Archive for maio, 2009

p1130094.JPGVocê com certeza já ouviu falar a expressão ”Sal da terra e luz do mundo”.  É Jesus quem assim nos chama. (Mt 5, 13-15). E apôis! A luz não é luz para si mesma, não vem para se iluminar, nem o sal salga a si próprio. Mas a luz é acesa para iluminar a tudo e a todos. A nossa fé em Deus é o sal que tempera e conserva, mas se o sal perder o seu gosto, para nada serve e é jogado fora, se nossa fé não se manifestar em atitudes de cristãos, ela é como um sal que perde o seu sabor e é desprezado e pisado pelos homens.

Você também já deve ter ouvido falar da colonização européia em Pernambuco, principalmente a holandesa, daí a grande quantidade de cabras pelos sertões, de pele clara e olhos pintados de azul celeste, verde esmeralda, furta-cor e até cor de burro fugido. É a coisa mais linda.

Você também já deve ter ouvido falar de um rapaz baixinho que encarou um grandalhão desaforado e derrotou o infeliz com uma badocada acima da venta, no meio do para-choque, ou seja, na testa. Sim, falo do pequeno Davi e do gigante Golias.

Pois eu vou lhe falar de um cabra do interior pernambucano que é tudo isso junto. Ele é baixinho, branquelo, magricelo, tem os lhos pintados que até parece que mudam de cor com a lua, valente de enfrentar cangaceiro, sério que só bode andando de canoa, não tem medo nem de coice de jumento que dirá de cara feia, gosta de chapéu de couro que nem lampião e é conhecido pro Marquinhos Sal da Terra. Homem de um coração sensível que só agulha de radiola (toca-disco), homem de Deus. E eu posso dizer com orgulho que “ele é meu amigo”.

Essa semana recebi um e-mail de Marquinhos (graças a Deus a modernidade alcançou o sertão) me contando uma experiência interessante vivida por ele, e eu conheço dezenas delas, me fazendo repensar sobre meus valores nesse mundo de tantas inversões. E, com a autorização dele, quero repartir essa carta com você. Agüente viu! Se você é fraco que nem eu, é bom pegar um copo d’agua.

A Carta : Deixando Cristo para trás.

Oi, véi!!

Escrevi este texto e gostaria de partilhar com você.

Fique na paz de Cristo.

Na beira da estrada, meio do sertão, entre as cidades pernambucanas de Ibimirim e Floresta, numa parada que fizemos para um café. Vimos este homem, saindo do meio da caatinga, numa bicicleta caindo aos pedaços. Ele havia pedalado sessenta quilômetros, por estradas de areia e pedra – próprias daquela região – Vindo de outra cidade que, como se por ironia do destino se chama Betânia, que no hebraico quer dizer “lar dos pobres”. Francisco era o nome daquele senhor e naquele momento ele chegava ao asfalto, ali onde nós estávamos, visivelmente cansado e tinha mais setenta e oito quilômetros pela frente, que faria numa daquelas camionetes que transportam pessoas pelo sertão. 

- Um cafezinho?

Perguntei de maneira amistosa, ao recém chegado, querendo quebrar o gelo, estendendo o copo de café e o pão com queijo que eu tinha nas mãos. 

- Não, Obrigado!

 Respondeu vacilante e com o olho cumprido para aquela refeição que tomávamos. A sua expressão nos dizia claramente: “Por favor, insista!” Entendi sua hesitação e insisti:

 - Que é isso homem? Venha comer com a gente!

A fome falou mais alto do que a vergonha, aquele cidadão de meia idade e de pele enegrecida pelo causticante sol sertanejo, se agachou e começou a comer.

 Vimos, então, que ele estava com muita fome e por uma razão bem simples, porém quase trágica – ele não havia comido nada naquele dia – isso mesmo, sessenta quilômetros de bicicleta, no meio da caatinga, sem nada na barriga. Ele deglutia cada pedaço do sanduíche de queijo de manteiga com certa ansiedade, como se fosse o último, e sorvia os goles de café com nítida expressão de satisfação. Por sorte, nós havíamos levado o suficiente e ele comeu até se fartar.

 No final, amarramos a bicicleta de Francisco em cima da Kombi, entoamos um hino de louvor à Deus e seguimos até Floresta destino dele, nosso caminho. Na estrada partilhamos da nossa fé, do amor de Deus, da nossa alegria de tê-lo encontrado e de tantas outras amenidades. 

Finalmente, chegamos à Floresta, nos despedimos com uma oração rogando ao Pai uma bênção especial sobre a vida daquele sertanejo de Betânia. Talvez nunca mais o vejamos e certamente nunca mais teremos notícias dele. Mas, daquele momento para cá eu trago um questionamento em meu coração: Quantas vezes, pelas estradas da vida, passamos despercebidos deixando Cristo para trás? “Tive fome e não me destes de comer. Tive sede e não me destes de beber”. 

Que Deus nos torne mais atentos.

Um abraço e que Deus te bendiga,

Marquinhos Sal da Terra

Eu fiquei emocionado pricipalmente pela fato em si, mas Marquinhos foi além e me mandou no final do texto um link do registro desse momento maravilhoso, o encontro do pequeno Davi pernambucano e sua equipe com o sertanejo Francisco.

Eu daqui do conforto da minha sala, olhando pro computador, certo de que na minha geladeira tem pelo menos água fria e outras coisas que semanalmente perdem a validade, muito bem acomodado em minha rotina, saindo pra eventos e programas que me pareçam bem (senão, eu não vou), cheio de amigos prontos me atenderem ao toque do celular, me sinto abençoado que nem  Davi, mas quando vejo o amor desses caras que enfrentam o sertão de caatinga à dentro, o calor intenso e a poeira, sem buscar fama, reconhecimento, cachê, foto em revista, conforto, etc. Só pelo alegria de falar aos sertanejos de um amor maior que o de dar um pedaço de pão com café, de dar uma carona ou fazer uma boa ação. O amor de se entregar ao ponto de morrer por nós, o amor de Cristo. Aí eu me sinto um Golias levando uma pedrada na testa.

Dos cabras que aparecem no vídeo, um foi baderneiro e cachaceiro de amanhecer na calçada, , um escândalo pra família e a sociedade, outro era brabo na peixeira principalmente depois da pinga, outro foi violento de botar revolver na boca de sujeito e bate só pra ver o sangue correr e outro foi braço forte dos homens da máfia pesada do jogo do bicho em São Paulo. Todos transformados. Quero resaltar que nenhum deles vê vantagem nesse “currículo” e nem saí por contando essa parte de suas vidas, eles preferem falar da caminhada sadia e fantástica que é seguir os passos do Grande Mestre. Agora me diga: Pela cara, que é quem? Eu duvido que você adivinhe, mas a resposta fica mais difícil ainda quando eu pergunto: Quem tem o coração mais quebrantado? Eu tenho que engolir seco, passar a mão nos olhos pra desembaraçar (e poder ver pelo menos as teclas) e dar graças a Deus. Por que se Golias é grande, maior é Davi que confia em Deus.

Marquinhos nesse dia curiosamente não estava de chapéu de couro,  mas é o que aparece de boné preto cantando. “Ninguém detém é obra santa”. Com ele, Lalo no violão, Jorge no triangulo, Israel na zabumba, Elias na sanfona, Laércio Lins cantando e Alvinho, que é o que está arrodeando, e, enquanto os cabras cantam ele continua servindo o sertanejo Francisco, de jaqueta azul. Que sena fantástica!

É só clicar: (: www.youtube.com/watch?v=qn6pxAByF3k )

Um xêro pra quem gosta da gente.

Rubão