Archive for agosto, 2008

26
ago

O craque que eu vi jogar

   Posted by: Rubao   in Papo aberto

2371598008_64c6110e341.jpgQuem foi o maior jogador que você já viu jogar? Essa é uma pergunta que não sai de moda. Eu sou da turma de Zico e Dinamite até Romário, mas todos esses na realidade eu só vi jogando pela TV. Tive a sorte de encontrar a uns cinco anos atrás com Zico no Aeroporto de Cumbica – SP. Ficamos eu e um amigo naquela: é, não é, é, não é. E não é que era mesmo? Até peguei um autógrafo do Galinho. Ta lá guardado, quem sabe um dia as pessoas venham me procurar pra vê-lo. Um autógrafo de um craque é uma jóia rara.

A partir dos meus 12 anos, fui morar no interior do Maranhão, na famosa Codó (o nome vem de codorniz). Meu endereço era: Pça. da Bandeira nº… Morar de frente pra uma praça era muito doido, as casas eram grudadas umas nas outras, mas bem espaçosas, as janelas das salas davam direto pra rua, então se “você” estava de castigo, dali da “prisão” dava pra acompanhar tudo sem sair de casa. Dava pra deitar na pedra da janela e descobrir animais feitos de nuvens brancas naquele céu azul anil, mesmo. Brincadeira que a molecada nem sabe mais o que é.

A minha praça, era um grande retângulo com casas no seu comprimento. Tinha uma calçada boa pra gente correr de bicicleta, e cair também. Bem no meio estava a estátua de um Cristo e, todo ano vinha um cara não sei de onde, contratado por comerciantes, pra ficar rodando de bicicleta em volta da estátua por três dias sem parar. E a gente ali, assistindo. Vi Luiz Gonzaga com seu Trio cantar a 70 m da minha casa. Privilégio hein!

Na praça, na época de chuva, todas as casas tinham bicas pra rua, era uma água morna, nunca mais achei chuva nessa temperatura, a galera brincava de piscina nas poças das calçadas, banhava muito e corria até não agüentar mais. Maravilha!

Ali, além de bancos, flores e árvores sombrosas tinha o campinho de areia, endereço de todas as tardes da rapaziada, a turma aí chegando, chegando… Lá pelas 3h a bola rolava pra só parar de noitinha. E era de lá mesmo que eu ouvia minha mãe gritando: “Rubem, vai comprar o pão”. Todo dia no mesmo horário, no bom da pelada ela me chamava e eu como bom garoto… Corria imediatamente após 25 minutos de resistência, entre uma barreira (próximo, time de fora) e outra.

Do campinho a gente via a 100m o trem passar, um dia indo, outro voltando, com seu apito ensurdecedor e seus vagões carregados, gritando nos trilhos e levantando poeira. Esse era o mesmo trem que João do Vale cantou: “Pequei o trem em Teresina pra São Luis do Maranhão… E queimado lenha e soltando brasa, tanto queima como atrasa”. Do outro lado da linha do trem, numa esquina, antes do consultório do seu Beija – o Dentista da cidade – todo dia à tardinha tinha ensaio aberto da Banda The Jets, que eu sempre ia pra assistir. Eu queria fazer parte de uma banda que nem aqueles caras. Só não gostava do visual, eles eram muito comuns e eu achava que artista tinha que ser mais invocado. O dono, e baixista da banda, era o Antonio. Na Guitarra, o cabeludo e irmão dele era o Zé, e no teclado o Crente, apelido herdado do tempo em que ele freqüentava a Cristã Evangélica e outros. Os caras eram feios, mas a banda era boa. Hehe!! Depois eu descia pra pelada. A gente jogava bola dançando ao som do The Jets cantando Zé Ramalho, The Fevers, Rita Lee, Bob Marley e outros. Era muito massa. Do outro lado, na outra esquina, o famoso pé de tamarindo, azedo que só ele, mas era uma referência. Entre o tamarineiro e banda subia, com um canteiro bem arborizado no meio, uma Avenida de pista dupla até lá no alto da Igreja. No sentido oposto estava o Tiro de Guerra, ladeado pelas ruas que seguiam, descendo pro Mercado Municipal. Se preferir é só pegar à direita que vai dar no Rio Itapecuru. Tava tudo ali, tudo era visto e desfrutado com um privilégio impar, de qualquer lugar da praça.

