Archive for outubro, 2008

23
out

Boa medida, recalcada, sacudida e transbordando

   Posted by: Rubao   in Papo aberto

monte.jpg ”Boa medida, recalcada, sacudida e transbordando“. Quando li essa frase, já imaginei a melodia com aquele pancadão forte, os gingles de teclados comandados pelos DJs, a dupla com seu visual característico não esquecendo jamais, o boné novo virado pra um lado, aquele bermudão enorme lá embaixo, um camisão de time de futebol americano geralmente com um blusão de capuz por cima e um tênis branco com meias canos baixos, é impossível que um cara em sã consciência use meias até a canela. Isso administrado com muita energia no palco, contagiando a galera eufórica que grita e canta junto com eles o refrão: “Boa medida, recalcada, sacudida e transbordando”

Queridos, interpretação de texto é tudo. Eu deduzi: Com certeza esse é o novo funk da parada, aliás, nem poderia ser diferente, a linguagem é essa mesma.

Boa medida” deve ta falando da Juliana Paes, quem ainda não ouviu falar do “Bar da Boa” da cerveja Antarctica? “Recalcada, sacudida e transbordando” Eu nem vou comentar até porque a coreografia não vai deixar por menos, ao som de “Tum ti tum… tum tumtum Boa medida! Tum ti tum… tum tumtum a Recalcada!…” Já imaginei tudo.

Fiquei com essa frase e a batida na cabeça. Curioso que só macaco de zoológico, fui procurar melhor sobre essa letra.

Um cara gordinho, figuraça, amigo meu chamado Zé Carlos, inventou de ler um livro inteiro esse ano. Só que o cara é xarope, ele em vez de ler sozinho quer que a gente (os amigos) leia com ele. Então ele teve uma idéia: Plin! “Todo dia vou mandar três capítulos por e-mail pra galera”. E não é que o negócio deu certo? Tem “mó” galera acompanhando a leitura. Quero ver ele inventar um negócio pra ganhar dinheiro nessa crise. Mas foi no e-mail de terça-feira que li essa frase, e olhando com calma, veja o que diz o contexto:

É bom lembrar que esse é um livro de História, e nesse bloco de três capítulos o primeiro fala de um rapaz que estava sozinho no alto de um monte, tipo, Morro dos Pirineus – GO. Uma vista linda. Lá estava o rapaz acampado já a vários dias, meditando sobre a vida. De vez enquando isso é bom. Aí de repende pra desconcentrá-lo, surge a voz do mal  que chega pra Ele e diz: 

- Eu sei que você esta com fome. Estou te observando a dias. Então, porque você não come essa pedra? Você pode transformá-la em pão, veja como tem pedras bonitas, cristais, energia positiva (um troço meio esotérico, muito comum no Centro-Oeste).

Mas o rapaz faminto respira fundo e diz:

- Eu não vivo só de pão, prefiro uma boa Palavra.

A voz do mal insiste:

- Ta vendo esses montes e vales, cachoeiras, todo ecossistema e suas belezas naturais? Tudo isso é meu. E se você me pedir e me servir, eu te dou tudo isso e muito mais.

- Sai daqui coisa ruim. Eu nunca vou te pedir nada, nunca vou te servir, Eu já tenho o meu Mestre e só peço pra Ele.

O Livro vai ficando muito interessante em meio ao debate. A voz do mal não desistiu, e de um lugar bem alto, falou provocando mais uma vez o rapaz.

- Pula daí, os guardas do céu vão te pegar nos braços e você vai voar tipo Harry Porter e O Senhor dos Anéis lembra? É por ai. Confie em mim, você consegue. E eu estou aqui pra apoiá-lo.

O rapaz centrado e concentrado respondeu:

- Voz do mal, zarpa daqui, Eu não vou tentar ao meu Senhor.

E assim, depois dessa, voz do mal desistiu e se ausentou dEle. O rapaz desceu de lá cheio de moral, cheio de idéias revolucionárias, cheio de ideais. Ele venceu a provocação maligna, Ele foi aprovado e daí em diante fez um monte de coisas bacanas tipo: Trabalho social em comunidades carentes, trabalho com doentes e pessoas excluídas, assim como palestras em igrejas, escolas, praças, pescarias, acampamentos no deserto, etc. Só se ouvia falar dEle. Ele era formado em medicina, mas o livro conta que em alguns casos, as pessoas eram curadas só de olhar pro sorriso dEle, só de sentir Seu calou ou ouvir Sua voz. Dizem que esse negócio de morro funciona mesmo. Um amigo meu, Zilão, faz um trabalho assim em escolas e hospitais, ele se veste de palhaço e leva alegria e cura pra criançada muitas vezes com câncer. Maravilha por isso!

