Quem foi o maior jogador que você já viu jogar? Essa é uma pergunta que não sai de moda. Eu sou da turma de Zico e Dinamite até Romário, mas todos esses na realidade eu só vi jogando pela TV. Tive a sorte de encontrar a uns cinco anos atrás com Zico no Aeroporto de Cumbica – SP. Ficamos eu e um amigo naquela: é, não é, é, não é. E não é que era mesmo? Até peguei um autógrafo do Galinho. Ta lá guardado, quem sabe um dia as pessoas venham me procurar pra vê-lo. Um autógrafo de um craque é uma jóia rara.
A partir dos meus 12 anos, fui morar no interior do Maranhão, na famosa Codó (o nome vem de codorniz). Meu endereço era: Pça. da Bandeira nº… Morar de frente pra uma praça era muito doido, as casas eram grudadas umas nas outras, mas bem espaçosas, as janelas das salas davam direto pra rua, então se “você” estava de castigo, dali da “prisão” dava pra acompanhar tudo sem sair de casa. Dava pra deitar na pedra da janela e descobrir animais feitos de nuvens brancas naquele céu azul anil, mesmo. Brincadeira que a molecada nem sabe mais o que é.
A minha praça, era um grande retângulo com casas no seu comprimento. Tinha uma calçada boa pra gente correr de bicicleta, e cair também. Bem no meio estava a estátua de um Cristo e, todo ano vinha um cara não sei de onde, contratado por comerciantes, pra ficar rodando de bicicleta em volta da estátua por três dias sem parar. E a gente ali, assistindo. Vi Luiz Gonzaga com seu Trio cantar a 70 m da minha casa. Privilégio hein!
Na praça, na época de chuva, todas as casas tinham bicas pra rua, era uma água morna, nunca mais achei chuva nessa temperatura, a galera brincava de piscina nas poças das calçadas, banhava muito e corria até não agüentar mais. Maravilha!
Ali, além de bancos, flores e árvores sombrosas tinha o campinho de areia, endereço de todas as tardes da rapaziada, a turma aí chegando, chegando… Lá pelas 3h a bola rolava pra só parar de noitinha. E era de lá mesmo que eu ouvia minha mãe gritando: “Rubem, vai comprar o pão”. Todo dia no mesmo horário, no bom da pelada ela me chamava e eu como bom garoto… Corria imediatamente após 25 minutos de resistência, entre uma barreira (próximo, time de fora) e outra.
Do campinho a gente via a 100m o trem passar, um dia indo, outro voltando, com seu apito ensurdecedor e seus vagões carregados, gritando nos trilhos e levantando poeira. Esse era o mesmo trem que João do Vale cantou: “Pequei o trem em Teresina pra São Luis do Maranhão… E queimado lenha e soltando brasa, tanto queima como atrasa”. Do outro lado da linha do trem, numa esquina, antes do consultório do seu Beija – o Dentista da cidade – todo dia à tardinha tinha ensaio aberto da Banda The Jets, que eu sempre ia pra assistir. Eu queria fazer parte de uma banda que nem aqueles caras. Só não gostava do visual, eles eram muito comuns e eu achava que artista tinha que ser mais invocado. O dono, e baixista da banda, era o Antonio. Na Guitarra, o cabeludo e irmão dele era o Zé, e no teclado o Crente, apelido herdado do tempo em que ele freqüentava a Cristã Evangélica e outros. Os caras eram feios, mas a banda era boa. Hehe!! Depois eu descia pra pelada. A gente jogava bola dançando ao som do The Jets cantando Zé Ramalho, The Fevers, Rita Lee, Bob Marley e outros. Era muito massa. Do outro lado, na outra esquina, o famoso pé de tamarindo, azedo que só ele, mas era uma referência. Entre o tamarineiro e banda subia, com um canteiro bem arborizado no meio, uma Avenida de pista dupla até lá no alto da Igreja. No sentido oposto estava o Tiro de Guerra, ladeado pelas ruas que seguiam, descendo pro Mercado Municipal. Se preferir é só pegar à direita que vai dar no Rio Itapecuru. Tava tudo ali, tudo era visto e desfrutado com um privilégio impar, de qualquer lugar da praça.
