Já era quase seis horas da tarde de sábado quando meu telefone tocou. Do outro lado da linha, um sotaque pernambucano, carregado que só mula de garimpeiro e florido de brincadeira.
-Ei macho! Tu vem aqui me ver?
-Ôxe! Não deve ser difícil não, Mas eu não to reconhecendo tua voz.
-E apôis! É Firmino, meu irmão. De Caruaru (PE). Sim, e tô bem aqui perto de tua casa, mas é o seguinte, venha e já traga sua viola que nós estamos aqui só lhe esperando. Óia! vamos tocar daqui a pouco visse.
- Ei cara, o trem não é bagunçado não. Mas me dê 5 minutos. – respondi animado.
Essa não é a primeira vez que esses cabras fazem isso. Da outra vez que vieram, veio junto o zabumbeiro Damião, um sujeito de uma história linda, mas a verdade é que os cabras tinham acabado de chegar, eles só viajaram 2.200 Km de Caruaru a Brasília num monza cinza, não sei que ano, sem ar condicionado e com cinco pessoas dentro e ainda na chagada, bateram o carrro por um descuido a 800m de parar, certamente fruto do cansaço. Eles garantem que boa da parte da viagem vieram cantando.
Tem um camarada pernambucano que mora perto de minha casa, e, é mais amigo deles do que eu, por que eles sempre vão direto pra casa dele, o GG. Pelo apelido, só pode ser gente boa. E é mesmo, esse é o apelido do meu pai. GG tava com um compromisso e eu além de entrar pro grupo assim de cara… (cara-de-pau e de nordestino mesmo, ainda mais como o chapéu de couro que ganhei) teria que levá-los ao local, um prazer. E fomos à Festa do Milho na Ceilândia – DF. A galera já estava esperando o grupo e eu infiltrado ali, achando uma maravilha.
Um caminhão cruzado na rua, barracas com tudo que é coisa boa de milho, outros grupos tocando, muito gente e até bêbum, esses nunca faltam em festa de rua. De repente o cara da organização grita: “E agora com vocês o pessoal lá de Caruaru-PE, é forró pé-de-serra do puro, valendo mesmo, vamos recebê-los com uma salva de palmas”. - assim foi. Subimos todos de chapéu de couro com zabumba, sanfona, triângulo, violão e baixo. Eu falei pra Jorge, o vocalista e líder, – Não diga pra ninguém que eu sou daqui, ainda mais com essa cara, esse chapéu de couro e essa alpercata, estou me sentindo original com muito orgulho e vou passar batido. - e num é que ainda apareceu um cara que me reconheceu? mas foi só um, os outros diziam: “Fizeram boa viagem?”, ”Que som original o de vocês”, “Vocês ainda vão tocar né?” Essas coisas.
Mas lá pelo meio da apresentação, o povo atento dançando lá embaixo, tava até rolando um sorteio pra quem dançasse melhor o forró, foi quando Jorge, o vocalista, entre uma música e outra começou a falar com um sotaque ainda mais arrastado que o de Firmino, o sanfoneiro, chamando a atenção de todos: -Tem alguém aí que sabe o que é levar uma pêia? levar uma taca? Pois sim, é levar uma surra. – continuou: – Eu vivi por quase dois anos recebendo ameaças diárias de uma cabra que quando tava atacado encostava o dedo na minha cara e dizia: -To doido pra lhe dar uma pêia pra lhe deixar molim seu crentinho sem vergonha. - eu nunca fiz nada pra aquele sujeito, mas ele me odiava. Um dia ele me parou num beco e disse - Por que você não reage seu crentinho? eu lhe mato qualquer dia desse. - Eu respondi. – Mata nada, sabe porque? por que eu tenho uma boa notícia pra você, Jesus te ama! tu tá precisando é de Deus visse! você precisa de conversão.
