Archive for novembro, 2008

23
nov

Um caminhão carregado de madeira

   Posted by: Rubao   in Papo aberto

caminhao-2.jpg A banda já estava a uma semana rodando por esse mundão de meu Deus, A gente levava uma tralheira e não esquecíamos jamais as caixas de CDs, camisetas, boinas, adesivos, pulseiras,… Andávamos preparados pra sobreviver na selva, mesmo que ele fosse de pedra.

Na estrada tudo ficava perto quando estávamos em nossa Kombi 1996 semi-nova, cor branco-gelo, com um baita adesivão de cada lado e cinco marmanjos aventureiros dentro. Lembrei até daquela “piada pronta”:

- Como é que se faz pro botar cinco elefantes dentro de um Fusca?

- É simples. Dois na frente e três atrás.

Era assim que a gente se arrumava naquela Kombi cheia de coisas e instrumentos. Lógico.

Final de semana e lá estávamos nós chegando a Sampa, pra ser mais exato na Vila Madalena. Mandamos um som no sábado, evento esse que não me lembro de nada e no domingo pela manhã também tocamos, e esse eu me lembro bem. Era um dia, pra variar frio e cinzento, coisa rara em São Paulo. Rsrs. A minha alergia estava à flor da pele. A galera lá, já me conhecia e providenciava sempre um brother de lá que é médico, Dr. Josué (Josuca pros íntimos) pra me entupir de remédio. Era como eu agüentava abraçar o povo com aqueles blusões cheirando a mofo com perfume, uma tortura pra qualquer alérgico na face da terra. Mas pra cada abraço que eu recebia, eu esquecia 15 espirros e como todo mundo dava um bom abraço, no final eu sempre sobrevivia. Hehe!!

Meio dia, a galera programou um almoço comunitário, um ambiente muito descontraído. Sentei numa mesa e na minha frente sentaram dois camaradas, um mais falador e outro branquinho fazendo o tipo meio tímido. O papo foi rolando sobre vários assuntos até que o cara conversador disse:

- Esse aqui (tocando no branquinho ao seu lado)  gosta muito da música de vocês e coincidiu dele vir aqui pela primeira vez e encontrar já vocês.

- Opa. Maravilha por isso!

- Mas o interessante mesmo foi a maneira como nos conhecemos.

- Ham!

- Cara, eu tinha uma empresa aqui na área de móveis e estava muito bem, ganhei muito dinheiro, mas comecei a dar umas cabeçadas e as coisas desandaram, também levei uns calotes grandes e quebrei legal, tanto que não conseguia crédito nem pra comprar matéria prima. Sai um dia desesperado e fui até o Paraná na esperança de arrumar alguém que me vendesse madeira fiado, pra que eu recomeçasse, mas sem crédito, ninguém abria as portas.

- Caramba! Você já tinha rodado o Estado de São Paulo todo e agora estava no Paraná e nada?

-Exatamente. Entrei Paraná adentro pedindo que Deus me abrisse uma porta. Eu já tinha ido até à fronteira visitando madeireiras e nada. O desespero e a descrença já tinham tomado conta de mim.

- Que Barra heim! Mas e aí.

- Já voltando, parei na última madeireira da estrada, fiz uma oração, criei coragem e entrei. O pessoal me recebeu bem, mas eles não estavam vendendo madeira, eles queriam mudar de ramo e pensavam em vender a madeireira com tudo. Eles estavam desiludidos  eu mais ainda por que nem uma tábua de madeira eu tinha pra vender e vi ali minha última esperança morrendo, bateu um desespero, mas… Agradeci a atenção, o pessoal me acompanhou até a saída, e foi aí que aconteceu uma coisa muito louca. Um dos sócios da madeireira, filho do velho dono, olhou pro meu carro (vidro) e falou: “- Você os conhece?” Eu falei, “- Quem? Ah, claro, estive recentemente com eles em São Paulo. Por que você pergunta?” “- Rapaz, eu sou fã desses caras a anos, mas tudo que tenho aqui é uma fitinha K7 de capa vermelha, por aqui não se encontra nada deles.”

