Archive for abril, 2009

30
abr

Cara de pamonha na Festa do Milho

   Posted by: Rubao   in Papo aberto

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Já era quase seis horas da tarde de sábado quando meu telefone tocou. Do outro lado da linha, um sotaque pernambucano, carregado que só mula de garimpeiro e florido de brincadeira.

-Ei macho! Tu vem aqui me ver?

-Ôxe! Não deve ser difícil não, Mas eu não to reconhecendo tua voz.

-E apôis! É Firmino, meu irmão. De Caruaru (PE). Sim, e tô bem aqui perto de tua casa, mas é o seguinte, venha e já traga sua viola que nós estamos aqui só lhe esperando. Óia! vamos tocar daqui a pouco visse.

- Ei cara, o trem não é bagunçado não. Mas me dê 5 minutos. – respondi animado.

Essa não é a primeira vez que esses cabras fazem isso. Da outra vez que vieram, veio junto o zabumbeiro Damião, um sujeito de uma história linda, mas a verdade é que os cabras tinham acabado de chegar, eles só viajaram 2.200 Km de Caruaru a Brasília num monza cinza, não sei que ano, sem ar condicionado e com cinco pessoas dentro e ainda na chagada, bateram o carrro por um descuido a 800m de parar, certamente fruto do cansaço. Eles garantem que boa da parte da viagem vieram cantando.

Tem um camarada pernambucano que mora perto de minha casa, e, é mais amigo deles do que eu, por que eles sempre vão direto pra casa dele, o GG. Pelo apelido, só pode ser gente boa. E é mesmo, esse é o apelido do meu pai. GG tava com um compromisso e eu além de entrar pro grupo assim de cara… (cara-de-pau e de nordestino mesmo, ainda mais como o chapéu de couro que ganhei) teria que levá-los ao local, um prazer. E fomos à Festa do Milho na Ceilândia – DF. A galera já estava esperando o grupo e eu infiltrado ali, achando uma maravilha.

Um caminhão cruzado na rua, barracas com tudo que é coisa boa de milho, outros grupos tocando, muito gente e até bêbum, esses nunca faltam em festa de rua. De repente o cara da organização grita: “E agora com vocês o pessoal lá de Caruaru-PE, é forró pé-de-serra do puro, valendo mesmo, vamos recebê-los com uma salva de palmas”. -  assim foi. Subimos todos de chapéu de couro com zabumba, sanfona, triângulo, violão e baixo. Eu falei pra Jorge, o vocalista e líder, – Não diga pra ninguém que eu sou daqui, ainda mais com essa cara, esse chapéu de couro e essa alpercata, estou me sentindo original com muito orgulho e vou passar batido. - e num é que ainda apareceu um cara que me reconheceu? mas foi só um, os outros diziam: “Fizeram boa viagem?”,  ”Que som original o de vocês”, “Vocês ainda vão tocar né?” Essas coisas.

Mas lá pelo meio da apresentação, o povo atento dançando lá embaixo, tava até rolando um sorteio pra quem dançasse melhor o forró, foi quando Jorge, o vocalista, entre uma música e outra começou a falar com um sotaque ainda mais arrastado que o de Firmino, o sanfoneiro, chamando a atenção de todos: -Tem alguém aí que sabe o que é levar uma pêia? levar uma taca? Pois sim, é levar uma surra. – continuou: – Eu vivi por quase dois anos recebendo ameaças diárias de uma cabra que quando tava atacado encostava o dedo na minha cara e dizia: -To doido pra lhe dar uma pêia pra lhe deixar molim seu crentinho sem vergonha.  - eu nunca fiz nada pra aquele sujeito, mas ele me odiava. Um dia ele me parou num beco e disse - Por que você não reage seu crentinho? eu lhe mato qualquer dia desse. - Eu respondi. – Mata nada,  sabe porque? por que eu tenho uma boa notícia pra você, Jesus te ama! tu tá precisando é de Deus visse! você precisa de conversão. 

Só de ouvir esse testemunho foi me dando uma raiva tão danada do tal valentão que eu lembrei do meu tempo de Tiro de Guerra, quando dei um chega pra lá no sargento que quase joguei ele fora do alambrado numa partida de futsal só por que ele era saliente e a galera botando pilha, gritava lá de fora: – Aroxa Rubão!! e ele era saliente mesmo. - então me perguntei: - como poderia alguém fazer o mal pra Jorge? o cara viajou um dia e meio, pra ficar só dois dias em Brasília e dizer que tem um Deus que ama a todos e que Seu amor é maior que o de um homem pro uma mulher e maior que o amor de uma mãe por seu filho, e, um cabra ficou por quase dois anos atormentando esse mesmo Jorge que tá aqui na minha frente? isso é um infeliz, isso da raiva até em Russel Shedd (um cara mais crente que eu). -mas Jorge continuou falando: -Sabe aquele rapaz que por muito tempo me ameaçou uma pêia e por muitas outras me jurou de morte? ele nunca me bateu, mas hoje ta aqui batendo com vontade no zabumba pra glória de Deus. É Branco, o zabumbeiro ao lado de Rubão.