Quase tudo mundo “da praça”, como éramos conhecidos, tinha um apelido: Fuica, Magão, Zé Gordão, Totoringô, Galo Mago, Babaquara, Crocodilo, Robô, Ovo de Cobra, Braço de Radiola, Peninha, Cheira Peido (rsrs) e Coração de Papel, entre outros. Tinha até apelido de assovio, a gente assoviava a musiquinha e o cara apelava. Hehe!!O meu era o mesmo de hoje ta? Sem gracinha!

Quando alguém me pergunta: “Quem foi o maior jogador que você viu jogar?” Se é pra encurtar a conversa, eu respondo Zico. Sou fã. Mas o maior craque que eu vi jogar, não foi Zico, foi Fabinho (ou o Velho Fábio), fomos colegas de sala de guri até o Pré-vestibular, em São Luis. Ele tinha um corpo franzino que lembra Juninho Paulista, magro, pernas compridas, muito ágil e chutava com as duas pernas. Nunca vi Fabinho ser driblado, mas vi muitos que caíram de costas com seus dribles. Ele era perfeito no chute de meia distância com o goleiro adiantado ou não. O Velho Fábio era o tipo de craque que quando não tava a fim de jogar não jogava, mas estava lá na praça, apelidando a galera a fazendo todos rirem, um mestre na gozação. Porém, quando estava jogando era um matador imperdoável, chamava a responsa pra si e decidia, ele humilhava os adversários e ainda ria.

Certo dia, na escola, depois de uma das brincadeiras do “velho”, no intervalo das aulas, eu e ele tivemos um desentendimento e quase chegamos a brigar. A briga então, ficou marcada pra hora da saída. A turma do deixa disso não deixou, e assim ficou pro dia seguinte. Eu passei aquela noite pensando: “Como vou ganhar dele e mostrar pra todos que sou mais forte, sem machucá-lo?”. Eu não tinha ódio dele e foi uma coisa boba. A tal briga não aconteceu, mas ficamos intrigados.

É muito paia ficar de mal de um amigo, ainda mais um cara que você admira, mas fui levando de barriga e ficamos assim por quase três meses, uma tortura. Tínhamos aproximadamente 17 anos.

Numa manhã, eu estava passando de bicicleta e o Velho Fábio pulou na minha frente, ele já estava me esperando Pensei: “Caramba! O cara vai querer brigar!”.

Ele me parou e disse:

– Cara, eu tomei umas cervejas pra criar coragem (era a hora, pensei) e quero te pedir desculpas, eu sou teu amigo e não da pra ficar assim. Vamos parar com essa frescura. 

O Cara me deu a mão, me abraçou e disse:

– Hoje vou me acertar com todo mundo.

E foi.

Velho Fábio essa foi a maior jogada de craque que eu vi você fazer, e não adianta transferir os méritos pra umas poucas cervejas, não. Se assim fosse, “nas assembléias dos botecos” teríamos os melhores maridos, pais, amigos…

Eis a questão:
Como dar um “Glória a Deus!” pela atitude de alguém que bebeu pra me pedir um perdão sincero?
Como não dar um “Glória a Deus!” pela atitude de alguém que bebeu pra me pedir um perdão sincero?
Eu, dos degraus do meu “politicamente correto” não tive peito pra encará-lo, por sua vez ele… Teve. Glória a Deus!

Fabinho, se estivéssemos de mal até hoje, ainda assim você seria meu craque preferido, mas craque que se presa surpreende, se supera, contraria a todas as lei e decide aos 47 do segundo tempo.

Essa não tem preço, mas vou ficar te devendo.