E como em todo lugar do mundo, quem não se vende, é massacrado pelo sistema. O jovem revolucionário é muito criticado, mas responde com palavras brandas tipo: “Dê a outra face quando te baterem”, “Não guarde nunca mágoa”, “Não julgue o teu próximo” ou “Dê, e te será dado”… E é ai que entra a frase “Boa medida, recalcada, sacudida e transbordando”. Porque você será medido com a mesma medida que medir os outros. Quem faz o bem, só ganha. As coisas ruins que aparecem não são catalogadas no coração. Ele da uma lição de vida. Pensando bem, a frase até que da um funk, mas a interpretação agora é outra. Sai fora Juliana!

Esse livro foi escrito por um médico chamado Dr. Lucas Disciplós, o cara não é brasileiro não, mas o livro é um best-seller, e como a leitura coletiva ta só no começo, Capítulos 4 a 6, se tu quiseres eu posso pedir pro meu amigo Zé, te mandar a parada por e-mail, ele vai se amarrar.

Um xêro pra quem gosta da gente.

Rubão

16
out

Proverbalizando o Provérbio

   Posted by: Rubao   in Papo aberto

escada-de-livros-2.jpgPra começo de conversa, esse papo de hoje é sobre um provérbio do livro chamado Provérbios (tem gente que não sabe que existe esse livro, e tem gente que não sabe que existem provérbios que não sejam desse livro). Uma minoria lógico.

Pense num livro bacana de ler! É ele. Nele a gente encontra uma linguagem bem nossa. Quem não conhece uma mulher rixosa(briguenta)?, um cara mal pagador, etc. nem precisamos de um gringo (com todo respeito) pra nos me explicar. Hehe! Aqui no Brasa, como dizem os brasileiros que moram nos States, a gente sabe bem o que é isso, e esse livro é tão nosso e contemporâneo que tem uma linguagem bem brazuca.

O interessante é que ele é tão atual que a gente quase duvida que tenha sido escrito antes do chuveiro elétrico, do asfalto, da geladeira, do telefone, da sandália havaiana, da cueca e da Neosaldina pra cólica. Da pra imaginar?

Tem muitos provérbios interessantes, mas escolhi esse:

“Há três coisas que são maravilhosas demais pra mim,
sim, há quatro que não entendo;
O caminho da águia no céu,
O caminho da cobra na penha,
O caminho do navio no meio do mar
E o caminho do homem com uma donzela. Prov. 30:18-19”.

O caminho da águia pelo céu. Quem já andou de avião tem uma pequena noção do que é voar, mas quando a gente olha pra uma águia voando (Pra quem é do Maranhão que nem eu, pode trocar por um urubu, da no mesmo), percebe-se que ela tem domínio absoluto sobre o espaço aéreo, ela sempre sabe pra onde ta indo e o que esta procurando.

O caminha da cobra na penha, esse é tão curioso quanto estranho. Pra onde vai a cobra se arrastando, deslizando sobre terra, paus ou pedras se ela é praticamente cega? Mas ela sabe, por mais louco que isso possa parecer. Eu sou do tempo em que “cobra é pra se matar”, ainda bem que a conscientização chegou até este cabeça-xata. E a cobra segue seu caminho, a gente não entende, mas ela sabe pra onde ta aindo.

O caminho do navio no meio do mar é outra loucura. É como se ele falasse : “Eu não preciso de caminho, só do rumo” Assim passeia o navio pelos mares, sobre ondas e perigos desconhecidos. Cada um segue por um caminho único, mas é possível que todos cheguem ao seu destino. Muito louco, além de não afundar, aquele bicho pesado vai deixando um risco no mar como um animal que demarca seu território, mas ele sabe pra onde ta indo.

