca mais se lembrar delas.
Segundo a história, a vida da família continuou tranqüila e harmoniosa como um riacho seguindo seu rumo molhando a terra, mas que esse cara é um verdadeiro “Filho duma mãe” É. Ou não é?
Um xêro pra quem gosta da gente.
Rubão


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