Um xêro pra quem gosta da gente.

Rubão

20
ago

Pru modi o galo

   Posted by: Rubao   in Papo aberto

casa-do-interior.jpgPra que serve um galo?

Um galo serve pra muitas coisas. Pra mandar no terreiro, pra fazer um cosidão (cinco horas de panela de pressão em fogo alto), pra ser mascote de time de futebol, pra jogar no jogo do bicho ele é o nº 13, pra você achar que tem sorte quando compra uma rifa de um frango e descobre que na realidade ganhou um galo velho, duro de olhar e de comer. Juntando decepção com raiva, você chega à conclusão de que sua sorte na realidade foi um azar. E essa foi uma experiência própria, esse troço me foi tão azarento que nunca mais ganhei nada, aliás ganhei um tanquinho em parceria com um colega, imagine a cena, eu e o “mano” saindo de um estádio carregando um tanquinho, a galera gritando e a gente sem ter onde guardar esse “trem”. A gente foi pra ganhar um carro, mas ganhamos um tanquinho de lavar roupas. Hehe!! Será que foi pru modi o galo? Pensando bem, não fui tão azarado assim.

Nessas minhas andanças já ouvi muita história interessante, uma delas quem me contou foi Marcos, um pernambucano fruto da colonização holandesa, o cabra tem os olhos esverdeados com tendência pra azul, mel e lilás, uma voz grave e forte que pelo telefone mesmo, você já treme de medo que esse sertanejo de Garanhuns fique de alguma forma descontente e lhe faça uma promessa. Misericórdia! O problema é quando você vai conhecê-lo testa a testa. Hum!! Aí da vontade é de bater nele. Pense num homenzinho bem magrinho, baixinho, cabeçudinho…É ele! Ói! Ele só tem joelho e testa, mas fala olhando na cara da gente com a mesma voz grossa de um valentão como se a gente, agora, tivesse medo. Tenho o que!

Pois sim! Marcos é um velho companheiro de caminhada e me contou uma história no mínimo inusitada, e bem contada, talvez pra não apanhar. Hehe!!

E a história é mais ou menos assim:
Lá pras bandas do sertão da Paraíba, uma pequena igreja mantinha um programa diário de uma hora, na rádio comunitária da cidade. O programa era uma beleza. Olhe! De anum a bebum todo mundo era alcançado pelas palavras de refrigério, consolo e esperança que o programa soltava diariamente no ar, uma mensagem amiga e alguns sucessos de uma banda de forró dos crentes e de um novo cantor que esta aparecendo e já chegou até no sertão, Grupo Sal da Terra e Luiz de Carvalho. Sucessos garantidos.

A parada é que as arrecadações não estava conseguindo bancar o programa. Zé Vicente, o dirigente então, fez um apelo emocinado: “Irmãos, vamos pedir a Deus pra que aconteça um milagre, senão vamos perder o programa do rádio e ainda ficar devendo um bocado viu!”

Irmã Maria, foi a que mais ficou injuriada, ela gostava de varrer o terreiro, ou ouvindo uma mensagem, ou cantando por cima da voz do cantor do rádio, e agora, ia “se acabar tudo”? Ela injuriou-se de tal forma que falou: -”Senhor eu tenho que fazer alguma coisa”. Então, teve uma brilhante idéia:

- Pastor, eu trouxe aqui a minha oferta pra campanha, e com ela nós vamos pagar o programa com fé em Nosso Senhor. É tudo que eu tenho, mas é de coração visse!

- Mas irmã Maria, a senhora é uma benção, mas… que que eu vou fazer com um galo véi?

- Oxente homi de Deus! Vamos rifá-lo que ligeirin a gente paga.

- Muié, quem vai comprar a rifa de um galo e ainda mais, desde quando um galo da pra bancar um programa de rádio?

