Archive for dezembro, 2008

23
dez

Vai entender…

   Posted by: Rubao   in Papo aberto

casa-simples-2.jpgNossa Comunidade decidiu fazer uma cantata de Natal. Fazer mesmo, dos pés à cabeça. Das músicas aos textos e cenário, sem falar de um maluco que se empolgou e queria colocar som e iluminação “De cinema” e colocou. Uma cantata com banda ao vivo e músicos e som profissionais, e , como é a nossa cara, tudo à base de ritmos brasileiros com triângulo, pandeiros, zabumba, viola, etc. Com músicas minhas, da Janice, do Carlinhos Veiga e do Zazo (Banda Céu na Boca), do samba ao xote, fizemos nossa Cantata contextualizada.

O povo pirou o cabeção quando chegou à igreja e viu tanto canhão de luz e coluna de som além da peça que foi show. O “trem” ficou tão bem produzido que no sábado mesmo resolvemos que faríamos uma reapresentação na segunda, se todos pudessem claro. Todos confirmaram, menos um. O Maurício, o cara tinha uma reunião da empresa em Floripa na segunda. Ele não faz um solo, mas sua participação no contexto era tão importante quando qualquer outro, além do que foram muitos ensaios e tal, mas… Ele com uma cara de “Deus me livre” aceitou seu sofrido destino de desfalcar o elenco, beijou a mulher e os meninos e entrou naquele “pássaro grande”. Acredite se quiser, acontece um problema no Aeroporto de São Paulo e três pessoas foram gentilmente convidadas a desafivelarem seus cintos, pegarem seus objetos pessoais e se retirarem da aeronave. Hehe! Quem era um deles? O Maurício.

Ficamos sabendo do caso no domingo, antes da apresentação quando juntamos a turma nos batstidores pra fazermos  aquela oração de entrega e clemência e o líder falou: – “Galera, tenho uma benção pra contar. O Maurício acaba de ligar, ele estava dentro do avião pronto pra voar quando o Comandante avisou … (Contou a ladainha toda) E Maurício ligou do Aeroporto pedindo pra guardá-lo por que ele já ta vindo pra cá” . O negócio foi tão invocado que nem precisamos atrasar, na hora de começar a apresentação lá estava o Maurício com aqueles olhos vermelhos. Foi em cima. Puff! Vai entender… Tem uma hora (cena) em que ele entra e da um grito… Mas pense num grito alto! Rsrsrs.

Quinta-feira pela manhã, eu e meu amigo Carlinhos fomos à Administração Regional do Lago Norte levar mais um furgão cheio de doações pra Santa Catarina. Voltando ele conversou:

- Cara, to com uma votade de ir lá no Varjão (Varjão é um assentamento próximo ao Lago Norte onde mora uma irmã muito querida, a Arlete. Ela esta construindo sua casinha).

- Uái! (goianamente falando) Se você quiser, podemos ir, agora.

- Não vai te atrapalhar não? Beleza!

Numa rara localização de revelo acidentado em Brasília, de dentro do carro mesmo, tínhamos uma panorâmica do Varjão. Engatamos a primeira e seguimos. A nossa amiga esta construindo ali, finalmente, sua tão sonhada casinha. Ela como todos os moradores daquele setor, ganhou um lote, mas o dela tinha um terreno tão íngreme que o telhado do seu barraco ficava abaixo do nível da rua. Você consegue imaginar o que é isso? O que é em dia de chuva, ter que subir nas camas pra água correr por baixo sem que se trate de enchente? Isso no DF. Pois bem, essa era a realidade dela. Mas a Arlete conseguiu ganhar da Administração um aterramento de 50 caminhões de terra nivelando seu lote. Uau!

Ela com seu digno trabalho de diarista, juntou uma grana e mandou levantar as paredes de sua nova casa, na realidade, parte dela. São dois cômodos que segundo ela seriam suficientes pra que ela saísse do aluguel provisório ( barraco próximo ao seu lote onde mora desde que começaram a aterrar) e voltasse pro lote, agora aterrado e com uma casa nova.