Só de ouvir esse testemunho foi me dando uma raiva tão danada do tal valentão que eu lembrei do meu tempo de Tiro de Guerra, quando dei um chega pra lá no sargento que quase joguei ele fora do alambrado numa partida de futsal só por que ele era saliente e a galera botando pilha, gritava lá de fora: – Aroxa Rubão!! e ele era saliente mesmo. - então me perguntei: - como poderia alguém fazer o mal pra Jorge? o cara viajou um dia e meio, pra ficar só dois dias em Brasília e dizer que tem um Deus que ama a todos e que Seu amor é maior que o de um homem pro uma mulher e maior que o amor de uma mãe por seu filho, e, um cabra ficou por quase dois anos atormentando esse mesmo Jorge que tá aqui na minha frente? isso é um infeliz, isso da raiva até em Russel Shedd (um cara mais crente que eu). -mas Jorge continuou falando: -Sabe aquele rapaz que por muito tempo me ameaçou uma pêia e por muitas outras me jurou de morte? ele nunca me bateu, mas hoje ta aqui batendo com vontade no zabumba pra glória de Deus. É Branco, o zabumbeiro ao lado de Rubão.
Ôxe!! eu já sou um senhor de idade, não posso ter certos tipos de choque, não!.. Olhei pro zabumbeiro do meu lado, um cabra branco até no nome, baixinho de olhos pintados da cor de burro fugido. Ele olhou pra mim, fez um bico, balançou a cabeça e sorriu. Eu quase morri. O povo que assistia ficou boquiaberto com a história, e eu… Quando terminamos de tocar, eu puxei o baixinho pro canto e perguntei:
- Que história é essa de querer bater em Jorge?
- Bater não, eu queria é matar, eu tinha raiva de crente, ainda mais que nem ele que não retrucava uma provocação e só vivia falando de Deus. Até por que tinha uns crentes xaropes na região que me entregavam quando eu armava uns roubos ou parada de droga e “os homens” baixavam na área. E como ele era o mais crente, sobrava pra ele.
- Sim, mas, e aí?
- E aí que ele me ganhou pelo testemunho visse! Um dia eu não agüentei e perguntei por que ele não me odiava. Eu estava bêbado, disposto a tudo. Ele olhou pra mim, colocou a mão no meu ombro e disse: -É por que Jesus te ama. Você precisa conhecer o Senhor Jesus, e óia! eu não me asusto contigo não, visse! eu já trabalhei em São Paulo por muitos anos com os homens do jogo do bicho, coisa pesada, mas Deus me mudou. - aí eu perguntei: – E como eu faço? – eu tava muito bêbado, e ele disse: – Quando você melhorar, procure a igreja mais próxima de sua casa. – eu esperei foi nada, fui no mesmo dia. Entrei numa igreja, aí um irmão grandão quis me expulsar de tudo que é geito, eu olhei pra ele e disse: Se eu morrer hoje sem conhecer Jesus a culpa é sua, se eu for pro inferno você será culpado pela minha alma, pela minha desgraça, eu quero conhecer Jesus é hoje. Aí ele deixou eu ficar. E foi alí mesmo que me entreguei. Jorge virou meu pai, acima dele, só Deus.
Eu confesso que fiquei meio incrédulo, não com o poder de Deus, mas que estivesse frente à frente com o mesmo rapaz que odiava o pregador. Jorge me disse que não conhece homem tão temente a Deus.
Conversando com Branco, ele me contou que tinha 25 anos, era casado há mais de 10 e tinha duas filhas.
- Êpa!! Como assim? – retruquei.
- É isso mesmo. eu tinha 15 e minha esposa tinha 12 quando casamos, hoje ela tá com 22 anos, uma benção. Óia! Eu trabalhei firme ate de madrugada de torneiro mecânico pra entregar uns serviços e poder viajar, deixei as contas pagas, dei 50 conto pra minha esposa, botei 50 no bolso e vim.
Se ele veio só pra contar um pouco de sua história e dizer o quanto Deus é bom mesmo que pra uma só pessoa, então valeu, por que eu fui o primeiro.
Ficamos de nos encontrar na segunda-feira, dia que eles iriam arrumar o carro pra voltar. No domingo eu já tinha compromisso e não poderia acompanhá-los, mas não sei por que eles não me ligaram de volta. Hoje é quarta-feira e imagino que já voltaram. Só tive contato com Branco das 18:30h às 22:30h de sábado, mas não sai da minha memória aquele baixinho de cara gorda com chapéu de couro, olhos claros e avermelhados de sono, encostado no balcão da barraquinha me contado um pouco de sua história enquanto comíamos um bolo de milho com refrigerante. E eu ali, ouvindo aquele bombardeio, de olhos arregalados, duvidando da minha fé e com a minha cara de pamonha.
Um xêro pra quem gosta da gente.
Rubão



