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16
jul

O menino que aprendeu porque matou aula

   Posted by: Rubao   in Papo aberto

casa-de-interior.jpgPedra Bonita é uma pequena cidade de interior desse mundão de meu Deus. Dizem que recebeu esse nome por causa de uma mina que havia nas redondezas. Três  léguas (18 km) pra frente,  está Sagrada, uma currutela (cidade pequena) que fica ao norte e ainda faz parte do município de Pedra Bonita.

Sagrada é um daqueles povoados típicos que aparecem desenhados nos livros de 6ª série. Uma igrejinha, um pequeno campo de futebol, meninada correndo, animais no pasto, casas simples, velhinhos olhando o movimento e uma curva indicando a entrada da cidade, cercada de morros.

Nasce mais um dia em Sagrada, o sol mandou apenas um leve tom avermelhado nas colinas enquanto as casas aquecidas pelo aconchego começam a despertar ao som  dos galos de plantão. As mulheres como sempre, levantam primeiro pra cuidar dos afazeres da casa e, a fumaça das chaminés mostram suas caras, seguidas de um cheiro forte de café torrado. Humm! Daqueles que dá água na boca. É o ritual de todos os dias.

Na esquina da pracinha da matriz, está o comércio de seu Tarcísio, o Magarefe (açougueiro), um dos primeiros da cidade a acender o lampião. Muito barulhento já vai logo abrindo duas portas de madeira rústica, ele só perde pro seu Nezim da Padaria, que atende na esquina defronte (em frente),  esse parece que começa a trabalhar quando a cidade ainda nem dormiu.

Quem desce a Rua São Marcos, ou “Rua do Magarefe” como é popularmente conhecida, só tem uma opção: Dobrar à esquerda meio que voltando. Ali tem uma placa de madeira mal pintada, amarrada num pau, por um arame velho, com uma letra quase apagada escrito “Rua São  Mateus”. A rua não é grande,  suas casas são simples e de taipa (varas com barro), quase todas têm um jardim colorido na frente, e praticamente têm as mesma plantas, uma cancela (pequeno portão) e uns bancos fincados no chão pra embalar as  conversas de fim de tarde.

A última casa da rua, única pintada, já quase perdendo o seu branco original, tem o seu número, 13, feito à mão, com uma letra de quem pouco estudou e em tamanhos desproporcionais, mas ta lá. Coisa do interior.

O galo já cantou, dona Mariazinha passou (fez) o café, assou um cheiroso bolo de macaxeira (mandioca) e se prepara pra barrer (varrer) o terreiro (frente da casa) com uma vassoura feita de galhos de mato seco, enquanto seu Zé Crente que no papel (documento) consta José Rodrigues, mas ninguém o conhece  por seu nome, começa a juntar as ferramentas no quartinho que fica lá nos fundos perto do pequeno celeiro. Ele se arruma pra sair cedo, gosta de chegar na roça junto com o canto das juritis e os primeiros raios de sol.

Na casa, parece que tudo esta bem. A meninada já se levantou, tomou café e se prepara pra ir  à escola. è o primeiro dia de aula e, até lá, tem uma boa caminhada. Mas ta faltando Neném, o quarto dos sete filhos. – Havia Neném! (- Agiliza Neném!) Grita a mãe. Seu Zé Crente que não é  bobo, nem nada, disse:

- Tu num quer ir pra escola é porque ta doente né?

- É papai. Respondeu o garoto falando entre os dentes.

- Então tu vai pra roça  comigo, tu vai ficar “quétim”, só olhando,  mas vai.

O pai queria dar uma lição no filho pra que ele não inventasse mais histórias pra matar aula. Ele sabia a importância do estudo.

A época é certa, a terra já foi preparada, o dia ta radiante e seu Zé Crente não quer perder tempo. Ainda na porta da casa, da um beijo na  muié, tira a  boneta (boné) olha pra cima e faz uma oração. Então, segue seu caminho com o garoto, sob o olhar de dona Mariazinha que só desgruda quando eles somem lá longe no pé da colina. Todo dia é assim.

Bastante contrariado e com um “bico” na cara, Neném que só bibicou (comeu pouquinho) seu café, segue seu pai com a benção da mãe. Vai tangendo (guiando) o Jerico (jumento) que é tipo um membro da familia, ele havia sido enjeitado (desprezado pela mãe) e adotado com carinho por seu Zé Crente. O animal segue, arrumado com dois jacás (cestos feitos de taquara trançadas) cheios de ferramentas, inclusive o inseparável cutelo (tipo de facão com a ponta encurvada), uma cabaça (ou porunga, recipiente pra guardar água), dentro de um pequeno côfo (cesto feito de palhas) estavam as marmitas do almoço enroladas num pano de prato, uma dúzia de bananas bem arrumada num canto e quatro pães massa-fina (rosca), e, algumas sementes de milho em dois sacos de estopa (derivado do linho, mas rústico e resistente) bem distribuídos  na carga.