A verdade é que essa história chegou aos ouvidos de um irmãozinho que morava numa cidadezinha ao lado, de uma cidadezinha ao lado de outra cidadezinha ao lado do interior da irmã Maria. Olhe que beleza! Lá tinha internet. O irmãozinho nem perdeu tempo, teve logo uma idéia: “Vamos botar essa história na Internet, quem sabe alguém se compadece” E assim fez.

Meu cumpadi! A história vai pra lá, vai pra acolá, é deletada aqui, é encaminhada ali, e quem  diria … Rodou esse Brasilsão, e foi mais além, a história chegou no exterior, rapaz! Um irmãozinho de lá ficou comovido de tal forma com a bravura e o coração daquela senhora simples do interior que ele conhecia só de ouvir. Mulher trabalhadeira, de casa com piso de barra batido, de água fria do pote, de tamborete de couro, de gestos singelos, mas de uma grandeza de espírito que é impossível não compará-la à conhecida história da viúva pobre. Aquela que não se intimidou com os cheques altos que os ricos depositavam competindo status. Ela só dou uma moeda. A diferença é que eles doaram do que sobrava, ela doou tudo o que tinha. E alguém disse: Tá vendo! Ela deu a maior oferta.

O cabra dos States se sensibilizou tanto que de lá mesmo ligou pro irmão Zé Vicente se comprometendo a manter no ar por tempo indeterminado o programa de rádio, e, diz Marcos, que a coisa foi além, irmã Maria, ganhou uma geladeira, ganhou um piso brilhoso pra sua casa, ganhou um rádio novinho, ficou conhecida na região e fora, e até já viajou de avião só pra contar essa história. Tudo pru mode o galo.

Um xêro pra quem gosta da gente.

Rubão

11
ago

Nem toda manhã de sábado é igual

   Posted by: Rubao   in Papo aberto

igreja-08.jpgJá era quase nove horas e eu ainda estava saindo de casa – Chegarei atrasado, mas transportarei a culpa pro trânsito. Armei-me com esse argumento.

Meu destino naquele sábado de sol era o Plano Piloto. Muita gente indo no mesmo sentido, uns pro Parque da Cidade pra andar de bike, jogar bola, correr, namorar, etc. Outros indo pro Lago pra andar de lancha ou só curtir o movimento lá do Pontão, que é lindo. Outros pros shoppings comprar o presente do “papi” afinal era véspera do Dia dos Pais. E eu na multidão entre a primeira e a terceira marchas tentava não me culpar por meu atraso.

Um sábado normal, radiante, sem acidentes no trajeto, como deve ser em qualquer lugar. Demorei, mas cheguei. Meu destino era a Asa Norte, setor nobre de Brasília. O estacionamento estava cheio, mas com umas duas voltas, consegui uma vaga.

Eu como sempre, não estava nem arrumado e nem desarrumado, acho que passei despercebido mo meio da galera. Quando se chega atrasado em algum lugar (e você não é político), deve-se caminhar com cautela, sentar do meio pra trás e cumprimentar as pessoas com um leve aceno de mão ou de cabeça erguendo uma das sobrancelhas. Foi o que fiz.

O salão estava cheio, tinha de crianças a velhinhos. posso dizer que o ambiente era sereno, nem gargalhadas eufóricas, nem choros descontrolados. Fui ali por causa de um amigo “das antigas” um cara mais ou menos da minha idade, também careca assumido, pai… gente boa.

Um coral bem afinado cantou velhas canções belíssimas e alguns homens falaram naquele sábado (ontem) palavras sábias, carregadas de emoção sob olhares e ouvidos atentos. Havia um mesmo sentimento de harmonia entre aqueles que conduziram a palavra. Falaram de um homem que fez diferença em sua geração, um homem que orava três vezes ao dia. Lembrei na hora de Daniel. Um homem que foi temente a Deus, um bom pai e que conduziu um rebanho. Pensei: Esse agora é Jacó. Um homem que passou duras lutas, mas não negou a fé. Então é Jô, ou será Estevão? Matutei. Um homem que escreveu cartas e poemas de sabedoria. Fiquei em dúvida em Davi e Salomão. Um homem que abraçou missões com todas as suas forças. Opa! Essa é fácil, Paulo o Apóstolo. Um homem que teve uma vida a ser imitada, que pregou o amor, que “resgatou” vidas, que suas últimas palavras foram de consolo e salvação, que não temeu a morte, que sabia pra onde iria após ela, e que morreu, mas esta no céu. Esse é Jesus, conclui.

