Já era quase nove horas e eu ainda estava saindo de casa – Chegarei atrasado, mas transportarei a culpa pro trânsito. Armei-me com esse argumento.
Meu destino naquele sábado de sol era o Plano Piloto. Muita gente indo no mesmo sentido, uns pro Parque da Cidade pra andar de bike, jogar bola, correr, namorar, etc. Outros indo pro Lago pra andar de lancha ou só curtir o movimento lá do Pontão, que é lindo. Outros pros shoppings comprar o presente do “papi” afinal era véspera do Dia dos Pais. E eu na multidão entre a primeira e a terceira marchas tentava não me culpar por meu atraso.
Um sábado normal, radiante, sem acidentes no trajeto, como deve ser em qualquer lugar. Demorei, mas cheguei. Meu destino era a Asa Norte, setor nobre de Brasília. O estacionamento estava cheio, mas com umas duas voltas, consegui uma vaga.
Eu como sempre, não estava nem arrumado e nem desarrumado, acho que passei despercebido mo meio da galera. Quando se chega atrasado em algum lugar (e você não é político), deve-se caminhar com cautela, sentar do meio pra trás e cumprimentar as pessoas com um leve aceno de mão ou de cabeça erguendo uma das sobrancelhas. Foi o que fiz.
O salão estava cheio, tinha de crianças a velhinhos. posso dizer que o ambiente era sereno, nem gargalhadas eufóricas, nem choros descontrolados. Fui ali por causa de um amigo “das antigas” um cara mais ou menos da minha idade, também careca assumido, pai… gente boa.
Um coral bem afinado cantou velhas canções belíssimas e alguns homens falaram naquele sábado (ontem) palavras sábias, carregadas de emoção sob olhares e ouvidos atentos. Havia um mesmo sentimento de harmonia entre aqueles que conduziram a palavra. Falaram de um homem que fez diferença em sua geração, um homem que orava três vezes ao dia. Lembrei na hora de Daniel. Um homem que foi temente a Deus, um bom pai e que conduziu um rebanho. Pensei: Esse agora é Jacó. Um homem que passou duras lutas, mas não negou a fé. Então é Jô, ou será Estevão? Matutei. Um homem que escreveu cartas e poemas de sabedoria. Fiquei em dúvida em Davi e Salomão. Um homem que abraçou missões com todas as suas forças. Opa! Essa é fácil, Paulo o Apóstolo. Um homem que teve uma vida a ser imitada, que pregou o amor, que “resgatou” vidas, que suas últimas palavras foram de consolo e salvação, que não temeu a morte, que sabia pra onde iria após ela, e que morreu, mas esta no céu. Esse é Jesus, conclui.
No meio daquele salão, lá na frente, entre nós e os que falavam, estava o corpo de um homem dentro de um caixão. Aquilo não era uma palestra de auto-ajuda e nem uma reunião de condomínio, era um velório como a poucos, a sociedade brasiliense poderá testemunhar. Seu Manoel era o pai do meu amigo, o Adriano. Acredite! Todos estavam se referindo àquele homem ali. Um homem que amou a Deus sobre todas as coisas, que também se parecia com Jesus e que suas últimas palavras foram: “Reúnam os médicos aqui, por favor” E dali, deitado como estava, olhando de baixo pra cima, disse: “Depois da cirurgia, vocês podem ir pra suas casas, pras suas famílias, tranqüilos, certos de que fizeram o melhor, eu estou nas mãos do meu Pai”. Comovendo a todos, entrou pra sala de cirurgia e não voltou mais.
Ele teve um Aneurisma da Aorta Abdominal, o mesmo problema que eu tive a pouco mais de um ano. Certamente, a aorta dele estava mais fragilizada que a minha devido a idade avançada, porém, uma situação igualmente preocupante.
A minha grande pergunta naquele momento de solidariedade, choro de tristeza pela separação e de alegria pelas convicções, de consolo e reflexão era: “Se eu tivesse morrido por causa do meu Aneurisma, o que as pessoas teriam dito a meu respeito?” Uma reflexão óbvia pra quem tinha algo tão delicado em comum. “E se eu morrer hoje, o que falarão de mim?”. Essa deve ter sido unânime.
Quando eu era guri, na minha escola lá no interior do Maranhão a gente fazia educação física de madrugada, depois voltávamos, tomávamos banho, café, e com a mesma bicicleta íamos pro colégio. Por várias vezes eu tive que entrar no quarto dos meus pais pra pegar um calção, ou uma meia, alguma coisa… e encontrei meu pai ajoelhado ao lado da cama orando a Deus. Como eu sou filho único, só eu e minha mãe presenciamos aquilo e ele nunca contou isso pra ninguém. Eu entrava devagarzinho como quem chega atrasado, balançava a cabeça como quem diz: “Benção pai” e em silêncio saía de lá. Nunca me esquecerei disso. Tenho a vergonhosa certeza de dizer que: “Por enquanto, meu filho não vai poder dizer isso de mim”.
Adriano, nós temos três coisas em comum:
1- A careca.
2- Um pai de vida exemplar e temente a Deus.
3- O desafio de construirmos nossa história de tal forma que nossos filhos digam o mesmo de nós.
Deus conforte o seu coração, meu irmão.
Um xêro pra quem gosta da gente.
Rubão