- Foi mesmo cara?

- Escuta só. O cara era irmãozinho e fã de vocês, nos identificamos a partir do adesivo da banda Cia. de Jesus que comprei quando vocês estiveram aqui a uns anos atrás. E sabe o que aconteceu? Entramos novamente na loja, batemos um bom papo, abri meu coração pra ele e acredite, ele me vendeu fiado um caminhão de madeira, coisa de primeira. E mais, ficamos amigos, sócios e ele esta aqui em São Paulo pra acertarmos os detalhes finais de nossa segunda loja e o cara da fitinha K7, da madeireira, é esse aqui do meu lado (o branquinho).

“O que é loucura pros homens, é sabedoria pra quem conhece a Deus. I Cor.1:18”. Nunca mais reencontrei esses manos. Mas eu sempre me desmancho quando me lembro daquela típica e atípica manhã fria de domingo Paulistano. E tinha mais gente na mesa comigo. A rapaziada da banda pode confirmar a veracidade dessa “loucura” santa.

Você venderia um caminhão de madeira fiado pra um cara que você nunca viu mais gordo e nem mais magro, quebrado, só por causa de um adesivo?

Um xêro pra quem gosta da gente.

Rubão

5
nov

Faroeste no Pit Dog

   Posted by: Rubao   in Papo aberto

faroeste.jpgEu tenho um amigo chamado Lobato, o cara é aquele tipo “bem diferente”, filho da região amazônica ele trás no corpo as marcas indígenas: Pele morena, pouca fala, traços fortes e cabelos pretos e lisos. Um cara sistemático, mas muito inteligente, o tipo de cara que sabe realmente fazer um pouco de tudo, de tocar violão clássico a abrir um cadeado com um grampo (berilo, pros pernambucanos), um cara que saiu cedo de casa e botou o pé na estrada. Participou de Equipe de VPC, estudou no Palavra da Vida- SP, manda bem um inglês, estudou Letras, é muito sincero (só ri quando realmente acha graça da piada), casou com uma menina muito bacana e de uma paciência de Jó (ela merece o troféu Joinha). Hoje eles moram nos EUA, e Lobato trabalha como gerente de um Dunkin’Donuts.

Conheci Lobato nas Antas, ou Anápolis ainda no século passado. Vi ali um sujeito idealista, um cara de idéias boas e outras corajosas, por exemplo: Quando a Presbiteriana do Setor Sul decidiu construir seu templo e os arquitetos e engenheiros começaram a rabiscar o projeto do prédio ele chegou com uma proposta pronta de que se fizesse não um templo, mas uma arena tipo Teatro aberto, um troço muito doido e até interessante, mas não pra uma igreja Presbiteriana do Brasil e nem de outro lugar do mundo. He!! Ele estava também, junto com Betão no começo da “minha” banda, e, diga-se de passagem, o nome da banda foi sugerido por ele.

Entre muitos fatos inusitados que pude acompanhar desse “figura”, um deles se deu num Pit Dog e pra quem não é da área, trata-se de um point de lanche que serve sanduíches feitos na chapa, com bacon, ervilhas , batata palhas, ovos, etc. Deu até saudade agora, o trem cheira a três quarteirões e toda boa praça goiana que se presa tem um.

Já era fim de tarde, começo de noite de sábado quando meu amigo resolveu pegar sua moto (que futuramente seria minha) DT 180, ano 84, original, preta, seu capacete preto e como ele estava de calca preta, colocou um blusão preto, ou seja: O homem de preto. O Pit Dog que ainda esta lá, fica em uma esquina da Praça da Prefeitura tendo de um lado um bom estacionamento e do outro uma escadaria tipo arquibancada que desce pra um bem arborizado jardim, ali também ocorre uma feirinha aos finais de semana. Um ambiente maneiro pra se fazer um lanche e bater papo, mas Lobato só queria fazer o pedido e levar pra casa, pra comer com a digníssima.