No meio daquele salão, lá na frente, entre nós e os que falavam, estava o corpo de um homem dentro de um caixão. Aquilo não era uma palestra de auto-ajuda e nem uma reunião de condomínio, era um velório como a poucos, a sociedade brasiliense poderá testemunhar. Seu Manoel era o pai do meu amigo, o Adriano. Acredite! Todos estavam se referindo àquele homem ali. Um homem que amou a Deus sobre todas as coisas, que também se parecia com Jesus e que suas últimas palavras foram: “Reúnam os médicos aqui, por favor” E dali, deitado como estava, olhando de baixo pra cima, disse: “Depois da cirurgia, vocês podem ir pra suas casas, pras suas famílias, tranqüilos, certos de que fizeram o melhor, eu estou nas mãos do meu Pai”. Comovendo a todos, entrou pra sala de cirurgia e não voltou mais.

Ele teve um Aneurisma da Aorta Abdominal, o mesmo problema que eu tive a pouco mais de um ano. Certamente, a aorta dele estava mais fragilizada que a minha devido a idade avançada, porém, uma situação igualmente preocupante.

A minha grande pergunta naquele momento de solidariedade, choro de tristeza pela separação e de alegria pelas convicções, de consolo e reflexão era: “Se eu tivesse morrido por causa do meu Aneurisma, o que as pessoas teriam dito a meu respeito?” Uma reflexão óbvia pra quem tinha algo tão delicado em comum. “E se eu morrer hoje, o que falarão de mim?”. Essa deve ter sido unânime.

Quando eu era guri, na minha escola lá no interior do Maranhão a gente fazia educação física de madrugada, depois voltávamos, tomávamos banho, café, e com a mesma bicicleta íamos pro colégio. Por várias vezes eu tive que entrar no quarto dos meus pais pra pegar um calção, ou uma meia, alguma coisa… e encontrei meu pai ajoelhado ao lado da cama orando a Deus. Como eu sou filho único, só eu e minha mãe presenciamos aquilo e ele nunca contou isso pra ninguém. Eu entrava devagarzinho como quem chega atrasado, balançava a cabeça como quem diz: “Benção pai” e em silêncio saía de lá. Nunca me esquecerei disso. Tenho a vergonhosa certeza de dizer que: “Por enquanto, meu filho não vai poder dizer isso de mim”.
Adriano, nós temos três coisas em comum:

1- A careca.

2- Um pai de vida exemplar e temente a Deus.

3- O desafio de construirmos nossa história de tal forma que nossos filhos digam o mesmo de nós.

Deus conforte o seu coração, meu irmão.

Um xêro pra quem gosta da gente.

Rubão

5
ago

Doze anos, um mês e um dia

   Posted by: Rubao   in Papo aberto

amigos-2.jpgSemana passada, tivemos uma reunião muito legal, fiz um som com a galera, revi uns bons e velhos amigos e me sentei confortavelmente na primeira fila, bem na extremidade como um ponteiro direito, e do outro lado, como um ponteiro esquerdo estava um cara fortinho com um sorriso bacana no rosto e um cavanhaque ruivo. Fiquei bem à vontade pra ouvir meu amigo Silvio Bizzo, um funcionário do Banco do Brasil que gosta de mandar um papo pra galera.

Bizzo começou a conversa assim: “Se você encontrasse com um jovem viciado, alcoólatra, mundano e ateu, o que você diria que iria acontecer com ele dali a doze anos, um mês e dia?

