10
jun

Dois maços de cheiro verde

   Postado por: Rubao   em Papo aberto

   No interior do sertão brasileiro ainda há muita pobreza, mas nem tudo miséria. Tem algumas regiões em que a escassez e a abundância dividem calçadas, quitandas e até bancos de igrejas. Tem gente que se acha dono até do céu, mas isso é outra história.  

Contaram-me há muito tempo a história de uma senhora já velha que morava num desses interiores do sertão nordestino, a dona Maria das Graças, conhecida como dona Nainha, mulher de vida muito simples, de fogão à lenha, de lamparina, de tamborete e de limitações. Até por que as forças pro trabalho no campo, seu ofício, já não correspondiam mais, as vistas já lhes negavam algumas imagens e a labuta de uma idosa morando sozinha nunca foi fácil.

 

O Filho mais velho de dona Nainha, foi cedo pra cidade grande em busca de emprego, voltou algumas vezes, e, numa dessas levou o único irmão com ele, e nunca mais se soube notícias. Ela evitava falar dos filhos, mas oravam sempre por eles.Dona Nainha vivia do carinho de alguns poucos vizinhos e da venda precária de cheiro verde que ela plantava em um canteiro suspenso no seu quintal, herança do esposo, seu Zé Cândido, o Didinho. Homem trabalhador, mas já falecido de doença de velho mesmo. Ele era bem mais velho que ela, e já havia alguns anos que ela aceitara a vida solitária de viúva com bravura, apesar das lutas.

Eu conheci duas senhoras bem idosas e próximas a mim. Uma era a tia Vitória Rodrigues, conhecida como tia Totora. Ela faleceu ano passado com quase 100 anos. Totora, era uma mulher clara, de olhos azulados, cabelos brancos e lisos e bem baixinha.Uma outra tia minha quando me dava notícias dela, dizia: “A Totora ta tão baixinha, que quando ela anda quase arrasta o nariz no chão” Hehe! Coisas de maranhense. Ela mascou fumo praticamente a vida inteira. Aquele fumo de rolo mesmo, que se vê nos armazéns. Nunca casou, mas criou alguns sobrinhos entre eles minha mãe, que perdeu sua mãe ainda criança e foi morar com a tia.Dizia minha mãe que a Totora quando nova era muito brava e severa, mas quem a conheceu nos últimos anos viu uma velhinha linda, de sorriso gostoso, bochechas rosadas e traços fortes marcados pelas rugas do tempo. Quase sempre sentada na “porta da rua” ela ficava vendo o movimento e acenando pro povo.

Outra velhinha que conheci foi a Dona Genoveva, a Genu. Ela morava com seu único irmão, solteirão e também já velho. A Genu me chamava de Rúbi e eu gostava de sentar no colo dela só pra vê-la raiar, reclamando que eu era pesado, mas logo mandava eu sentar novamente . Uma mulher sem filhos, sem parentes importantes… Mas muito temente a Deus. Logo perdeu seu irmão e ficou só, vivendo da ajuda de irmãos da fé. Ela tinha sempre um sorriso pra dar mostrando seus dentes falhos e uma pele bem enrugara principalmente no rosto, lembrando o chão seco do sertão. Genu era uma senhora baixa de cabelos lisos e ralos, pele queimada de muito sol. Suas orelhas e o nariz pereciam grandes, algo desproporcional. É a Lei da gravidade que não perdoa.

A Genu e a Totora, apesar da pressão do tempo tinham suas belezas, elas eram lindas e importantes na minha vida mesmo sem se conhecerem. E um dia, assim como Genu, a tia Totora, morreu farta de dias.

Quando me lembro da dona Nainha me vem à mente essa duas figuras que conheci de pertinho e me fazem entender melhor a vida dessa mulher velha e sozinha que eu não a conheci pessoalmente, mas que teve uma história de vida tão interessante que eu me vejo na obrigação de partilhar nessas linhas algo sobre essa fantástica mulher do sertão nordestino.

Diz a história que certa feita, dona Nainha teve uma semana de poucas vendas e que nos últimos dias só havia vendido apenas dois maços de cheiro verde. Muito pouco pra quem vivia desse pequeno comércio, mas foi que deu.

Na igreja da cidadesinha, perto de sua casa, na sexta-feira daquela mesma semana, era dia de encerramento da Campanha de Missões. Daquelas pra ajudar no sustento de missionários na África. A comunidade estava envolvida, o povo vestia a melhor roupa, teve muita música, dança e uma mensagem empolgante como deve ser num dia tão importante.

No final, o líder, um jovem pregador, Homem de Deus, fez um apelo desafiador à igreja conclamando que fosse levantada uma oferta de amor aos irmãos missionários na África. Não demorou e um irmão dono de uma frota de caminhões sensibilizado com a luta dos missionários no transporte de mantimentos, pessoas, etc. foi à frente emocionado e disse: – “Querida igreja, estou tocado e quero dizer de bom som que os irmãos lá na África não sofrerão mais com transporte, porque eu vou doar um caminhão. Deus me deu vários e eu vou doar um”. Que coisa linda! Foi um alvoroço, de Glória a Deus! E Aleluia! Outros motivados foram à frente e também fizeram doações significativas, mas já no final, eis que o brulho é quebrado quando uma senhora com dificuldade pra andar atravessa o corredor sob o olhar de todos e o descaso de alguns, e vai até ao gazofilácio. Ela coloca a mão no bolso do vestido  de chita surrado e deposita ali, sua oferta referente à venda de dois maços de cheiro verde na sofrida semana. Ela depositou, olhou pra cima como que agradecendo a Deus por poder ofertar, virou-se, e calada foi embora.