Ôxe!! eu já sou um senhor de idade, não posso ter certos tipos de choque, não!.. Olhei pro zabumbeiro do meu lado, um cabra branco até no nome, baixinho de olhos pintados da cor de burro fugido. Ele olhou pra mim, fez um bico, balançou a cabeça e sorriu. Eu quase morri. O povo que assistia ficou boquiaberto com a história, e eu… Quando terminamos de tocar, eu puxei o baixinho pro canto e perguntei:

- Que história é essa de querer bater em Jorge?

- Bater não, eu queria é matar, eu tinha raiva de crente, ainda mais que nem ele que não retrucava uma provocação e só vivia falando de Deus. Até por que tinha uns crentes xaropes na região que me entregavam quando eu armava uns roubos ou parada de droga e “os homens” baixavam na área. E como ele era o mais crente, sobrava pra ele.

- Sim, mas, e aí?

- E aí que ele me ganhou pelo testemunho visse! Um dia eu não agüentei e perguntei por que ele não me odiava. Eu estava bêbado, disposto a tudo. Ele olhou pra mim, colocou a mão no meu ombro e disse: -É por que Jesus te ama. Você precisa conhecer o Senhor Jesus, e óia! eu não me asusto contigo não, visse! eu já trabalhei em São Paulo por muitos anos com os homens do jogo do bicho, coisa pesada, mas Deus me mudou. - aí eu perguntei: – E como eu faço? – eu tava muito bêbado, e ele disse: – Quando você melhorar, procure a igreja mais próxima de sua casa. – eu esperei foi nada, fui no mesmo dia. Entrei numa igreja, aí um irmão grandão quis me expulsar de tudo que é geito, eu olhei pra ele e disse: Se eu morrer hoje sem conhecer Jesus a culpa é sua, se eu for pro inferno você será culpado pela minha alma, pela minha desgraça, eu quero conhecer Jesus é hoje. Aí ele deixou eu ficar. E foi alí mesmo que me entreguei. Jorge virou meu pai, acima dele, só Deus.

Eu confesso que fiquei meio incrédulo, não com o poder de Deus, mas que estivesse frente à frente com o mesmo rapaz que odiava o pregador. Jorge me disse que não conhece homem tão temente a Deus.

Conversando com Branco, ele me contou que tinha 25 anos, era casado há mais de 10 e tinha duas filhas.

- Êpa!! Como assim? – retruquei.

 - É isso mesmo. eu tinha 15 e minha esposa tinha 12 quando casamos, hoje ela tá com 22 anos, uma benção. Óia! Eu trabalhei firme ate de madrugada de torneiro mecânico pra entregar uns serviços e poder viajar, deixei as contas pagas, dei 50 conto pra minha esposa, botei 50 no bolso e vim.

Se ele veio só pra contar um pouco de sua história e dizer o quanto Deus é bom mesmo que pra uma só pessoa, então valeu, por que eu fui o primeiro.

Ficamos de nos encontrar na segunda-feira, dia que eles iriam arrumar o carro pra voltar. No domingo eu já tinha compromisso e não poderia acompanhá-los, mas não sei por que eles não me ligaram de volta. Hoje é quarta-feira e imagino que já voltaram. Só tive contato com Branco das 18:30h às 22:30h de sábado, mas não sai da minha memória aquele baixinho de cara gorda com chapéu de couro, olhos claros e avermelhados de sono, encostado no balcão da barraquinha me contado um pouco de sua história enquanto comíamos um bolo de milho com refrigerante. E eu ali, ouvindo aquele bombardeio, de olhos arregalados, duvidando da minha fé e com a minha cara de pamonha.

Um xêro pra quem gosta da gente.

Rubão

17
abr

Carta do Som do Céu

   Posted by: Rubao   in Papo aberto

acampamento-mpc.jpgCARTA DO SOM DO CÉU – MANIFESTO DE ARTISTAS CRISTÃOS
 
Introdução
Nós, músicos, artistas e líderes eclesiásticos, cristãos, vindos das variadas regiões brasileiras, estivemos reunidos entre os dias 6 a 12 de abril de 2009, no Acampamento da Mocidade Para Cristo do Brasil, dias de comemoração dos 25 anos do Som do Céu, para discutir dois temas principais: “A música e os músicos na igreja” e “A igreja como promotora de cultura”.