Eu pensei comigo, essa cara ta viajando, embora nem tudo seja “de imediato” não vou pensar na vida de ninguém daqui a 12 anos, Aliás eu pensei de imediato já aproveitando o gancho do “cara ser alcoólatra” que ele iria falar de whíski. Todo mundo sabe que similar à história do Red Label, o Johnnie Walker Black Label foi criado em 1909 por causa da procura, no mercado internacional, por Whíkies, com características mais suaves, Johnnie Walker Black Label foi o primeiro a carregar a afirmação de ser 12 anos, no seu rótulo, pois os mais de 40 maltes utilizados na sua composição são envelhecidos por, no mínimo, 12 anos.

O cara não falou de whíski graças Deus, eu já tava ficando tonto Hehe!! Ele partiu pra uns papos sobre amizade, o lance de se valorizar os verdadeiros amigos. Tem gente que casa e se afasta de amigos de infância, outros mudam de cidade e rompem totalmente deixando pra trás tanta história, e por aí foi… e essa parte eu gosto, até por que um maranhense longe da terrinha vai fazer o que sem amigos? dizem que “Há amigo mais chegado que um irmão” Aí eu gostei. Eu, um filho único, ouvindo uma coisa dessas faz um bem que você não imagina, ainda mais vindo de Salomão, o cara que em vez de riqueza pediu sabedoria, e faz sentido por que um cara com muita sabedoria tem tudo pra ficar rico, eu na minha limitude teria pedido de cara riqueza, e muita, e sem pestanejar.

Nasce bem aí um grilo, ou dois: o primeiro é como descobrir quem é um amigo de verdade o outro é como ser um amigo de verdade. O segredo é óbvio, amar o próximo como a si mesmo. Sem grilo. Um amigo meu também Silvio, o “Simões” me lembrou de uma frase do Jô Soares: “O problema do pobre no Brasil; não é a pobreza… e sim a falta de amigos”.

E o papo ia por esse caminho quando lembrei de um fato que me ocorreu em 2006 com um amigo que ganhei assim “de graça” num local muito distante daqui e que não vou dizer onde foi até por que se eu falar que foi em Elizabeth, New Jersey, nas proximidades de NY, alguém pode pensar que não sou humilde, pois bem, conheci nesse “lugar distante” um coroa figuraça, Seu nome é José Calixto e sua esposa uma japonesinha, Sueli. Ele me comoveu contando parte sua história, por exemplo: Como quase perdeu seu filho pras drogas nos arredores de NY. Ele olhou bem nos meus olhos e disse:

- Rubão sabe quando eu comecei a perde meu único filho (ele tem mais uma moça) pra drogas? Quando ele chegou em casa com os cabelos pintados de vermelho, coisa de juventude, e eu na minha ignorância disse: você não vai pra igreja com esse cabelo, o que vão pensar de mim? Naquele exato momento eu perdi meu filho, ele não foi naquele domingo e nem no outro, e nem no outro… Aquele bom garoto tatuou-se todo e envolveu-se com o que não há de melhor nas redondezas da mais nobre cidade americana. Não há sofrimento maior que ver seu garoto cheiroso, bonito, cheio de vida com cicatriz no joelho daquela queda de bicicleta que você quase morreu no lugar dele, e era só uma quedinha, do menino que te olha de longe no portão da escola e grita: “Papai, Papai!” do guri que tem medo de escuro e você espera que ele durma pra apagar a luz. Como não ter mais esse garoto? Como perdê-lo pras ruas, pras drogas? Qual orgulho me restou?

O cara disse isso olhando pra mim, olhando nos meus olhos, logo eu que sou frouxo, os caras da banda estavam comigo e sentiram a pancada.
- Sim, mas e onde esta se menino? – Perguntei, voltando a bola pra ele, pra que eu pudesse respirar.
- Graças a Deus, depois de muitos anos, todos nós sofremos muito, mas ele voltou, meu filhão voltou lindo e todo tatuado, cada tatuagem mais linda que a outra e ele agora é meu novamente. E ele disse: Pai, nunca me esqueci do amigo que você foi pra mim e do amigo maior que você me ensinou que morreu por mim, quero tudo de volta.

