Semana passada, tivemos uma reunião muito legal, fiz um som com a galera, revi uns bons e velhos amigos e me sentei confortavelmente na primeira fila, bem na extremidade como um ponteiro direito, e do outro lado, como um ponteiro esquerdo estava um cara fortinho com um sorriso bacana no rosto e um cavanhaque ruivo. Fiquei bem à vontade pra ouvir meu amigo Silvio Bizzo, um funcionário do Banco do Brasil que gosta de mandar um papo pra galera.
Bizzo começou a conversa assim: “Se você encontrasse com um jovem viciado, alcoólatra, mundano e ateu, o que você diria que iria acontecer com ele dali a doze anos, um mês e dia?
Eu pensei comigo, essa cara ta viajando, embora nem tudo seja “de imediato” não vou pensar na vida de ninguém daqui a 12 anos, Aliás eu pensei de imediato já aproveitando o gancho do “cara ser alcoólatra” que ele iria falar de whíski. Todo mundo sabe que similar à história do Red Label, o Johnnie Walker Black Label foi criado em 1909 por causa da procura, no mercado internacional, por Whíkies, com características mais suaves, Johnnie Walker Black Label foi o primeiro a carregar a afirmação de ser 12 anos, no seu rótulo, pois os mais de 40 maltes utilizados na sua composição são envelhecidos por, no mínimo, 12 anos.
O cara não falou de whíski graças Deus, eu já tava ficando tonto Hehe!! Ele partiu pra uns papos sobre amizade, o lance de se valorizar os verdadeiros amigos. Tem gente que casa e se afasta de amigos de infância, outros mudam de cidade e rompem totalmente deixando pra trás tanta história, e por aí foi… e essa parte eu gosto, até por que um maranhense longe da terrinha vai fazer o que sem amigos? dizem que “Há amigo mais chegado que um irmão” Aí eu gostei. Eu, um filho único, ouvindo uma coisa dessas faz um bem que você não imagina, ainda mais vindo de Salomão, o cara que em vez de riqueza pediu sabedoria, e faz sentido por que um cara com muita sabedoria tem tudo pra ficar rico, eu na minha limitude teria pedido de cara riqueza, e muita, e sem pestanejar.
Nasce bem aí um grilo, ou dois: o primeiro é como descobrir quem é um amigo de verdade o outro é como ser um amigo de verdade. O segredo é óbvio, amar o próximo como a si mesmo. Sem grilo. Um amigo meu também Silvio, o “Simões” me lembrou de uma frase do Jô Soares: “O problema do pobre no Brasil; não é a pobreza… e sim a falta de amigos”.
E o papo ia por esse caminho quando lembrei de um fato que me ocorreu em 2006 com um amigo que ganhei assim “de graça” num local muito distante daqui e que não vou dizer onde foi até por que se eu falar que foi em Elizabeth, New Jersey, nas proximidades de NY, alguém pode pensar que não sou humilde, pois bem, conheci nesse “lugar distante” um coroa figuraça, Seu nome é José Calixto e sua esposa uma japonesinha, Sueli. Ele me comoveu contando parte sua história, por exemplo: Como quase perdeu seu filho pras drogas nos arredores de NY. Ele olhou bem nos meus olhos e disse:
- Rubão sabe quando eu comecei a perde meu único filho (ele tem mais uma moça) pra drogas? Quando ele chegou em casa com os cabelos pintados de vermelho, coisa de juventude, e eu na minha ignorância disse: você não vai pra igreja com esse cabelo, o que vão pensar de mim? Naquele exato momento eu perdi meu filho, ele não foi naquele domingo e nem no outro, e nem no outro… Aquele bom garoto tatuou-se todo e envolveu-se com o que não há de melhor nas redondezas da mais nobre cidade americana. Não há sofrimento maior que ver seu garoto cheiroso, bonito, cheio de vida com cicatriz no joelho daquela queda de bicicleta que você quase morreu no lugar dele, e era só uma quedinha, do menino que te olha de longe no portão da escola e grita: “Papai, Papai!” do guri que tem medo de escuro e você espera que ele durma pra apagar a luz. Como não ter mais esse garoto? Como perdê-lo pras ruas, pras drogas? Qual orgulho me restou?
O cara disse isso olhando pra mim, olhando nos meus olhos, logo eu que sou frouxo, os caras da banda estavam comigo e sentiram a pancada.
