Acabei de chegar da Feira do Livro de Brasília. Fique mais de 5h em pé, devorando livros, almanaques, livros, origamis e livros. Minha menina fez a festa, e nós as contas do investimento. Foi um bombardeio de literatura, arte e informação. Esse ano quem me chamou muito a atenção foram os “cabras do Cordel”. Perece que as letras se lhes escorrem dos dedos. Então empolgado pelo clima, me atrevi a riscar, esse, que se cantado, seria um repente.
Chicote Doido
Chicote doido, chicote de dar em doido
Chicote doido vai bater noutro lugar.
Sou nordestino barulhento, enjoado
Vim pra animar a festa desse cidadão honrado
Mas não vou ficar calado diante da hipocrisia
Que é a praga deste mundo e que destrói a alegria
Que provoca esse rapaz simpático e inteligente
Que esta se rindo de lado, pois falta um dente na frente
Ele é um grande amigo meu, mas está muito carente.
Se ele esta muito carente, olhe bem pra este outro
Tá com a cara de faminto, mas comeu uma qualhada
Só que não foi um copinho, foi logo uma latada
E tudo embananou-se num purum pum-pum danado
Que incomodou num raio de 10.000 m 2
Derrubando homem valente, não no murro, no desmaio
Esse bicho é amigo meu, mas está desmantelado.
Pode estar desmantelado, mas é um cara bacana
Que que eu digo deste outro, que parece um pau-de-cana
Que até o sol derrete perante sua boniteza?
Que faz barata cuspir e dá enjôo em gambá prenha
Tem sorriso de dragão e bafo de urubu
Que que eu vou dizer pro mundo se isso for mesmo beleza,
Se ele também é amigo meu e contraria a natureza?
Já percebi que nessa roda tem doutor
Homem estudado, formado lá na faculdade
É com respeito seu doutor advogado
Que eu lhe chamo pro repente diante dessa platéia
Que tem moça sorridente e uns três com diarréia
Tem bicudo orelhudo todo metido a galã
Com a cintura no pescoço sonhando em ser modelo
Pra ele é encantamento, mas pra nós é pesadelo.
Já que o senhor é doutor pode tomar a palavra
Mas pra conservar os dentes, pense bem na sua fala
Todo cuidado é pouco quando for mexer comigo
Se sobrar para o senhor eu não me responsabilizo
Seu doutor é estudado treinado na falação
Mas, difícil é burro brabo e eu amanso uns três por dia
Para mim é brincadeira, pro doutor é agonia.
Aqui na cidade grande só se diz que é doutor
Quem passou na faculdade de engenheiro, advogado
Medicina, professor, de repórter e “agronomista”
Lá pra nós é diferente, basta ter 16 anos
Passar dos 40kg, viajar pra todo lado
Ser macho e atrevido que o cabra já tá formado
Pelo que passei na vida eu já tenho é doutorado.
Tenho fama de brigão, mas é que o povo fala muito
Olhe que eu sou legal fui até com sua cara
Outro dia apareceu um fulano Bruce Lee
Metido que nem garrote com olhim de jutirí
Só dei-lhe um, no pé da venta que o japa desembestou-se
Fugindo que nem cigano, e eu não peito infarento
Porque cada muro meu é um coice de jumento.
Eu não sou um psicólogo, mas já percebi de longe
Tem uns três aqui rezando sorrindo pra não chorar
Desde que eu tô cantando não mudaram de lugar
Já que o cheirinho incomoda, disfarce e dê uma voltinha
Com esse sorriso amarelo de melão morrer de inveja
Pode sair de fininho que eu já vi a borradeira
Diga que é indigestão, mas eu sei que é caganeira.
Eu já vou me retirando, pois já conversei bastante
Se o convite for refeito quem sabe volto outro dia
E eu pergunto o que seria desse artista sem vocês?
Se o amigo me pedir vou cantar tudo outra vez
E pra quem não é murrinha e tem um bom coração
Colabore com um real ajudando o “Maranhão”
E se gostou que bata palmas
Pra esse filho do sertão.
Um xêro pra quem gosta da gente.
Rubão


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