Sábado próximo passado recebi um convite de um amigo pra assistir ao show da Miúcha . Todo mundo sabe que ela é irmã do Chico Buarque e que faz parte da velha guarda da Mpb. Confesso que mesmo sabendo que ela é boa, Miúcha não era um nome que me encantasse aos ouvidos talvez até pela injustiça da mídia.
O show aconteceu no Teatro da Caixa Cultural, Brasília. Meu amigo que comprou os ingressos, dele, da espose e meu, antes mesmo de perguntar se eu queria ir ao show (uma audácia) compro o último ingresso, o meu, achando que havia feito ”grande vantagem”, e fez.
Quando eu olhei meu ingresso escrito: Inteira “O – Zero Um” Eu pensei, “Que presente de grego”. Se “O” já é fim de alfabeto, deve ficar lá atrás, lógico, e 01 é a primeira cadeira que sempre começa no canto, grudada na parede, ou seja, além de ser fundão, não era no centro. Mas crente que é crente não sai de um lugar qualquer que seja sem dar pelo menos dois “glória a Deus!” nem que seja com raiva.
Como estava no convite, 20h30 em ponto, entram sob uns poucos aplausos, três rapazes com mais de cinqüenta, e, em seguida vestindo um conjuntinho lilás e com aquele mesmo caminhadinho miúdo (Miuchado) que o Chico imprime quando se deixa filmar, Miúcha entra cantando “Samba do Avião”. Maravilha. Ela deu um show de comunicação, interpretação, simpatia e história da MPB já por que os mestres faziam roda na sala da casa dela. Era possível ouvir até sua respiração. Que mixagem! E eu estava na “O” Zero Um, mas esse povo faz tudo de tal forma que de qualquer lugar você tem uma boa visão e ouve tudo.
No ingresso estava escrito: “Não será permitida a entrada após o início do espetáculo”. E nem precisava, todo mundo chegou na hora. Nos nossos eventos não, a gente não começa a cantar na hora e a galera só chega quando o som já começou, sem falar que fica aquele “trem” de gente saindo e entrando. A gente não vai pra um evento desses pra ficar comparando, mas seria muita ignorância não perceber nossa ignorância, e ainda temos que ouvir críticas a quem faz arte com responsabilidade com a alegação de que é música mundana. Eu tenho um amigo que radicalizou e não ouve música que não seja cristã, aí eu sugiro: Que tal parar de cantar “Parabéns pra você”, “Hino de time de futebol”, “Hino Nacional”, “Com quem será?…” Isso é tão popular quanto “Como é grande o meu amor por você” de Roberto e Erasmo Carlos que na voz de Fagner é quase um dos “Cânticos de Salomão”. E pra radicalizar que hoje eu tô é invocado, sugiro eliminar “Castelo Forte”. Um dos hinos mais tradicionais do hinário cristão feito por Martinho Lutero em 1529, O cara que grilou com a igreja Católica encabeçando a Reforma Protestante. Ele Aproveitou das melodias folclóricas (populares) do seu povo, com requisito que fossem apropriadas para cultuar a Deus e colocou letra. Veja o que ele escreveu: “A música é a bela e gloriosa dádiva de Deus… A música transforma os homens em pessoas mais gentis, mais auto-controladas e mais razoáveis.” E mais: “Não pretendo deixar para o Diabo as melhores melodias!” Certamente referindo-se às belas melodias populares.
E Como já disse, o show começou às 20h30 em ponto, evento de crente sempre começa muito depois, geralmente colocam um cara que fala alto (grita), despreparado e pronto pra “encher lingüiça”. Um vez a gente veio fazer um show aqui em Brasília e o “cara” chegou pra mim e falou:
– Você é o vocalista?
Respondi .
– Sou
- Qual o seu nome?
