Archive for fevereiro, 2010

25
fev

Pérolas do Coletivo

   Posted by: Rubao   in       

Você já andou de coletivo? Eu descobri que a molecada lá em casa mesmo sendo filho de pobre nunca andou de coletivo.  Então resolvi perguntar pra um guri lá da Comunidade se ele sabia o que era andar de coletivo. A resposta: – É andar em grupo tio?

Andar de coletivo pra quem não sabe é andar de ônibus, desses que circulam pela cidade. Perece brincadeira né? Mas quer ver uma coisa – Qual foi a última vez que você andou de coletivo? Pra quem faz muito tempo, a resposta geralmente começa com “Já faz um tempão, mas foi um tempo de muita ralação” e termina com “Bons tempos que não voltam mais”.

Outro dia andando num coletivo e não estava muito cheio, percebi que o motora do dia, não era um cara comum, além de dar sempre uma meia freiada e duas buzinadas pras gatinhas do outro lado rua, o cara usava um óculos de surfista bem extravagante, acho que a cor era amarelo queimado. Há um padrão de uniforme nas empresas de ônibus que é calça preta e camisa azul tipo bata, mas nada que impedisse o motora de usar por baixo e quase que cobrindo todo o uniforme uma camisa de artista, mas artista de verdade lembrando Alípio Martins, Lindomar Castilho, Bartô Galeno ou mesmo Raimundo Soldado (só alguém muito desatualizado pra não conhecer esses ícones da música brasileira) lembrei até de um artista lá da Anápolis que ficou famoso com a música “O seu gato é gay” Seu nome era Ailton José, nome artístico claro, mas ele passou pra lei de crente e como teve uma mudança profunda e  tornou-se um artista de Deus resolveu também mudar de nome, hoje ele é o cantor José Luis, o ex- Ailton José. O cabra cristão é criativo né não?

 Voltando ao motora, ele dirigia conversando com o cobrador, contando vantagem de mulheres sempre olhando no retrovisor e arrumando de cabelo que lhe cobria as orelhas, é impressionante o tratamento que ele dava pra cada moça que subia no ônibus, melhor ainda era a cara das moças depois do Olhar 46 dele, acho que elas não acreditavam. Ele não dizia nada, mas obviamente, se achava. O show saiu barato pra quem tava só assistindo, é como se seu motorista particular fosse um artista do rádio e da televisão.

Fui mais pro meio, e de repente um celular toca ao som de “Festa no Apê”, a moça atende e começa a conversar em voz alta. Ninguém tava a fim de saber da vida dela, mas ela não se tocava e contava tudo, de marido ciumento a visinha fofoqueira. Três coisa me chamaram a atenção: 1º- Por que eu não tenho tanto crédito no celular? 2º- Por que minha bateria não dura tanto? 3º- Graças a Deus eu não sou louco de ficar contando minha intimidade, por “horas”, pra todo mundo. Depois de um tempão de conversa fiada ela deu um  ”tchau…beijo”. Ufa! Agora estou livre pra pensar no que quiser, pensei. Três minutos depois…  “Vai ter festa lá no meu apê” Aí não, isso é tratamento. Fui lá pra trás e sentei quase na ultima cadeira.

De repente começou uma gritaria lá na frente, um susto em todo mundo, mas a paz veio quando percebemos que era um artista ambulante, o cara é muito bom. Depois de chamar a atenção com os gritos ele começou a provocar o motorista dizendo já o viu num programa de TV e começou pedir autógrafo e a pedir que a galera tirasse foto no celular dele ao lado do “artista” motora, além de procurar uma câmera escondida dizendo que devia uma pegadinha . Haha! Aí ele partiu pras imitações das meninas de cada cidade satélite andando em pé no ônibus, ele foi dos setores mais pobres até uma “Patricinha” do Lago Sul, a galera chorava da rir.

Não demorou e ele resolveu mexer com o povão e começou a a cantar e dançar paródias, depois inventou de senta no colo das pessoas, passar flanela na cabeça dos carecas (eu estava de boné) provocou todo mundo até se virar pro cobrador a dar um grito: Juvenal!! Haha! E continuou dizendo que tudo aquilo é pra chamar a atenção dele, que eles eram um caso antigo interrompido por ciúmes, mas ele deveria perdoá-lo. O cobrador não gosta nada, claro! Mas aí é que ele mexeu mesmo, a galera dando risadas e gritos, então, ele pede silêncio e diz bem alto: – Vocês devem estar duvidando de mim, mas eu provo que é verdade, querem ver? O coro unânime grita. Queremos! Ele continua: – Motorista mais galã de Brasília, se esse caso de amor é verdadeiro dê três buzinadas por favor. Haha!! O cara nem esperou e bip, bip, bip. Com essa até o cobrador caiu na risada.

Depois de muita brincadeira ele distribuiu seu cartão pra galera, pediu desculpas por qualquer coisa e disse que era um artista popular que trabalhava em festas de empresas, aniversários, rua, etc. e que sorrir faz bem pra alma, quem da risadas trabalha melhor, vive mais feliz, e que todos deveriam lembrar de agradecer a Deus por ter acordado, por ter um trabalho, uma familia e que as lutas são parte da vida, mas com fé em Deus a gente vence. A galera bate mais palmas e muita gente inclusive eu, colaborou com um real no chapeu que ele passou. Um cara só tinha duas moedas de vinte e cinco centavos e deu, ele perguntou:  – É só isso que vale o meu show seu infame, cinquenta centavos? Foi só mais uma brincadeira.  Ele agradeceu a colaboração é concluiu: – Pessoal, eu trabalho com essa arte de levar alegria há mais de 10 anos aqui em Brasília e graças a Deus o meu tão sonhado reconhecimento chegou, nesse domingo pela manhã eu estarei  às 10h na Globo quem puder me ver pra dar IBOPE eu… A galera interrompe a fala com mais salva de palmas.  – Calma gente, a Globo é uma loja de Materiais de Construção lá na Ceilândia. Fiquem com Deus.

Um xêro pra quem gosta da gente.

Rubão