João tinha 22 anos quando saiu de sua casa no interior de Pernambuco deixando a família, toda uma história, e aventurou-se solitário naquele ônibus entoando seu monólogo apenas para aquela janela transparente que misteriosamente misturava lembranças do que ficou, coisas novas correndo do outro lado do vidro e a expectativa do que a vida lhe traria. O ônibus seguia com destino a Campinas, grande cidade próxima à capital São Paulo.
João, como milhares de nordestinos, partiu a convite de parentes pra tentar a sorte na cidade grande. Era uma oportunidade imperdível de estudar, trabalhar e quem sabe, um dia voltar pra “terrinha” como orgulho de seu povo.
O Jovem chega e depara-se com uma avalanche cultural a começar pelo sotaque carregado, era estranho, ouvir e ser ouvido. Também o clima frio inimaginável em Pernambuco. Pra ele, uma camiseta e uma camisa de mangas compridas por cima resolveriam qualquer novidade climática, coitado! Além da surpresa a bronquite, a vegetação diferente, culinária diferente (sem aquela farinha), ritmo de vida acelerado, algumas coisas trocadas como, por exemplo: A macaxeira era mandioca e a mandioca era macaxeira, mas com pouco tempo João se familiarizou com a cidade e as coisas, e começou a “caminhar com seus próprios pés”, superou os desafios da saudade com novas amizades, conseguiu emprego e saiu da casa dos parentes pra dividir república com amigos sonhando alto com a nova vida.
A cidade grande além de muitas oportunidades oferece também os perigos da violência urbana que vão desde seqüestros relâmpagos até ao violento e malvado trânsito que não perdoa classe, cor ou credo.
Pois bem, João se torna vítima do caos urbano quando recebe num final de tarde a triste notícia de que seus parentes, os únicos ali naquele mundão de meu Deus, sofreram um terrível acidente voltando pra Campinas e faleceram. A cabeça de João dizia pra ele: Corre, pára, telefona, fica calado, grita, chora, consola, faz alguma coisa, procura informação, informa… Tudo ao mesmo tempo.
João ainda incrédulo olha em sua volta e vê um grupo de amigos consoladores e solidários, mas aqueles que o levaram, os únicos que ele conhecia até pouco tempo em Campinas, eles não estavam mais ali. Como administrar dor, saudade e questões? Como calar as perguntas que se organizam, fazem fila e gritam exigindo explicações?
Todo semana surge no Brasil uma nova ONG a partir de alguém que teve sua história marcada pela violência. Ninguém é tão sensível a esse monstro como aqueles que foram vítimas dele. Só quem passa é que sabe.
Pois bem, se você trocar Pernambuco por Maranhão, Campinas por Anápolis-GO e João por meu nome, você concluirá que essa história é a minha história. E é mesmo. A minha querida prima Flor (Nini) e seu esposo, meus únicos conhecidos no Centro-Oeste me trouxeram pra cá, e de uma hora pra outra, numa mistura de imprudência ao volante com a indecência de nossas estradas, eles e o filho mais velho, numa tarde cinzenta de domingo, antecipam o fim da história num trágico acidente voltando pra Anápolis. Pronto, fiquei “órfão”! Todo mundo que eu conhecia se foi, eles não estavam mais ali. Era uma sensação esquisita quando eu olhava pra rua e dizia: Ali mora dona Célia, ali mora Gilberto, aquele doutor é bom médico e bom visinho, aquela galera é minha amiga e me conhece pelo nome. Tudo a partir de alguém que… A minha esposa quando solteira morava na casa de frente da casa da minha prima, e foi lá que eu a conheci. Que doideira! Daí veio faculdade, banda, família, irmãos do peito, um universo de coisas e amigos em “outras terras” que eu não conseguiria contar nas mãos, nos pés e nem nas folhas. Mas eles não estavam mais ali.
No Maranhão, filho de primo é sobrinho. (ponto). Na época, três filhos da minha prima, portanto meus sobrinhos, que não estavam no carro e tinham menos de dez anos, ficaram órfãos e sofreram todo tipo de pressão psicológica que se possa imaginar. Não é fácil entender nessas circunstâncias o que é Dia das mães, pai herói, medo de escuro, comida saudável, puberdade, ser visto sempre como um coitado, conviver com respostas que não gostaria de dar, enfim, ser órfão. Isso acontece todos os dias, mas assim como nas ONGs, interessa mesmo é pra quem sente na pele. Eles dizem que “Deus tem um plano e sabe todas as coisas”. Palavra deles. Amém!
Outro dia passei lá “na rua” a calçada onde eu gostava de sentar com meu violão em meados dos anos 80, no friozinho de um sábado ao final da tarde, tava lá, o mesmo asfalto tava lá, alguns vizinhos ainda estavam lá, mas eles não estavam mais ali.
Meus sobrinhos vão bem obrigado! Estão formados e encaminhados na vida, acreditam em Deus como Senhor do universo e ainda me chamam de tio, e ai daquele que não chamar. “Respeito é bom e conserva os dentes”. rsrs. Ficaram órfãos, mas não desamparados, nunca vi nenhum deles mendigando o pão e nem questionando Deus por coisa alguma, eu também não questiono.
Um xêro pra quem gosta da gente.
Rubão


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