Archive for agosto, 2009

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ago

Quem canta atrai ou espanta

   Posted by: Rubao   in Melhores Artigos, Papo aberto

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Me contaram uma história e eu creio que seja verdadeira até porque a fonte é rigorosamente confiável. A história fala de um agente penitenciário que tentou suicídio depois de uma movimentação de fuga no presídio que ele trabalhava.

E por falar em suicídio eu tive a curiosidade de saber o que isso representa em números. Veja esses dados: Em 2004 a média nacional era de 4,5 mortes por 100 mil habitantes, no Japão essa média chegou ao absurdo de 25 mortes por 100 mil habitantes. Da até medo. Nem quis me arriscar a ver os dados de hoje.

Recentemente em Taguatinga-DF, um policial militar, depois de uma crise de ciúmes da ex-esposa, atirou nela e depois se suicidou. Os jornais estão cheios de histórias semelhantes tanto que já nem nos incomodamos mais, aceitamos como mais um caso de fraqueza ou de desequilíbrio emocional, coisas dos tempos modernos.

E fica uma pergunta: O que será que leva alguém ao extremo de dizer: “Pra mim, morrer é a única opção” ou “Não existe mais sentido na vida, vou me matar”? Há quem diga que a música acalma a alma, tem até a história de um rei que quando estava atribulado com insônias e perturbações noturnas, mandava chamar um músico, um cabra dos bons. E quando o músico cantava o rei se sentia aliviado e dormia tranquilo. Há um ditado popular que diz: “Quem canta seus males espanta” e pelo jeito, dependendo da música e de quem canta perece que espanta até os males dos outros com é o caso do rei.

Sim, mas a história do agente penitenciário ou carcereiro me chamou atenção, primeiro pelo nome, Raimundo Nonato da Silva, não poderia ser mais maranhense e consequentemente conterrâneo que isso, aliás, poderia se fosse José de Ribamar da Silva com esse nome você acha de doutor a estivador. Mas seu Raimundo intimamente chamado de Mundinho também me chama atenção por sua reputação. Um cabra reconhecido com um bom pai, um bom esposo, um companheiro verdadeiro, e um profissional competente, assim dizem os colegas de trabalho, enfim um sujeito com a dignidade de comer do suor do seu rosto e a devoção de ir ao Maranhão pelo menos de dois em dois anos pra visitar sua gente.

Olhe! Pra ele não tem coisa melhor que reencontrar Painho, mainha, a primaiada, amigos de infância, e parte dos nove irmãos que ainda moram lá em Axixá. Ele aproveita ainda pra rever a pracinha da Matriz onde rolou o primeiro beijo, o Rio Munim de tantos saltos mortais e peladas na prainha e relembrar os tempos de “brincadeira com a rapaziada” como é carinhosamente chamada a participação no batalhão ou simplesmente na dança do Bumba-meu-boi. A cidade é muito conhecida pela expressão artística e cultural do famoso Boi de Axixá, um dos mais tradicionais grupos de sotaque e de orquestra do Maranhão que em 2009 completou 50 anos.

Seu Raimundo trabalhava na segurança de bandidos perigosos e tinha sobre si grande responsabilidade. Ninguém entrava ou saía sem sua ordem. Pois bem, num certo dia chegou dois sujeitos presos acusados de badernagem e foram inclusive violentamente agredidos pelos policiais, esse tipo de prisão é rotina, a diferença é que esses dois sujeitos eram cidadãos de bem, tinham formação e não cometeram nada, nada foi achado ou provado contra eles. Acredita-se que foram fruto de uma armação.

Um fato interessante que clamou a atenção, segundo relatou do próprio Sr. Raimundo. Foi quando os caras já presos e machucados começam a cantar como quem estava feliz, trazendo uma comoção muito grande entre os presos e até mesmo entre os guardas. Seu Raimundo garante que dormiu ouvindo os cânticos e acordou com um barulho muito forte. – “Parecia uma barroada (batida) de frente entre duas carretas. Misteriosamente os cadeados se abriram e as portas de ferro se escancararam deixando toda guarda vulnerável, seria uma fuga em massa como nunca vista na história daquele presídio de segurança máxima”. Disse ele.

Ora, pra um cabra que veio de Axixá não era de se estranhar que ele pensasse que era coisa do “bicho feio” e foi o que ele pensou mesmo. -”Foi um barulho tão danado que eu acordei de um pulo e quase me borrei de medo quando vi todas as portas escancaradas, os presos gritando, uma nuvem de poeira nos corredores… foi um troço de louco”. Disse o carcereiro. Ele ficou tão desesperado com a certeza de que todos fugiriam e que não poderia jamais justificar as fugas e ainda seria lixado, que pegou sua arma e atentou instintivamente contra si próprio querendo se matar. Mas outra coisa interessante aconteceu: Os dois homens que cantavam e que pra ele, tinham poderes, gritaram e correram até ele impedindo que naquele momento houvesse uma tragédia, um suicídio, e mais interessantes ainda, eles não permitiram que nem um preso fugisse. Que coisa hein!

Eu acho que alguém ainda vai fazer um filme dessa história porque ela é realmente impressionante. Tanto que depois, eles, os dois homens presos e seu Raimundo Nonato jantaram juntos e conversaram bastante. Eles foram reconhecidos como inocentes pelo Estado inclusive com um pedido formal de desculpas e a história foi mais longe, os cabras ficaram amigos duma tal maneira… Sim, do tipo irmãos de fé. Ora, se até batizaram os filhos de seu Raimundo.

Se alguém souber mais dessa história me conte. A verdade é que por privacidade os dois rapazes são conhecidos apenas pro Silas e Paulo. Tentei achar mais coisas na internet sobre Raimundo Nonato da Silva, mas assim como José de Ribamar, tinha tanta gente com esse nome que achei até quem não presta, aí eu desisti.
Fato é, cantar, faz bem pra sua alma, pra alma dos outros e por incrível que pareça pode até quebrar cadeias.

Um xêro pra quem gosta da gente.

Rubão