Agradecemos a Deus pelos dias de comunhão fraterna entre nós e pelo privilégio de ouvi-lo entre as vozes pastorais e proféticas que ecoaram em nosso meio. Reconhecemos que a música cristã tem ocupado um espaço significativo em nossos dias, tanto na igreja como na sociedade em geral. No entanto, observamos que nem sempre essa participação tem sido consistente e coerente com a Palavra de Deus – nosso referencial maior – nem rendido glórias ao Senhor da Igreja. Desejamos, portanto, apresentar à Igreja brasileira a “Carta do Som do Céu”, sintetizada em 25 pontos, que resume nossas inquietações e propõe ações práticas à Igreja de Cristo Jesus, nesse princípio de século XXI:

1. O artista cristão deve desenvolver o seu dom criativo e submetê-lo exclusivamente aos valores da Palavra de Deus;

2. Cremos que a arte, na perspectiva da graça comum, é um presente dos céus a toda humanidade e não está restrita aos cristãos;

3. Desejamos que haja coerência entre a vida, o ministério e a profissão do artista cristão, cujo discurso deve estar aliado à sua prática;

4. Esperamos que o artista cristão busque servir a Deus e à sociedade com excelência e integridade, dedicando-se ao desenvolvimento dos talentos e dos dons recebidos do alto;

5. A igreja precisa estar atenta ao artista cristão como parte do rebanho de Deus e dar a ele a atenção devida, despida de preconceitos, e oferecer-lhe pastoreio e discipulado, objetivando a sua formação espiritual e ética;

6. Esperamos que o artista cristão esteja envolvido em uma igreja local, servindo-a e amando-a como Corpo de Cristo. Deve ser rejeitada toda e qualquer tentativa de desenvolvimento de uma fé individualista e distante da comunidade;

7. Reafirmamos que a elaboração de textos e letras deve ter embasamento nos valores da Palavra de Deus;

8. Comprometemo-nos a dedicar atenção e reflexão às canções que são introduzidas no culto de adoração e nas demais atividades da igreja, buscando um repertório equilibrado e consciente e evitando, de todas as formas, que heresias e desvios teológicos adentrem sutilmente em nossas comunidades;

9. As igrejas, as instituições de ensino teológico e os artistas cristãos devem combater o ensinamento equivocado e amplamente difundido de que louvor e adoração restringem-se à musica, ensinando, por demonstração e exemplo, que se trata de um estilo de vida que envolve todas as áreas da nossa existência e que a música, assim como outras formas de arte, é expressão legítima de louvor e adoração;

10. A igreja deve agir como facilitadora na adoração e abrir espaço para que todos expressem seu louvor a Deus;

11. Esperamos que o músico cristão busque e desenvolva a santidade, vivendo uma vida piedosa, tanto no serviço prestado a Deus na igreja, quanto fora dela, em sua atividade profissional;

12. Rejeitamos a dicotomia que faz separação entre o sagrado e o secular e cria espaços estanques na vida do cristão. O Senhor Jesus é soberano e governa todas as instâncias da vida, e, por isso, devemos somente a ele a nossa fidelidade, agradando-o em tudo e rejeitando tão-somente o que ofende a sua glória;

13. A Igreja não se pode esquivar de sua responsabilidade diante da cultura na qual está inserida; deve mentoriar a reflexão e a prática de uma teologia de arte e cultura;

14. Incentivamos as igrejas a abrir suas dependências para a realização de eventos culturais como exposições, mostras, cursos, saraus e outras atividades visando à educação, à divulgação e à aproximação da sociedade;

15. Mesmo entendendo que todo trabalho na igreja é voluntário, podemos honrar com sustento ou remuneração aqueles que se dedicam ao ministério musical, se a comunidade disponibiliza de recursos para tal;

16. Entendemos que nossa arte deve encarnar uma voz profética e manifestar em seu conteúdo os valores do Reino;

17. Recomendamos que as igrejas promovam encontros de reflexão sobre a utilização das artes no Reino de Deus, capacitando os artistas para a realização de seu trabalho;

18. Incentivamos os músicos a expressar em sua arte a beleza de Deus por meio de uma contextualização e diversidade musical;

19. Reconhecemos o caráter essencialmente transformador e questionador da nossa arte e não cremos que ela deva estar a serviço do mercado;

20. Muito embora os artistas cristãos não se devam render aos senhores da mídia, tornando-se reféns desta, podem utilizar de maneira ética os meios de comunicação como canal para a divulgação de sua arte, proclamando, assim, o Reino de Deus;

21. No que se refere ao relacionamento entre os músicos e a liderança eclesiástica, encorajamos o diálogo, o respeito e o reconhecimento mútuo de seus ministérios como algo dado por Deus;

22. Incentivamos que os artistas cristãos busquem perante o Estado e a iniciativa privada recursos para a promoção de sua arte por meio de leis de incentivo à cultura, editais para financiamento de projetos culturais etc.