Lembra até aquela história contada por Lucas, daquele garoto rebelde também conhecido por Pródigo. Ele também voltou pros braços do pai que nunca desistiu de esperá-lo e foi recebido com festas. E Calixto continuou:

- Sabe Rubão, meu garoto agora se dedica a ensinar basquete pra gurizada e usa toda a sua experiência das ruas e tatuagens pra falar sobre os valores da amizade sincera e do maior amigo, Jesus. Ele ta se preparando pra deixar tudo e ir pra América Central só pra fazer esse trabalho de resgate com a juventude perdida de lá.

Tive que segurar o choro olhando pra aquele senhor de voz mansa, que ninguém cansa de ficar perto, que parece com o “melhor tio de todo mundo”. A vontade era de dar um grito bem alto dizendo: “COMO FOI QUE VOCÊ AGUENTOU TUDO ISSO?”
Aí surgiu um probleminha, o clima tava legal, ele havia nos abençoado com essa história forte e estávamos, levados por ele, num restaurante jamaicano que a propósito tem um rango maravilhoso (sem ervas estranhas he!) Que média hein! Mas a gente precisava de uma carona constrangedora. Precisávamos pedir pra que ele deixasse dois de nós no aeroporto e eu e mais outros dois “bem ali” Duas horas e meia de viagem. Vixe!! Sobrou pra mim. Como diz minha amiga Claudia: “Passei óleo de peroba na cara” E com a melhor cara-de-pau possível, abri o jogo. Arrisquei tudo, agarrado na velha teoria do “O Máximo que posso ganhar é um não”. José Calixto me olhou nos olhos mais uma vez e disse:

- Rubão, vou te ensinar uma coisa que aprendi quando trabalhei por mais de 17 anos na Venezuela e você não pode esquecer:

- Sim. – Falei cheio de suspense, mesmo porque ele não era obrigado a nos levar nessa viagem, o combinado seria só até ao aeroporto, mas mudamos os planos pra atender umas novas agendas.

- “Quem tem amigo não sofre, que sofre é o amigo” Eu sou o amigo e vou te levar onde você quiser.

Uau!!  E ele nos levou numa Van, contando histórias e cantando temas em espanhol parecendo que nós é que estávamos lhe dando uma carona. Que doideira! E eu achando que já tinha visto de tudo. Essa eu aprendi.

Tudo isso por que o Silvio Bizzo, o bancário, mandou muito bem o papo sobre a importância dos amigos e até sugeriu que a gente procurasse um amigo e desse um abraço gostoso, e que nos lembrássemos de amigos queridos que a tempo não nos falamos e ligássemos pra eles dizendo o quanto eles são importantes. O trem foi doido. Acho que deu uma injeção de “rever valores” em todos ali.

E pra concluir, aquela frase do começo terminou assim: “Há doze anos, um mês e um dia eu estava ainda morando em Cuiabá, com a vida acabada, viciado, perdido e sem a menor referência do que é o verdadeiro amor e a vida eterna. Aí uma banda de Brasília foi tocar lá, e um cara, o líder e vocalista do grupo, me falou desse amor incondicional por mim, o amor de Jesus. Eu esperei esse tempo todo pra falar isso pra ele e ele ta aqui, e apontou pro cara lá da lateral esquerda, pro rapaz de cavanhaque ruivo, fortinho e sorridente apesar das lutas. E falou:

 “Foi você Hiltinho, quando esteve lá em Cuiabá com a banda Raízes e de lá pra cá minha vida mudou radicalmente, e hoje eu sou um divulgador do Amor de Deus. Eu não poderia perder essa oportunidade de te agradecer e louvar a Deus por sua vida. Eu esperei doze anos, um mês e um dia pra te dizer isso. Tô nervoso, mas to feliz”.

Aê Hiltinho! Vai dormir com essa. Quem mandou abrir a boca!

Um xêro pra quem gosta da gente.

Rubão