Eu e meu amigo saímos com destino ao Varjão pra vermos a “benção” da nossa amiga, a gente sabia que toda quinta-feira ela trabalha fora e não estaria em casa, mas fomos assim mesmo. Fique atento!

Assim que entramos no Varjão, em meio ao movimento da cidade agitada eu vi a Arlete passando com dois dos seus seis filhos ( Mulher de 35 anos, jovem, avó e guerreira que a três anos se diz filha de Deus e que não se cansa de falar do Seu amor e o que Deus fez e faz na vida dela) Ela nos disse que a casa que limparia na quinta, a patroa pediu que ela limpasse na quarta, por isso a “sorte” de a encontramos. Tudo bem, assim poderíamos ir juntos, e fomos.

Dois choques eu tive: Primeiro, a casa que ela tão orgulhosa falava e tanto desejava nos mostrar e entrar feliz com seus filhos era menor que minha garagem. Nossa! Que realidade impactante! Segundo: Andando pela construção, meu amigo percebeu algo estranho. Pra segurar o aterro foi construído um muro bem reforçado, um tipo de barreira, sei la, mas por alguma razão, com as chuvas a terra havia pressionado a parede do aterro que cedeu fazendo uma curva ou barriga. Caramba! Que risco de tragédia. Foi providência de Deus nos levar ali. Ela ficou desesperada, até por que queria entrar até o final de semana, mas agora nem pensar. Então decidimos ir juntos à Administração que tem como procedimento normal o sistema de agendamento e posterior reunião com a administradora, uma coisa totalmente morosa. Entramos no carro e algumas quadras a baixo, a Arlete gritou, -“Olha ela ali, aquela é a administradora” .Paramos o carro. E por graça de Deus, a administradora que não atende ninguém assim, nos atendeu na rua mesmo, e mais, alterou sua agenda, chamou o engenheiro, e juntamente com sua equipe nos seguiu até ao lote pra olhar a situação. Todos ficaram preocupados, a coisa era séria mesmo. Ela nos agradeceu e prometeu usar do que fosse preciso pra fazer o reparo urgente e ainda, caso houvesse prejuízo à construção, faria uma reposição total. Tudo assim na bucha!

Agora veja, a gente não tinha programado ir ali, a Arlete deveria estar trabalhando na quinta-feira, a administradora só atendo com agendamento, não havia engenheiro à disposição (O cara é novo contratado) e mais, a Arlete me disse que um filho de Deus foi lá no mesmo dia e pagou 2 meses atrasados de aluguel do barraco, Até Janeiro ta tudo pago. Vai entender…

Um Pai resolveu entregar seu unico filho que nasceu no dia dia de Natal, pra morreu pelo Maurício, por mim, pelo Carlinhos, pela Arlete e por você, pra que houvesse Esperança, pra que o Natal tivese sentido. Nasceu o Salvador. Vai entender… tanto Amor.

Um xêro pra quem gosta da gente.

Rubão

5
dez

E a água veio e levou

   Posted by: Rubao   in Papo aberto

blumenau-sc-octuberfest-183800.jpgNão da pra não se sensibilizar com a tragédia ocorrida em Santa Catarina, aliás, esse será o motivo de muita roda de conversa. Umas em volta de seus sofás confortáveis, outras em pé lembrando dos sofás que a água levou. 

Estive cantando em Blumenau por duas vezes, e conheci uma linda e hospitaleira cidade colonizada por alemães (polacos), com uma arquitetura de riqueza e beleza e inestimáveis. Uma terra de povo bonito e trabalhador, da Oktoberfest (conheci na igreja uma moça que era ex-campeã da famosa competição de beber o chopp mais rápido), de um rio onde se via capivaras às suas margens pegando um sol. 

Em Blumenau é cultura, todo mundo trabalha muito e fala pelo menos dois idiomas. Ali fiz boas amizades, entre outros conheci o Alex um cara gordinho, na faixa dos 150 kg ou mais, que na beira da piscina (a parte sofrida das viagens) matava a galera de rir dançando a “Dança dos cisnes” e depois pulando na piscina, obviamente molhando todos e tudo em volta. A gente brincava dizendo que a cada mergulho a piscina baixava meio metro. Hehe! Me deparei também com uma juventude muito alegre, fazedora e contadora de piada. Fiquei assustado (bom susto) porque sempre as pessoas diziam que a galera do Sul era muito fechada e não foi isso que conheci. Com as devidas proporções parecia o Nordeste.