Agora, o caminho de um rapaz com uma virgem, esse é o mais pirado que existe. Se você é um rapaz com menos ou com 97 anos de idade, sabe que esse troço mexe até com a tripa do cabra. Frear é preciso, o problema é subestimar o poder do impulso. Zeca Baleiro canta: “Quando o homem inventou a roda, logo Deus inventou o freio, um dia, um feio inventou a moda e toda roda amou o feio” Hehe! Boa. Maldito o homem que confia na suas próprias forças, ou seja, no seu próprio freio. Rita Lee cantou: “Mulher é bicho esquisito, todo mês sangra”. Um pregador disse o seguinte: “Certos homens são tão esquisitos que não podem ver nem perna de mesa”. Eu hein!

Esquisito mesmo é o caminho de um homem com uma donzela. É tão misterioso que nem vou tentar  se explicar. Só que  “eles” não são culpados de tudo. Minha irmãzinha, nunca se ache feia a ponto de achar que ninguém vai te perceber ou te desejar. A surpresa pode estar na próxima esquina. Também não se ache tão maravilhosa a ponto de pensar que os homens se arrastarão diante dos seus encantos. Realmente, um macho vai se arrastar até te dar o bote, e depois, ele vai contar vantagem pro amigo mais próximo, que tem um amigo mais próximo, que…

Nesse caminho é recomendável usar sempre cinto de segurança, olhar pelo retrovisor, as mãos devem estar bem visíveis, não beber antes de dirigir, ser prudente e não ultrapassar os limites de velocidade. Se você estiver no máximo a 80 km creio que dará tempo de frear. Tô só supondo! Tem gente que capota a 40 km/h. Rsrs.

Agora, a boa notícia é que nesse caminho nem tudo é desgraça, Graças a Deus! Esse caminho pode ser tão voraz quanto excepcionalmente divino. Com a benção de Deus, meu irmão, nesse caminho você pode deixar até uma Ferrarri na poeira. Mas que é um mistério é. Diz aí.

O cara que escreveu esse Provérbio usou esses elementos todos: O caminho da águia no céu, o caminho da cobra pela penha e o caminho do navio pelo mar. Só pra dizer que a coisa mais sagrada e misteriosa, santa e pagã, abençoada e maldita, e, inexplicável em palavras é o caminho de um homem com uma donzela. O cara joga a bomba, diz que o trem é maravilhoso, e para por aí sem explicar coisa alguma.

E se você não entendeu nada, pergunte pro seu pastor, pro seu padre ou pro seu professor de yoga. Quem sabe ele te explique alguma coisa. Eu já fui longe demais.

Um xêro pra quem gosta da gente.

Rubão

9
out

Mais alguma pergunta?

   Posted by: Rubao   in Papo aberto

judo3yp6.jpgAcabei de chegar com meu guri da aula de judô, dele. Ele além de judô faz natação, gosta de matemática, bateria, não é regueiro ( por enquanto) curte Phil Colins, tá cabeludo, vai fazer oito anos no próximo dia 19 e tá solteiiiiirão. A guria já fez nove anos e só estuda pro vestibular da UnB (ponto). 

Voltemos, pois! Na aula de judô tivemos uma surpresa, o jovem professor que comandava o aquecimento, de repente parou, deu um comando e fez reverência pra alguém que estava chegando de quimono branco, cabelo comprido, preto, liso e amarrado pra trás, com uma cinturinha nada delgada, mas bem arrumada por trás da faixa preta e pés descalços. Pensei que fosse um japonês cabeludo fazendo uma visita, mas quando se virou de frente, percebi que era uma mulher, na realidade uma jovem senhora de aproximadamente 38 anos. O professor sai de cena e ela tomou conta da aula. Não entendi nada, e nem a gurizada. Ela falou:

- Boa tarde, tudo bem com vocês? A aula hoje será comigo. OK!

A presença feminina é algo diferente mesmo, dava perceber pelos comandos e o carinho quando passava a mão na cabeça da galera e trazia ao peito com um instinto feminino lembrando um gesto materno. Pura simpatia e show de aula.

Percebendo a minha perplexidade, a mãe de um aluno tocou em mim e cochichou:

- Essa aí, é a dona da Escola ela veio hoje por que eu reclamei do professor da última aula, ele é muito bruto.

- Ah tá, saquei! 

A garotada que já tem uma formação machista começou a questioná-la:

- A senhora é faixa preta? – Perguntou um garoto de cabeça raspada e elétrico.

- Sou, e já faz um bom tempo. Não perece não é? (sorriu).