Ham? Fingindo não ter ouvido a pergunta direito. Paia né? A próxima pergunta seria: – Qual o nome da sua banda? Risos…
Sem falar que sempre colocam uma banda pra fazer a abertura, com a velha missão de “encher lingüiça” e trazer sua Comunidade se for grande (visão e/ou revelação) isso acaba menos ruim quando o líder não vem junto pra dar uma palavrinha de 40 minutos. Eu mesmo já fiz isso. Uma vez em Anápolis com um grupo chamado Mel, em que eu, Beto, Augusto Ventura e uma galera fomos abrir um show (18 anos atrás) do Expresso Luz que na época tinha a liderança e os vocais de Carlinhos Veiga. A gente cantou umas 17 músicas. Caramba, que vergonha! Eles tiveram que tirar 60% do repertório. Será que o Carlinhos já me perdou? Eu não. Hehe!
Miúcha estava acompanhada de Ricardo Costa na bateria, Jamil Joanes no baixo e Leandro Braga no piano. Que timaço. Ela cantou Tom Jobim, Vinícius e Chico Buarque.
Eu por um bom tempo, tentei entender como uma bateia poderia tem um som tão limpo, tão na medida, e isso com muita sincronia com o baixo e o piano, (bem diferente da crentaiada) sem falar da voz nítida e acima dos instrumentos (não o contrário, nosso caso.) ao ponto de eu dar um “Glória a Deus!” Claro que como bom presbiteriano, mandei baixinho, hehe!! A cantora embora não mandasse ali, um “hino do cantor” cantava com a alma citando com respeito e maestria os nomes que fizeram a história da Bossa Nova, bem diferente da nossa turma que se nega a reconhecer sua própria história e “nem sabe” que se hoje temos bateria e guitarras em nossas igrejas, é porque figuras como Janires, VPC, Logos, Bomilcar e outros, deram o sangue e a cara quebrando tabus, e, a massa ignora. Nem sabem que “Só o poder de Deus” só se canta em samba por causa dessa da MPB.
Emocionei-me ouvindo Miúcha e seu Trio que, em alguns momentos se permitia envolver-se de sentimento ao ponto de contagiar a todos, noutras, olhava pra cima como quem dizia: “Senhor eu não te conheço, mas essa é pro Senhor”. A música às vezes chega a um ponto que, de tão forte, se não pra Deus ela vai pro espaço. E tem gente que quer dar tudo pro… Há! Se Lutero que foi o cara, não entregou, eu vou entregar? È ruim hein!
Cinco minutos antes de começar o show duas mulheres numa outra fileira conversavam atrapalhando a concentração de quem esperava o início, quando de repente uma falou: Olha, vai ter show de Simone, Zélia Duncan, e também da Adriana Calcanhoto e… Quem é esse Carlinhos Veiga? Confesso que fiquei em dúvida se tinha ouvido direito, mas estava lá na revistinha de eventos, eu conferi. O show já ia começar, mas deu tempo de soltar um “gloria Deus!” Carlinhos é meu brother, tem um trabalho maravilhoso com música Popular Regional e é apaixonado por Jesus. Ele é o mesmo que eu citei lá atrás na história do Expresso Luz, lembra? Pois é! Fiquei muito feliz em vê-lo ao lado de nomes fortes da MPB, infiltrado no cenário pra ser luz, e, quem sabe, numas dessas, dizer pra Simone, Zélia, Adriana,… ou a Miúcha que tem um Deus, o Senhor da arte e criador da música, que está pronto pra ouvir o canto que sai da alma. E que naqueles momentos que elas cantam e esses cantos saem como um grito de sede d’alma. É pra Ele que estão cantando, até por que, Ele é a Água da Vida.
Eu prefiro ouvir essa galera que às vezes padece por ignorância, que aqueles caras, que dão uma viradinha pra gente (banda) e dizem: – Irmão, toca mais “uma” bem animada, que chegou mais gente e eu vou recolher nova oferta ao “Senhor”.
Eu vou ficando por aqui… Como deu pra ver, a cadeira “O” Zero Um, não foi o pior lugar.
Um xêro pra quem gosta da gente.
Rubão


Comente