Archive for agosto 20th, 2008

20
ago

Pru modi o galo

   Posted by: Rubao   in Papo aberto

casa-do-interior.jpgPra que serve um galo?

Um galo serve pra muitas coisas. Pra mandar no terreiro, pra fazer um cosidão (cinco horas de panela de pressão em fogo alto), pra ser mascote de time de futebol, pra jogar no jogo do bicho ele é o nº 13, pra você achar que tem sorte quando compra uma rifa de um frango e descobre que na realidade ganhou um galo velho, duro de olhar e de comer. Juntando decepção com raiva, você chega à conclusão de que sua sorte na realidade foi um azar. E essa foi uma experiência própria, esse troço me foi tão azarento que nunca mais ganhei nada, aliás ganhei um tanquinho em parceria com um colega, imagine a cena, eu e o “mano” saindo de um estádio carregando um tanquinho, a galera gritando e a gente sem ter onde guardar esse “trem”. A gente foi pra ganhar um carro, mas ganhamos um tanquinho de lavar roupas. Hehe!! Será que foi pru modi o galo? Pensando bem, não fui tão azarado assim.

Nessas minhas andanças já ouvi muita história interessante, uma delas quem me contou foi Marcos, um pernambucano fruto da colonização holandesa, o cabra tem os olhos esverdeados com tendência pra azul, mel e lilás, uma voz grave e forte que pelo telefone mesmo, você já treme de medo que esse sertanejo de Garanhuns fique de alguma forma descontente e lhe faça uma promessa. Misericórdia! O problema é quando você vai conhecê-lo testa a testa. Hum!! Aí da vontade é de bater nele. Pense num homenzinho bem magrinho, baixinho, cabeçudinho…É ele! Ói! Ele só tem joelho e testa, mas fala olhando na cara da gente com a mesma voz grossa de um valentão como se a gente, agora, tivesse medo. Tenho o que!

Pois sim! Marcos é um velho companheiro de caminhada e me contou uma história no mínimo inusitada, e bem contada, talvez pra não apanhar. Hehe!!

E a história é mais ou menos assim:
Lá pras bandas do sertão da Paraíba, uma pequena igreja mantinha um programa diário de uma hora, na rádio comunitária da cidade. O programa era uma beleza. Olhe! De anum a bebum todo mundo era alcançado pelas palavras de refrigério, consolo e esperança que o programa soltava diariamente no ar, uma mensagem amiga e alguns sucessos de uma banda de forró dos crentes e de um novo cantor que esta aparecendo e já chegou até no sertão, Grupo Sal da Terra e Luiz de Carvalho. Sucessos garantidos.

A parada é que as arrecadações não estava conseguindo bancar o programa. Zé Vicente, o dirigente então, fez um apelo emocinado: “Irmãos, vamos pedir a Deus pra que aconteça um milagre, senão vamos perder o programa do rádio e ainda ficar devendo um bocado viu!”

Irmã Maria, foi a que mais ficou injuriada, ela gostava de varrer o terreiro, ou ouvindo uma mensagem, ou cantando por cima da voz do cantor do rádio, e agora, ia “se acabar tudo”? Ela injuriou-se de tal forma que falou: -”Senhor eu tenho que fazer alguma coisa”. Então, teve uma brilhante idéia:

- Pastor, eu trouxe aqui a minha oferta pra campanha, e com ela nós vamos pagar o programa com fé em Nosso Senhor. É tudo que eu tenho, mas é de coração visse!

- Mas irmã Maria, a senhora é uma benção, mas… que que eu vou fazer com um galo véi?

- Oxente homi de Deus! Vamos rifá-lo que ligeirin a gente paga.

- Muié, quem vai comprar a rifa de um galo e ainda mais, desde quando um galo da pra bancar um programa de rádio?

A verdade é que essa história chegou aos ouvidos de um irmãozinho que morava numa cidadezinha ao lado, de uma cidadezinha ao lado de outra cidadezinha ao lado do interior da irmã Maria. Olhe que beleza! Lá tinha internet. O irmãozinho nem perdeu tempo, teve logo uma idéia: “Vamos botar essa história na Internet, quem sabe alguém se compadece” E assim fez.

Meu cumpadi! A história vai pra lá, vai pra acolá, é deletada aqui, é encaminhada ali, e quem  diria … Rodou esse Brasilsão, e foi mais além, a história chegou no exterior, rapaz! Um irmãozinho de lá ficou comovido de tal forma com a bravura e o coração daquela senhora simples do interior que ele conhecia só de ouvir. Mulher trabalhadeira, de casa com piso de barra batido, de água fria do pote, de tamborete de couro, de gestos singelos, mas de uma grandeza de espírito que é impossível não compará-la à conhecida história da viúva pobre. Aquela que não se intimidou com os cheques altos que os ricos depositavam competindo status. Ela só dou uma moeda. A diferença é que eles doaram do que sobrava, ela doou tudo o que tinha. E alguém disse: Tá vendo! Ela deu a maior oferta.

O cabra dos States se sensibilizou tanto que de lá mesmo ligou pro irmão Zé Vicente se comprometendo a manter no ar por tempo indeterminado o programa de rádio, e, diz Marcos, que a coisa foi além, irmã Maria, ganhou uma geladeira, ganhou um piso brilhoso pra sua casa, ganhou um rádio novinho, ficou conhecida na região e fora, e até já viajou de avião só pra contar essa história. Tudo pru mode o galo.

Um xêro pra quem gosta da gente.

Rubão