- Sim, mas e onde esta se menino? – Perguntei, voltando a bola pra ele, pra que eu pudesse respirar.
- Graças a Deus, depois de muitos anos, todos nós sofremos muito, mas ele voltou, meu filhão voltou lindo e todo tatuado, cada tatuagem mais linda que a outra e ele agora é meu novamente. E ele disse: Pai, nunca me esqueci do amigo que você foi pra mim e do amigo maior que você me ensinou que morreu por mim, quero tudo de volta.
Lembra até aquela história contada por Lucas, daquele garoto rebelde também conhecido por Pródigo. Ele também voltou pros braços do pai que nunca desistiu de esperá-lo e foi recebido com festas. E Calixto continuou:
- Sabe Rubão, meu garoto agora se dedica a ensinar basquete pra gurizada e usa toda a sua experiência das ruas e tatuagens pra falar sobre os valores da amizade sincera e do maior amigo, Jesus. Ele ta se preparando pra deixar tudo e ir pra América Central só pra fazer esse trabalho de resgate com a juventude perdida de lá.
Tive que segurar o choro olhando pra aquele senhor de voz mansa, que ninguém cansa de ficar perto, que parece com o “melhor tio de todo mundo”. A vontade era de dar um grito bem alto dizendo: “COMO FOI QUE VOCÊ AGUENTOU TUDO ISSO?”
Aí surgiu um probleminha, o clima tava legal, ele havia nos abençoado com essa história forte e estávamos, levados por ele, num restaurante jamaicano que a propósito tem um rango maravilhoso (sem ervas estranhas he!) Que média hein! Mas a gente precisava de uma carona constrangedora. Precisávamos pedir pra que ele deixasse dois de nós no aeroporto e eu e mais outros dois “bem ali” Duas horas e meia de viagem. Vixe!! Sobrou pra mim. Como diz minha amiga Claudia: “Passei óleo de peroba na cara” E com a melhor cara-de-pau possível, abri o jogo. Arrisquei tudo, agarrado na velha teoria do “O Máximo que posso ganhar é um não”. José Calixto me olhou nos olhos mais uma vez e disse:
- Rubão, vou te ensinar uma coisa que aprendi quando trabalhei por mais de 17 anos na Venezuela e você não pode esquecer:
- Sim. – Falei cheio de suspense, mesmo porque ele não era obrigado a nos levar nessa viagem, o combinado seria só até ao aeroporto, mas mudamos os planos pra atender umas novas agendas.
- “Quem tem amigo não sofre, que sofre é o amigo” Eu sou o amigo e vou te levar onde você quiser.
Uau!! E ele nos levou numa Van, contando histórias e cantando temas em espanhol parecendo que nós é que estávamos lhe dando uma carona. Que doideira! E eu achando que já tinha visto de tudo. Essa eu aprendi.
Tudo isso por que o Silvio Bizzo, o bancário, mandou muito bem o papo sobre a importância dos amigos e até sugeriu que a gente procurasse um amigo e desse um abraço gostoso, e que nos lembrássemos de amigos queridos que a tempo não nos falamos e ligássemos pra eles dizendo o quanto eles são importantes. O trem foi doido. Acho que deu uma injeção de “rever valores” em todos ali.
E pra concluir, aquela frase do começo terminou assim: “Há doze anos, um mês e um dia eu estava ainda morando em Cuiabá, com a vida acabada, viciado, perdido e sem a menor referência do que é o verdadeiro amor e a vida eterna. Aí uma banda de Brasília foi tocar lá, e um cara, o líder e vocalista do grupo, me falou desse amor incondicional por mim, o amor de Jesus. Eu esperei esse tempo todo pra falar isso pra ele e ele ta aqui, e apontou pro cara lá da lateral esquerda, pro rapaz de cavanhaque ruivo, fortinho e sorridente apesar das lutas. E falou:
“Foi você Hiltinho, quando esteve lá em Cuiabá com a banda Raízes e de lá pra cá minha vida mudou radicalmente, e hoje eu sou um divulgador do Amor de Deus. Eu não poderia perder essa oportunidade de te agradecer e louvar a Deus por sua vida. Eu esperei doze anos, um mês e um dia pra te dizer isso. Tô nervoso, mas to feliz”.
Aê Hiltinho! Vai dormir com essa. Quem mandou abrir a boca!
Um xêro pra quem gosta da gente.
Rubão