Depois de uma caminhada de 45 min, chegam ao pequeno terreno da família Rodrigues, separado por arame farpado em dois lotes: A roça e a solta (local destinado à criação de animais).  Seu Zé pára em baixo da jaqueira, que fica lá perto da segunda porteira. Tira a carga, coloca o jumento na solta e deixa-o piado (duas patas amarradas, uma à outra) pra que ele não se afaste,  e numa mistura de ansiedade e euforia, começa  o árduo, mas prazeroso trabalho.

- Preciso plantar pelo menos a metade da roça hoje. Disse em voz alta.

Neném que já estava “bom” tentava se distrair uma vez que seu plano tinha dado errado e, agora, restava-lhe esperar que esse dia voasse. Mas só estava começando. Ele então, depois de jogar algumas pedras numas pipiras (pássaros) que agitavam a jaqueira e ter reclamado suas mágoas ao jumentinho, começa a seguir o pai, com os olhos. Seu Zé segue obstinado em sua lida e nem sequer levanta a cabeça. O menino decide segui-lo mais de perto, corre em direção a ele e começa a observar com capricho cada passo do seu trabalho. Tudo fica registrado em sua mente. Nenhum detalhe lhe foge ao olhar, desde o suor escorrendo do seu rosto, hora pingando no chão, hora ensopando (molhando) a camisa desbotada e puída (desgastada, quase rasgada), até àquela vez em que ele tropeçou numas pedras que estavam à beira do caminho, quase caindo.

- Aqui será um lindo milharal. Exclamou o pai, tentando desfarçar seu tropeço. Enganou-se.

Uns meses depois, Neném chega pra seu pai e diz:

- Papai,  quero ir lá na roça de novo,  só pra olhar como está o milharal que a gente plantou.

- A gente? Háhá! Ta bom, sábado pela manhã a gente vai lá.

O pequeno Neném ou Jaílson Rodrigues, que tinha apenas 11 anos, não esconde sua ansiedade e vai estranhamente avexado (apressado) de um lado pro outro fazendo poeira e gritando com o jumento:

- Acunha, acunha! (corre, corre!).

Ele de longe, se encanta com o verde do milharal. Seu pai apenas observa suas reações. Não demora, e o pequeno “agricultor” inicia sua curiosa caminhada a partir daquelas pedras onde seu pai tropeçou, e começa a falar sozinho em voz alta:

- Aqueles passarinhos chatos comeram as sementes que caíram ali na beira do caminho, eu vi. As outras que caíram em cima dessas  pedras nem cresceram, deve ser porque tem pouca terra e por causa do calor do sol, as outras que caíram nesses espinhos, eu nem falei pro meu pai e até pensei que fossem crescer mais que os espinhos, mas eles é que as sufocaram, as outras… Da uma pausa. Elas estão bem aqui na minha frente, verdes e bonitas.

- Ta vendo meu filho que beleza?

- Humhum!

- Acho que vamos tem nossa maior colheita. Não é bonito uma plantação assim?

Ele tinha ouvido toda a conversa solitária do menino, e, com uma sabedoria que misteriosamente Deus só da ao homem do campo, ele comentou:

- Sabe Neném, a vida é como esse milharal, e nós como as sementes, quando a gente é ignorante e anda em caminhos errados, logo aparece algo mau, pronto pra nos devorar, como aqueles pássaros, mas quando a gente sabe o que é certo e dá lugar às mentiras hum! Você sabe que “mentira tem pernas curtas” né?

- Sei papai.

- Elas são como a terra em riba (em cima) das pedras, sem firmeza, quem usa “isso” quando vem a angústia, se magoa rápido e não resiste. Tem também aqueles que são orgulhosos, com um “rei na barriga” (metidos), esses  acabam sufocados como aquelas que caíram nos espinhos, e, esses pés bonitos são aqueles que têm bom coração, que amam seu próximo, que…

- Papai eu fui a semente das pedras, mas quero ser como esse aqui. Falou o menino segurando um pé de milho vistoso (bonito) que já mostrava suas espigas.

- É Neném! Você aprendeu com o ensinamento do campo, mas quer saber quem ta mais feliz que eu? É nosso Pai que ta lá em cima, Ele também ta lá com a mamãe e ta aqui no meio da roça ouvindo nossa prosa, e, com certeza, de alguma forma, Ele esta ensinando e recontando infinitas vezes essa mesma história de outras maneiras, pra outros “meninos”.

Quando você for “viajar” aproveite pra dar uma passadinha em Sagrada, e, pra conhecer melhor essa história,  pare pro café ou pra prosa do fim de tarde na Rua São Mateus, 13.

Neném nunca mais matou aula, mas tem uma história interessante pra te contar, e recontar e recontar…

Um xêro pra quem gosta da gente.

Rubão