Acabei de chegar com meu guri da aula de judô, dele. Ele além de judô faz natação, gosta de matemática, bateria, não é regueiro ( por enquanto) curte Phil Colins, tá cabeludo, vai fazer oito anos no próximo dia 19 e tá solteiiiiirão. A guria já fez nove anos e só estuda pro vestibular da UnB (ponto).
Voltemos, pois! Na aula de judô tivemos uma surpresa, o jovem professor que comandava o aquecimento, de repente parou, deu um comando e fez reverência pra alguém que estava chegando de quimono branco, cabelo comprido, preto, liso e amarrado pra trás, com uma cinturinha nada delgada, mas bem arrumada por trás da faixa preta e pés descalços. Pensei que fosse um japonês cabeludo fazendo uma visita, mas quando se virou de frente, percebi que era uma mulher, na realidade uma jovem senhora de aproximadamente 38 anos. O professor sai de cena e ela tomou conta da aula. Não entendi nada, e nem a gurizada. Ela falou:
- Boa tarde, tudo bem com vocês? A aula hoje será comigo. OK!
A presença feminina é algo diferente mesmo, dava perceber pelos comandos e o carinho quando passava a mão na cabeça da galera e trazia ao peito com um instinto feminino lembrando um gesto materno. Pura simpatia e show de aula.
Percebendo a minha perplexidade, a mãe de um aluno tocou em mim e cochichou:
- Essa aí, é a dona da Escola ela veio hoje por que eu reclamei do professor da última aula, ele é muito bruto.
- Ah tá, saquei!
A garotada que já tem uma formação machista começou a questioná-la:
- A senhora é faixa preta? – Perguntou um garoto de cabeça raspada e elétrico.
- Sou, e já faz um bom tempo. Não perece não é? (sorriu).
Apesar do total domínio da arte e da turma, ficou claro que alguns alunos não queriam vê-la como uma líder e tentavam fazer os comandos relaxadamente querendo beber água o tempo todo (claro que ela só deixou uma vez) e empurrando uns aos outros, herança do professor anterior. Ela chamou a atenção com rigor e logo veio outra pergunta:
- Você é faixa preta mesmo, tem alguma medalha?
- Sou sim. Um dia eu conto minha história pra vocês. E ficará melhor se você me chamar de senhora.
- Mas você é baixinha, já ganhou alguma medalha?
O olhar fixo com uma risada usando apenas o lado esquerdo da boca mostrando um furinho na bochecha respondeu tudo. Certa vez juiz perguntou pra um amigo meu:
- Você é o Filho do Homem? – Obviamente que querendo provocá-lo.
- Você é que ta dizendo. – Respondeu Ele.
Outro dia esse mesmo meu amigo caiu (ciladamente) numa blitz e foi injustamente preso num puro ato preconceito e covardia. Aí outro preso, mala, todo enrolado, bandido, que já saiu até no Brasil Urgente do Datena, chegou pra Ele e disse:
- Se você é o “cara” mesmo, o “poderosão” como estão falando uns três “peladinhos” lá fora, por que você não se salva sozinho? Por que não da uns golpes de judô nesses caras e sai andando pela porta da frente?
O cara zombou mesmo, mas só pra se ter uma idéia, esse bandido, sínico e mala, morreu naquele mesmo dia numa morte humilhante e sofrida, já o meu amigo ta vivinho da Silva e ainda salvou um cara “gente fina” que também tava preso e no meio daquele tumulto falou pra Ele não esquecê-lo quando estivesse longe dali, no paraíso. Meu amigo nem pensou, já levou o cara junto. Mais alguma pergunta?
O meu guri começou uma briga de empurra-empurra com um menino lá, e a professora mandou os dois, darem as mãos, pedirem desculpas olhando nos olhos e pagarem apoio até a hora que ela mandasse parar. E pra galera que não parava de questioná-la, ela mandou fazer uma fila olhando pra ela e disse:
O Judô tem uns princípios que eu chamo de palavrinhas básicas e ensino isso pros meus filhos: “Respeito para com o próximo, do mais novo ao mais velho, dizer – sim senhor (a), com licença, me desculpe e obrigado”. E pro meninos e meninas curiosos (xaropes), eu comecei no judô aos 13 anos, fui campeã aos 17, fui onze vezes consecutivas campeã brasiliense de Judô, várias vezes campeã brasileira, e fui convocada para o Pan de 1987 e para as Olimpíadas de Seul 1988, mas tive de ser substituída por que quebrei o braço nos treinamentos. Eu tenho as medalhas e os jornais lá em casa pra quem quiser conferir. Mais alguma pergunta?
Silêncio total. Deu até vontade de pular no cangote dela e dar um xêro, mas pensei rápido. “Esse mulher não vai me entender e ainda vai me dar um golpe”. Mas que deu vontade deu. Ela mandou meu guri e o colega ficarem em pé, e despachou a turma.
Sim! Eu estava me esquecendo de dizer que ela tem:
Registro Faixa Preta 4º Dan de Judô: 102-4D
Registro Faixa Preta 1º Dan de Karatê: ACL 1309
Registro Faixa Preta de Kickboxing:
Registro Faixa Preta 5° Grau de Artes Marciais.
Um xêro pra quem gosta da gente.
Rubão


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