Outra coisa interessante que lembrou minha querida São Luis, é que lá, eles colocavam na mesa e faziam questão de nos servir com orgulho, um refrigerante local, que não lembro o nome agora, mas era gostoso. Eles não fazem pose com a Coca-cola como nós aqui em Brasília e talvez aí. Muitas vezes até por achar que nossos visitantes vão nos chamar de murrinhas se só tiver Guaraná ou outro. Eu gosto da Coca, mas detesto a pressão. Em São Luis, nos orgulhamos de beber e servir o Guaraná Jesus, refrigerante local, que tem o mesmo preço da Coca-cola, não faz comercial e vende mais que ela. Gosto é gosto. E só pra informar, por uma questão de honra a Coca-cola comprou o Guaraná Jesus por uma quantia não revelada (certamente altíssima) só pra ter a honra de dizer que se ela perde pra outro refrigerante em algum lugar do mundo (Maranhão) ela perde pra ela mesma. Tá tudo em casa.

“E a água veio e levou o Zé” Fiz essa frase, parte da música Zé, 1900 (e alguma coisa) me referindo ao dilúvio que por causa do pecado do homem, Deus permitiu que a água caísse e arrastasse tudo e todos menos Noé e os animais na arca.

O que aconteceu em Santa Catarina, me lembrou muito a história do dilúvio, então a pergunta é: Quem pecou, os catarinenses? Alguém pecou pra que esse “dilúvio” viesse sobre aquelas terras? “Arrastando árvores, pensamentos, seguindo a linha do que foi escrito pelo mesmo lábio tão furioso…” (Zé Ramalho).

O homem perdeu a noção de preservação da natureza. Não há ecossistema, nem sistema e nem diadema que resista a tanta poluição. Não sabemos onde jogar nosso lixo, todo mundo sabe que saco plástico leva 100 anos pra se decompor, mas qual de nossas casas não tem um tanto deles, qual supermercado não nos dá de graça uma sacolinha? Procure uma estrela no céu de São Paulo, se achar “bata um retrato” isso é relíquia. Se pudéssemos estar hoje na linha (limite) da Floresta Amazônica, teríamos que andar ou correr “estádios” (Nem sei por que eles usam essa medida, mas é bom pensar no maior que puder) pra acompanhá-la até o final do mês. Chamam isso de 10matamento. As geleiras estão derretendo, o mar esta mais quente e subindo. Cidades vão sumir em 50 anos, isso é fato. Esse é o nosso pecado.

Nós temos culpa nesse desastre e nada nos garante que o próximo não passe “Se arrastando feito cobra pelo chão” (Gilberto Gil) levando nossa rua. Eu conheci bem Blumenau, dormi em uma casa de madeira, muito confortável por sinal, mas que ficava num morro e que não devem estar no mesmo lugar agora. Nem a casa, nem o morro. Conversei essa semana com um amigo e ele me disse que a casa dele não foi afetada, mas tudo em volta foi. Como refazer a casa numa rua que não existe mais? E a história? E os valores? Como esquecer os parentes e amigos que a água levou?

Criamos em nossa Comunidade (igreja) um Ponto de Coleta e juntamos aproximadamente uma tonelada de mantimentos e roupas. Mandamos hoje. Mandamos também dinheiro por fonte segura. O Brasil está comovido e não é pra menos. Nós somos os culpados.

Devemos chorar a dor de nossos irmãos, colaborar com o que estiver ao nosso alcance, ensinar nossos filhos sobre preservação e pedir a Deus que tenha misericórdia deles pela tragédia e de nós por nossos pecados. Pra que um dia não venhamos também a dizer: ”A minha casa era ali, e a água veio e levou”.

Um xêro pra quem gosta da gente.

Rubão