Domingo passou na TV uma reportagem sobre aquele rapaz que depois de ser flagrado pelo pai desviando grana da empresa, foi demitido e ainda perdeu a vaga pra madrasta (namorada do pai). Resumindo o cara articulou e matou o pai e a madrasta a tiros. Em condicional, e proibido de afastar-se de sua residência em São Paulo, ele foi encontrado no interior de Rio Grande do Sul levando uma vidinha normalzinha como se nada tivesse acontecido. Seu nome, Gil Rugai. Muito paia esse moleque.
Ai lembrei da história de outro rapaz que quase matou os pais, mas de desgosto. Seu nome, Pedro Filho, um rapaz assim como Gil Rugai, de família equilibrada e até então, um bom garoto. Só que o cara começou a andar com umas figuras estranhas, cheias de idéias estranhas e seu comportamento tornou-se insuportável com o povo de casa. É aquela velha história, o cara tem tudo, roupinha lavada, comidinha da mamãe, frutas na cesta da cozinha, um cachorro de raça da moda (pode ser um pit bull), o carro que, se ainda não é o dele, é ele quem administra os horários de final de semana com aquela voluntária condição de lavar o carro no sábado, ao som do novo hip hop do Snoop Dogg, pra mais tarde radicalizar, hora andando muito devagar pra que todos o vejam, hora andando muito rápido pra que todos…
Por mais duro que o coroa seja, ele termina cedendo pra não entrar naquele seleto grupo dos pais ausentes. Esse é um sentimento terrível. Tanto que quando o menino entra pras drogas a primeira coisa que ele alega é que não era compreendido em casa. E nesse caso todo pai está “errado”. Isso também é paia. Conheci faz pouco tempo um rapaz num encontro de Casas de Recuperação, ele mesmo me contou que certo dia estava tão chapado que chegou a jogar a mãe com violência contra o portão. Um cara que teve tudo, inclusive colinho e colégio bom e ainda assim saiu de casa. Onde esta a culpa?
Mas Pedro Filho foi além, chutou o balde e resolveu sumir, escafeder-se, sair de casa, curtir a vida sem as regras de um lar. Então surgiu o grande problema, a grana. Acredite se quiser, o cara ficou tão pirado que pediu a herança antecipada. Alguém já me disse que pedir herança em vida, é pedir pro pai morrer. E é mesmo.
Imagine a cara do coroa tentando contornar a situação sob os olhares carregados de uma mãe vendo sua “cria”, fruto do seu ventre, agindo com tamanha insensatez. A verdade é que venderam um carro daqui, uma loja de aluguel dali, e contrariados passaram a grana pro “filhão”. O cara saiu e nem deu tchau, cheio da grana partiu pro Nordeste onde tem sol, praia, mina e farra o ano todo. Pronto. Estava no paraíso. Pedro filho fez amizade ate com o filho do prefeito e namorou uma prima do cara, mas o bicho em vez de montar uma pousadinha pra ele ou um pequeno negócio, só torrava, só torrava… e a grana acabando, você já viu esse filme? Todo mundo conhece alguém assim.
O “Mané”, se valendo do desperdiçado tempo que ficou numa boa escola de guitarra e violão, inventou de tocar num barzinho. Os turistas bêbados nem reclamavam da péssima qualidade do seu som, mas as cervejas, o fumo, os bermudões de surf e o aluguel do quartinho consumiam mais grana do que entrava, claro. Aí já era! O cara quebrou legal, a galera do luau sumiu, a sobrinha do prefeito caiu fora, o dono do barzinho o despachou e ele foi caindo na real.
Envergonhado ele saiu do litoral numa carona de caminhão e foi até Prodilândia cidadezinha do interior a 150 Km de onde estava, parada que só folha de árvore de natal.
Faminto e disposto a fazer qualquer coisa, ele consegue trabalho num pequeno sítio e, como não tinha habilidade com cavalos e com gado, lhe sobrou a opção única de cuidar dos porcos. E olha que o chiqueiro desse sítio deve ter sido campeão mundial de mau cheiro. Ghuwr!!! Qualquer cristão vomitaria só de olhar, mas sem escolha ele se submete a passar os dias cuidando e até comendo coisas que deveriam ir pros porcos.
Com aquele aroma caracteristico no ar, ele teve que ter estômago de anta. Aliás, ele foi uma anta ao sair de casa e estava percebendo isso. O orgulho dizia: Não volta, todos vão rir de você. A boa escola dizia: Se é pra comer resto aqui, é melhor ser motoboy do seu pai e ter comida boa todo dia.
Moral, o cara, já especialista, pega mais uma carona e agora de volta pra casa. Derrubado, magro, dentes precisando de reparo, um monte de óleo de peroba na cara pra encarar os velhos e a determinação de pedir perdão e ser aceito pelo menos como um empregado. Aí surge a cena mais louca, que daria até um filme. O coroa lá do portão reconhece o moleque vindo, mesmo que defigurado e corre pra abraça-lo e beijá-lo. O grande barato é que não foi por coincidência, ele nunca desistiu de esperar o filho de volta, todo dia estava lá olhando pro horizonte esperando angustiado, mas certo de sua volta.
O pai organiza uma festa, com roupas novas, vinho do melhor, tênis da hora, etc. Tudo de bom, como se ele tivesse passado no vestibular do ITA. A mãe chora sem parar a alegria transborda, e o outro filho, o mais velho, enciumado não se contém de raiva. – Eu sou trabalhador e nunca tive isso, esse mala torra tudo e ainda ganha festa? Isso é injustiça.
A história de Pedro Filho deixa um pergunta no ar: Quem é você nessa história?
1- O próprio Pedro Filho, o garoto que causou todo esse desconforto na família, mas voltou arrependido?
2- O irmão mais velho, que se sente injustiçado e até certo ponto com razão?
3- O pai que nunca desistiu do portão até que o filho voltasse quase 3 anos depois?
Pedro Filho nunca imaginou que seria tão humilhado como foi em Prodilândia, assim como não imaginava que seu pai o amasse tanto.
Já é fim de tarde e o portão finalmente esta vazio…
Um xêro pra que gosta da gente
Rubão

