A banda já estava a uma semana rodando por esse mundão de meu Deus, A gente levava uma tralheira e não esquecíamos jamais as caixas de CDs, camisetas, boinas, adesivos, pulseiras,… Andávamos preparados pra sobreviver na selva, mesmo que ele fosse de pedra.
Na estrada tudo ficava perto quando estávamos em nossa Kombi 1996 semi-nova, cor branco-gelo, com um baita adesivão de cada lado e cinco marmanjos aventureiros dentro. Lembrei até daquela “piada pronta”:
- Como é que se faz pro botar cinco elefantes dentro de um Fusca?
- É simples. Dois na frente e três atrás.
Era assim que a gente se arrumava naquela Kombi cheia de coisas e instrumentos. Lógico.
Final de semana e lá estávamos nós chegando a Sampa, pra ser mais exato na Vila Madalena. Mandamos um som no sábado, evento esse que não me lembro de nada e no domingo pela manhã também tocamos, e esse eu me lembro bem. Era um dia, pra variar frio e cinzento, coisa rara em São Paulo. Rsrs. A minha alergia estava à flor da pele. A galera lá, já me conhecia e providenciava sempre um brother de lá que é médico, Dr. Josué (Josuca pros íntimos) pra me entupir de remédio. Era como eu agüentava abraçar o povo com aqueles blusões cheirando a mofo com perfume, uma tortura pra qualquer alérgico na face da terra. Mas pra cada abraço que eu recebia, eu esquecia 15 espirros e como todo mundo dava um bom abraço, no final eu sempre sobrevivia. Hehe!!
Meio dia, a galera programou um almoço comunitário, um ambiente muito descontraído. Sentei numa mesa e na minha frente sentaram dois camaradas, um mais falador e outro branquinho fazendo o tipo meio tímido. O papo foi rolando sobre vários assuntos até que o cara conversador disse:
- Esse aqui (tocando no branquinho ao seu lado) gosta muito da música de vocês e coincidiu dele vir aqui pela primeira vez e encontrar já vocês.
- Opa. Maravilha por isso!
- Mas o interessante mesmo foi a maneira como nos conhecemos.
- Ham!
- Cara, eu tinha uma empresa aqui na área de móveis e estava muito bem, ganhei muito dinheiro, mas comecei a dar umas cabeçadas e as coisas desandaram, também levei uns calotes grandes e quebrei legal, tanto que não conseguia crédito nem pra comprar matéria prima. Sai um dia desesperado e fui até o Paraná na esperança de arrumar alguém que me vendesse madeira fiado, pra que eu recomeçasse, mas sem crédito, ninguém abria as portas.
- Caramba! Você já tinha rodado o Estado de São Paulo todo e agora estava no Paraná e nada?
-Exatamente. Entrei Paraná adentro pedindo que Deus me abrisse uma porta. Eu já tinha ido até à fronteira visitando madeireiras e nada. O desespero e a descrença já tinham tomado conta de mim.
- Que Barra heim! Mas e aí.
- Já voltando, parei na última madeireira da estrada, fiz uma oração, criei coragem e entrei. O pessoal me recebeu bem, mas eles não estavam vendendo madeira, eles queriam mudar de ramo e pensavam em vender a madeireira com tudo. Eles estavam desiludidos eu mais ainda por que nem uma tábua de madeira eu tinha pra vender e vi ali minha última esperança morrendo, bateu um desespero, mas… Agradeci a atenção, o pessoal me acompanhou até a saída, e foi aí que aconteceu uma coisa muito louca. Um dos sócios da madeireira, filho do velho dono, olhou pro meu carro (vidro) e falou: “- Você os conhece?” Eu falei, “- Quem? Ah, claro, estive recentemente com eles em São Paulo. Por que você pergunta?” “- Rapaz, eu sou fã desses caras a anos, mas tudo que tenho aqui é uma fitinha K7 de capa vermelha, por aqui não se encontra nada deles.”
- Foi mesmo cara?
- Escuta só. O cara era irmãozinho e fã de vocês, nos identificamos a partir do adesivo da banda Cia. de Jesus que comprei quando vocês estiveram aqui a uns anos atrás. E sabe o que aconteceu? Entramos novamente na loja, batemos um bom papo, abri meu coração pra ele e acredite, ele me vendeu fiado um caminhão de madeira, coisa de primeira. E mais, ficamos amigos, sócios e ele esta aqui em São Paulo pra acertarmos os detalhes finais de nossa segunda loja e o cara da fitinha K7, da madeireira, é esse aqui do meu lado (o branquinho).
“O que é loucura pros homens, é sabedoria pra quem conhece a Deus. I Cor.1:18”. Nunca mais reencontrei esses manos. Mas eu sempre me desmancho quando me lembro daquela típica e atípica manhã fria de domingo Paulistano. E tinha mais gente na mesa comigo. A rapaziada da banda pode confirmar a veracidade dessa “loucura” santa.
Você venderia um caminhão de madeira fiado pra um cara que você nunca viu mais gordo e nem mais magro, quebrado, só por causa de um adesivo?
Um xêro pra quem gosta da gente.
Rubão