Quase tudo mundo “da praça”, como éramos conhecidos, tinha um apelido: Fuica, Magão, Zé Gordão, Totoringô, Galo Mago, Babaquara, Crocodilo, Robô, Ovo de Cobra, Braço de Radiola, Peninha, Cheira Peido (rsrs) e Coração de Papel, entre outros. Tinha até apelido de assovio, a gente assoviava a musiquinha e o cara apelava. Hehe!!O meu era o mesmo de hoje ta? Sem gracinha!
Quando alguém me pergunta: “Quem foi o maior jogador que você viu jogar?” Se é pra encurtar a conversa, eu respondo Zico. Sou fã. Mas o maior craque que eu vi jogar, não foi Zico, foi Fabinho (ou o Velho Fábio), fomos colegas de sala de guri até o Pré-vestibular, em São Luis. Ele tinha um corpo franzino que lembra Juninho Paulista, magro, pernas compridas, muito ágil e chutava com as duas pernas. Nunca vi Fabinho ser driblado, mas vi muitos que caíram de costas com seus dribles. Ele era perfeito no chute de meia distância com o goleiro adiantado ou não. O Velho Fábio era o tipo de craque que quando não tava a fim de jogar não jogava, mas estava lá na praça, apelidando a galera a fazendo todos rirem, um mestre na gozação. Porém, quando estava jogando era um matador imperdoável, chamava a responsa pra si e decidia, ele humilhava os adversários e ainda ria.
Certo dia, na escola, depois de uma das brincadeiras do “velho”, no intervalo das aulas, eu e ele tivemos um desentendimento e quase chegamos a brigar. A briga então, ficou marcada pra hora da saída. A turma do deixa disso não deixou, e assim ficou pro dia seguinte. Eu passei aquela noite pensando: “Como vou ganhar dele e mostrar pra todos que sou mais forte, sem machucá-lo?”. Eu não tinha ódio dele e foi uma coisa boba. A tal briga não aconteceu, mas ficamos intrigados.
É muito paia ficar de mal de um amigo, ainda mais um cara que você admira, mas fui levando de barriga e ficamos assim por quase três meses, uma tortura. Tínhamos aproximadamente 17 anos.
Numa manhã, eu estava passando de bicicleta e o Velho Fábio pulou na minha frente, ele já estava me esperando Pensei: “Caramba! O cara vai querer brigar!”.
Ele me parou e disse:
– Cara, eu tomei umas cervejas pra criar coragem (era a hora, pensei) e quero te pedir desculpas, eu sou teu amigo e não da pra ficar assim. Vamos parar com essa frescura.
O Cara me deu a mão, me abraçou e disse:
– Hoje vou me acertar com todo mundo.
E foi.
Velho Fábio essa foi a maior jogada de craque que eu vi você fazer, e não adianta transferir os méritos pra umas poucas cervejas, não. Se assim fosse, “nas assembléias dos botecos” teríamos os melhores maridos, pais, amigos…
Eis a questão:
Como dar um “Glória a Deus!” pela atitude de alguém que bebeu pra me pedir um perdão sincero?
Como não dar um “Glória a Deus!” pela atitude de alguém que bebeu pra me pedir um perdão sincero?
Eu, dos degraus do meu “politicamente correto” não tive peito pra encará-lo, por sua vez ele… Teve. Glória a Deus!
Fabinho, se estivéssemos de mal até hoje, ainda assim você seria meu craque preferido, mas craque que se presa surpreende, se supera, contraria a todas as lei e decide aos 47 do segundo tempo.
Essa não tem preço, mas vou ficar te devendo.
Um xêro pra quem gosta da gente.
Rubão