Aqui começa o “Ringo não perdoa”, “Só um viverá”, “Procura-se vivo ou morto”, o faroeste caboblo… Ele estava com um panfleto de propaganda de algo tipo programação de eventos do aniversário da cidade. Enquanto o rapaz da chapa terminava de preparar o lanche, o dono do recinto pegou o panfleto e começou a ler. Tudo bem, nada demais. Meu jovem amigo de preto paga, agradece e pede com gentileza o seu panfleto. Há!! O cara cisma de dizer que não vai dar porque achou encima do balcão. Lobato sistemático como era não iria deixar jamais de lutar pelo que era seu, mesmo que fosse um panfletinho amassado, afinal era seu. E foi nessa linha de argumentos seguidos de alterações de ambos os lados, que a coisa beirou agressão, parando com a interferência de populares e funionários. A Cena: O dono, grande e forte, sendo seguro por funcionários e clientes, xingando-o de tudo que é nome, só não o chamou de gente. Lobato com sua testa enrugada dizia: “Você é um cara mentiroso e moleque, você sabe que esse panfleto é meu”. E ele sabia mesmo, mas era um cara ignorante.

Depois do “deixa-disso” Lobato, franzino, mas muito revoltado vira as costas, pula em sua moto preta e sai em alta velocidade. Pronto, já podiam soltar o gigante nervoso, o rapaz fracote, caladão (velho cliente) que se importava com um simples papel já fora embora. O clima de ridículo ficou pairando no ar. 20min depois, o ronco da DT 180, preta, envenenada ecoana esquina. É o rapaz de preto, ele estaciona a moto um pouco distante, tira o capacete, arruma a liga que segura seus cabelos lisos e compridos, vira de frente com sua mesma testa enrugado e um bigodinho de mexicano, e, segurando o blusão caminha rumo ao balcão. Cena típica de faroeste. Todo mundo imaginou a desgraça, o dono que estava pelo lado de dentro do balcão literalmente ficou verde, um tipo; “Incrível Hulk depois da gripe” Foi tudo muito rápido, não deu tempo nem de correr. Ninguém se arriscava a impedi-lo de se aproximar. O pequeno e fracote, agora, suposto “homem do Dolar Furado” (armado?), se tornara temido, todo mundo esperava o pior, esperava que ele sacasse uma arma e fisesse uma tragédia inconsequente, até por que ele saiu transtornado e resolver no braço não seria a melhor escolha.

Lobato olha nos olhos do grandalhão, agora, já nem tão valente e diz bem alto: “Você esta errado, o panfleto é meu, você sabe disso e eu não concordo com sua atitude ridícula, mas eu voltei aqui pra dizer que você pode ficar com ele, estou te dando e quero também te pedir perdão por que eu sou cristão e como cristão não deveria ter chegado a esse ponto. Eu quero que você me perdoe!”. E estendeu a mão pro cara. Você entende o que é “Sorriso amarelo”? O cara depois do susto, suando frio, reconhece sua bobeira e confessa: “Eu é que estou errado você tem razão, eu estou com problemas e estourei à toa, eu é que peço desculpas”. E estendeu a mão. Lobato aperta a mão dele, balança a cabeça e sai. A galera pasma, vê aquele rapaz franzino, de preto dos pés à cabeça virar as costas, ligar sua moto fumacenta, acelerar e sumir na curva da rua deixando na praça uma atitude de braveza jamais vista.

Eu me emociono toda vez que relembro essa história principalmente por duas razões:

UMA – Eu não brigaria por causa de um panfleto que um doido insiste em dizer que é dele. Ainda mais grandalhão.

OUTRA – Eu duvido que eu voltaria pra pedir desculpas. Mas ele fez o certo.

Um xêro pra quem gosta da gente.

Rubão