Apesar do total domínio da arte e da turma, ficou claro que alguns alunos não queriam vê-la como uma líder e tentavam fazer os comandos relaxadamente querendo beber água o tempo todo (claro que ela só deixou uma vez) e empurrando uns aos outros, herança do professor anterior. Ela chamou a atenção com rigor e logo veio outra pergunta:

- Você é faixa preta mesmo, tem alguma medalha?

- Sou sim. Um dia eu conto minha história pra vocês. E ficará melhor se você me chamar de senhora.

- Mas você é baixinha, já ganhou alguma medalha?

O olhar fixo com uma risada usando apenas o lado esquerdo da boca mostrando um furinho na bochecha respondeu tudo. Certa vez juiz perguntou pra um amigo meu:

- Você é o Filho do Homem? – Obviamente que querendo provocá-lo.

- Você é que ta dizendo. – Respondeu Ele.

Outro dia esse mesmo meu amigo caiu (ciladamente) numa blitz e foi injustamente preso num puro ato preconceito e covardia. Aí outro preso, mala, todo enrolado, bandido, que já saiu até no Brasil Urgente do Datena, chegou pra Ele e disse:

- Se você é o “cara” mesmo, o “poderosão” como estão falando uns três “peladinhos” lá fora, por que você não se salva sozinho? Por que não da uns golpes de judô nesses caras e sai andando pela porta da frente?

O cara zombou mesmo, mas só pra se ter uma idéia, esse bandido, sínico e mala, morreu naquele mesmo dia numa morte humilhante e sofrida, já o meu amigo ta vivinho da Silva e ainda salvou um cara “gente fina” que também tava preso e no meio daquele tumulto falou pra Ele não esquecê-lo quando estivesse longe dali, no paraíso. Meu amigo nem pensou, já levou o cara junto. Mais alguma pergunta?

O meu guri começou uma briga de empurra-empurra com um menino lá, e a professora mandou os dois, darem as mãos, pedirem desculpas olhando nos olhos e pagarem apoio até a hora que ela mandasse parar. E pra galera que não parava de questioná-la, ela mandou fazer uma fila olhando pra ela e disse:

O Judô tem uns princípios que eu chamo de palavrinhas básicas e ensino isso pros meus filhos: “Respeito para com o próximo, do mais novo ao mais velho, dizer – sim senhor (a), com licença, me desculpe e obrigado”. E pro meninos e meninas curiosos (xaropes), eu comecei no judô aos 13 anos, fui campeã aos 17, fui onze vezes consecutivas campeã brasiliense de Judô, várias vezes campeã brasileira, e fui convocada para o Pan de 1987 e para as Olimpíadas de Seul 1988, mas tive de ser substituída por que quebrei o braço nos treinamentos. Eu tenho as medalhas e os jornais lá em casa pra quem quiser conferir. Mais alguma pergunta?

Silêncio total. Deu até vontade de pular no cangote dela e dar um xêro, mas pensei rápido. “Esse mulher não vai me entender e ainda vai me dar um golpe”. Mas que deu vontade deu. Ela mandou meu guri e o colega ficarem em pé, e despachou a turma.

Sim! Eu estava me esquecendo de dizer que ela tem:

Registro Faixa Preta 4º Dan de Judô: 102-4D
Registro Faixa Preta 1º Dan de Karatê: ACL 1309
Registro Faixa Preta de Kickboxing:
Registro Faixa Preta 5° Grau de Artes Marciais.

Um xêro pra quem gosta da gente.

Rubão

2
out

Mas eles não estavam mais ali

   Posted by: Rubao   in Melhores Artigos, Papo aberto

criancasnaagua.jpgJoão tinha 22 anos quando saiu de sua casa no interior de Pernambuco deixando a família, toda uma história, e aventurou-se solitário naquele ônibus entoando seu monólogo apenas para aquela janela transparente que misteriosamente misturava lembranças do que ficou, coisas novas correndo do outro lado do vidro e a expectativa do que a vida lhe traria. O ônibus seguia com destino a Campinas, grande cidade próxima à capital São Paulo.

João, como milhares de nordestinos, partiu a convite de parentes pra tentar a sorte na cidade grande. Era uma oportunidade imperdível de estudar, trabalhar e quem sabe, um dia voltar pra “terrinha” como orgulho de seu povo.