O jovem líder foi á frente e com sabedoria divina chamou a atenção de todos. – “Queridos, como é bonito ver a igreja envolvida em missões, e por isso nós vamos fazer uma singela, porém justa homenagem àquele que se esforçou mais e conseqüentemente fez a maior doação de amor nessa noite. Ele receberá das mãos do presbítero Marcos Dozevan uma simbólica placa. É apenas um gesto de gratidão de nossa igreja pelo empenho dos irmãos. Nela estará escrito: “Parabéns! Primeira Campanha Missionária. Maior oferta” e eu preciso que vocês me ajudem a identificá-lo.

Pronto! Foi uma agitação só. Famílias unidas gritando um nome, outros gritando outro, irmãos com aquela cara de “eu não fiz nada apenas ouvi a voz do coração”, uns diziam – “foi irmão Chico Porca (criador de suínos) que doou parte da venda de sua fazenda”, e um coro mais forte ainda gritava – “irmão Zé Bento, irmão Zé Bento!”. Aquele que doou o caminhão zerado. A política estava instaurada, e inflamava o coração dos clãs na congregação.

O sábio jovem líder pede silêncio e diz: – “Queridos irmãos! Tá todo errado. Vocês não entenderam nada, parece que tenho falado esses dias para os bancos…”. Parou tudo. E ele continuou. – “Quem deu a maior oferta não foi irmão Zé Bento, nem irmão Chico Porca e nem nenhum de nós que estamos aqui. A maior oferta depositada no altar foi da irmã Nainha, aquela viúva que veio por último aqui à frente. Sei que poucos aqui a conhecem ou sequer sabiam seu nome, mas eu a conheço muito bem. Ela até já saiu. Entendam uma coisa queridos; todos nós ofertamos daquilo que nos sobrava, mas ela deu tudo. Aquelas duas moedas era tudo que ela tinha, e tudo é mais que um tanto, é mais que muito. Tudo é tudo. Ela deu a maior oferta”.

Dizem que a velha viúva nunca recebeu aquela placa, até por que, a tal placa não existia mesmo. E, depois daquele dia, não se tem mais notícias de dona Nainha. Acredita-se que pouco tempo depois ela faleceu, mas três coisas marcaram a história de vida daquela amorosa senhora:

1ª Aquela Congregação nunca mais foi a mesma, com relação a ofertar na Casa de Deus.

2ª Dona Nainha com certeza não morreu de fome por ter doado tudo o que tinha.

3ª Sua atitude de amor e fé foi uma lição pra congregação, pra mim e pra todos nós que conhecemos sua história. Sabe-se que essa história ultrapassou as fronteiras dos nossos rincões sendo usada pra edificar vidas nos quatro cantos da terra, e ficou conhecida como “A oferta da viúva pobre”.

Um xêro pra quem gosta da gente.

Rubão

5 comentarios para

Antoniel
 1 

Rubão, Graça e paz!

Muito tocante esse post.
Voce e eu temos um amigo em comum; é o Jomar (artista plastico). Eu sou pastor de uma igreja Batista em Açailandia e tenho um programa de rádio. Eu gostaria de tocar as musicas do Cia de Jesus, mas não as tenho. Não encontro nas lojas por aqui. Como podemos fazer para obter essas musicas?
Abraço e fique na paz!

junho 12th, 2009 at 11:26
Irla
 2 

Que texto legal, Rubão!
Saudade!
Xêro

junho 17th, 2009 at 16:24
Luis Cesar R Silva
 3 

Maravilhosa história, verdadeira, intensa e vivída, por uma pessao tão especial qto vc meu velho amigo, dos tempos do nosso jornalzinho da 1ª Igreja Batista de Codó-Ma – á mimeográfo com aquela tinta azul clarinha – e nossas estórias fantásticas e até uma peça teatral escrevemos, lembra disso? pois bem vc continua com essa veia maravilhosa no coração, por sua fé e tenacidade agradeço a honra de ser seu amigo – que Deus continue a iluminar os teus caminhos e tdo em nome da gloria do Senhor Jesus!! AMÉM!!!!

julho 7th, 2009 at 11:17
Valdirene
 4 

“UM XÊRO PRA QUEM GOSTA DA GENTE”

Eu gosto, mas é um um gostar assim doído , com gosto de coisa antiga, de saudade do que não volta mais, de CLUBÃO, de juventude, de pureza…
Eu gosto, mas é um gostar assim sofrido, de quem se perdeu, sofreu por músicas esquecidas, encontros e despedidas, de um tempo que não volta mais…
Um xêro pra vc “eterno menino” que não se perdeu na estrada da vida sem a companhia de Jesus …
VAL

agosto 1st, 2009 at 20:17
Rubao
 5 

Oi Val,
Que bom que você é do tempo que as coisas boas ficaram marcadas e se incomoda quando a distância se manifesta.
Eu sofro tambem com a saudade das boas rodas, das boas musicas dos papos sem pressa de ir embora, enfim de uma vida mais franca. Mas bola pra frente ainda tem coisa pra gente fazer.
obrigado por sua visita.
um xêro

agosto 2nd, 2009 at 13:54

Comente

Nome (*)
e-mail (não será publicado) (*)
site
Comentário