23. Encorajamos as igrejas a investir na educação e na formação de artistas;

24. Propomos que as igrejas e as instituições de ensino teológico incentivem as diversas manifestações artísticas e não somente a área musical;

25. Compreendemos que o ofício de artista é legítimo como tantos outros, podendo ser exercido pelo artista cristão no mercado de trabalho e devendo ser apoiado e incentivado pelas comunidades cristãs.

São Sebastião das Águas Claras, 9 de abril de 2009.
Assinam:

Debatedores:
Aristeu de Oliveira Pires Junior – Canela (RS)
Carlinhos Veiga – Brasília (DF)
Denise Bahiense – Rio de Janeiro (RJ)
Erlon de Oliveira – Belo Horizonte (MG)
Gladir Cabral – Florianópolis (SC)
João Alexandre Silveira – Campinas (SP)
Jorge Camargo – São Paulo (SP)
Jorge Redher – São Paulo (SP)
Marcos André Fernandes – Garanhuns (PE)
Marlene F. Vasques – Goiânia (GO)
Nelson Marialva Bomilcar – São Paulo (SP)
Paulo César da Silva – São José dos Campos (SP)
Romero Fonseca – Goiânia (GO)
Rubão Rodrigues Lima – Brasília (DF)
Sérgio Pereira – Ribeirão Preto (SP)
Wesley Vasques – Goiânia (GO)

Demais participantes:
Alfredo de Barros Pereira – Brasília (DF)
Andréa Laís Barros Santos – Maceió (AL)
Aracy Clarkson Ferreira – Rio de Janeiro (RJ)
Armando de Oliveira – Salvador (BA)
Bruno Leonardo Alves da Fonsêca – Garanhuns (PE)
Caio César da Silva Pereira – Brasília (DF)
Carolina Gama – Campinas (SP)
Carolina Lage Gualberto – Belo Horizonte (MG)
Cláudia Barbosa de Souza Feitoza – Brasília (DF)
Danielle Martins Lima – (MG)
Davi Julião – São Paulo (SP)
Dora Bahiense – Florianópolis (SC)
Elecy Messias de Oliveira – Goiânia (GO)
Fábio Cândido de Jesus – Anápolis (GO)
Felipe de Freitas Hermsdorff Vellozo – Niterói (RJ)
Francely F. Barbosa – Anápolis (GO)
Glauber Plaça – São Paulo (SP)
Gleice de Oliveira Vicente Cantalice – Maceió (AL)
Guilherme e Alessandra Fontes Vilela Carvalho – Belo Horizonte (MG)
Guilherme Praxedes – Belo Horizonte (MG)
Hadassa de Moraes Alves – Viçosa (MG)
Irineu Santos Junior – Belo Horizonte (MG)
Isabella Sarom Sabino Honorato – Anápolis (GO)
Ismael S. Rattis – Brasília (DF)
João Carlos Pereira Junior – Vitória (ES)
Jocemar “Mazinho” Filho – Recife (PE)
Jônatas de Souza Reis – Belo Horizonte (MG)
Karen Bomilcar – São Paulo (SP)
Leonardo de Azeredo Peclát – Goiânia (GO)
Leonardo Rodrigues Barbosa – Brasília (DF)
Lidiane Dutra da Silva – (MA)
Marcel Martins Serafim – Jacareí (SP)
Marcelo Gualberto da Silva – Belo Horizonte (MG)
Márcia Pacheco Foizer – Brasília (DF)
Marilda Redher – São Paulo (SP)
Marivone Lobo – Ribeirão Preto (SP)
Pedro Barbosa de Souza Feitoza – Brasília (DF)
Rafael Ribeiro Santos – São Paulo (SP)
Renata Telha Ferreira – Rio de Janeiro (RJ)
Roberto Cândido de Barros – Curitiba (PR)
Selma de Oliveira Nogueira – São Paulo (SP)
Silvestre Moysés Loyolla Kuhlmann – São Paulo (SP)
Stênio Március – São Paulo (SP)
Talita Estrela R. Martins – Belo Horizonte (MG)
Vânia Sathler Lage – Belo Horizonte (MG)
Walma Oliveira – Rio de Janeiro (RJ)

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