O Jovem chega e depara-se com uma avalanche cultural a começar pelo sotaque carregado, era estranho, ouvir e ser ouvido. Também o clima frio inimaginável em Pernambuco. Pra ele, uma camiseta e uma camisa de mangas compridas por cima resolveriam qualquer novidade climática, coitado! Além da surpresa a bronquite, a vegetação diferente, culinária diferente (sem aquela farinha), ritmo de vida acelerado, algumas coisas trocadas como, por exemplo: A macaxeira era mandioca e a mandioca era macaxeira, mas com pouco tempo João se familiarizou com a cidade e as coisas, e começou a “caminhar com seus próprios pés”, superou os desafios da saudade com novas amizades, conseguiu emprego e saiu da casa dos parentes pra dividir república com amigos sonhando alto com a nova vida.

A cidade grande além de muitas oportunidades oferece também os perigos da violência urbana que vão desde seqüestros relâmpagos até ao violento e malvado trânsito que não perdoa classe, cor ou credo.

Pois bem, João se torna vítima do caos urbano quando recebe num final de tarde a triste notícia de que seus parentes, os únicos ali naquele mundão de meu Deus, sofreram um terrível acidente voltando pra Campinas e faleceram. A cabeça de João dizia pra ele: Corre, pára, telefona, fica calado, grita, chora, consola, faz alguma coisa, procura informação, informa… Tudo ao mesmo tempo.

João ainda incrédulo olha em sua volta e vê um grupo de amigos consoladores e solidários, mas aqueles que o levaram, os únicos que ele conhecia até pouco tempo em Campinas, eles não estavam mais ali. Como administrar dor, saudade e questões? Como calar as perguntas que se organizam, fazem fila e gritam exigindo explicações?

Todo semana surge no Brasil uma nova ONG a partir de alguém que teve sua história marcada pela violência. Ninguém é tão sensível a esse monstro como aqueles que foram vítimas dele. Só quem passa é que sabe.

Pois bem, se você trocar Pernambuco por Maranhão, Campinas por Anápolis-GO e João por meu nome, você concluirá que essa história é a minha história. E é mesmo. A minha querida prima Flor (Nini) e seu esposo, meus únicos conhecidos no Centro-Oeste me trouxeram pra cá, e de uma hora pra outra, numa mistura de imprudência ao volante com a indecência de nossas estradas, eles e o filho mais velho, numa tarde cinzenta de domingo, antecipam o fim da história num trágico acidente voltando pra Anápolis. Pronto, fiquei “órfão”! Todo mundo que eu conhecia se foi, eles não estavam mais ali. Era uma sensação esquisita quando eu olhava pra rua e dizia: Ali mora dona Célia, ali mora Gilberto, aquele doutor é bom médico e bom visinho, aquela galera é minha amiga e me conhece pelo nome. Tudo a partir de alguém que… A minha esposa quando solteira morava na casa de frente da casa da minha prima, e foi lá que eu a conheci. Que doideira! Daí veio faculdade, banda, família, irmãos do peito, um universo de coisas e amigos em “outras terras” que eu não conseguiria contar nas mãos, nos pés e nem nas folhas. Mas eles não estavam mais ali.

No Maranhão, filho de primo é sobrinho. (ponto). Na época, três filhos da minha prima, portanto meus sobrinhos, que não estavam no carro e tinham menos de dez anos, ficaram órfãos e sofreram todo tipo de pressão psicológica que se possa imaginar. Não é fácil entender nessas circunstâncias o que é Dia das mães, pai herói, medo de escuro, comida saudável, puberdade, ser visto sempre como um coitado, conviver com respostas que não gostaria de dar, enfim, ser órfão. Isso acontece todos os dias, mas assim como nas ONGs, interessa mesmo é pra quem sente na pele. Eles dizem que “Deus tem um plano e sabe todas as coisas”. Palavra deles. Amém!

Outro dia passei lá “na rua” a calçada onde eu gostava de sentar com meu violão em meados dos anos 80, no friozinho de um sábado ao final da tarde, tava lá, o mesmo asfalto tava lá, alguns vizinhos ainda estavam lá, mas eles não estavam mais ali.

Meus sobrinhos vão bem obrigado! Estão formados e encaminhados na vida, acreditam em Deus como Senhor do universo e ainda me chamam de tio, e ai daquele que não chamar. “Respeito é bom e conserva os dentes”. rsrs. Ficaram órfãos, mas não desamparados, nunca vi nenhum deles mendigando o pão e nem questionando Deus por coisa alguma, eu também não questiono.

Um xêro pra quem gosta da gente.

Rubão