Esses dias tenho pensado muito na história de um camarada chamado Estevão. Os relatos não citam sua forma física, daí conclui que ele nem era alto e nem baixo, nem gordo e nem magro, nem bonito e nem feio, nem cabeludo e nem careca, ou seja, um cara comunzão.
Só pra recordar, a história afirma que ele foi morto por apedrejamento em praça pública após desperdiçar a chance de ficar calado ou pelo menos, de ser bonzinho em seu depoimento aos “homens” na “CPI dos Apaixonados”, aliás, paixão e eloquência marcaram a vida desse rapaz. Ele só precisava dizer que estava arrependido do que vinha pregando, e que na realidade todo pregador é gente boa, que Jesus era tão bom e importante quanto Ghandi, Buda, Dalai Lama e outros líderes, e, que todos os caminhos levam a Deus. Só isso.
Em seu depoimento além de citar personagens da história como Abraão, Isaque, Jacó, José e Moisés, ele provocou a fúria dos Deputados e Senadores da “CPI Mista” que investigavam denúncias de blasfêmia contra as Escrituras. Ele não poupou ninguém. Da até pra imaginar a cara da galera (membros da “CPI”), na maioria do PLAE (Partido Liberal dos Anciãos e Escribas) grilados com a ousadia do rapaz, afinal, era uma transmissão ao vivo em rede nacional.
A coisa esquentou quando ele afirmou que por convicção divina, Deus não se agradava com o carnaval, com padre pedófilo, com pastor garanhão, com político puxa-saco e corrupto, com cristão de fim de ano, com crente mau-pagador e todo tipo de safadeza, inclusive aquela reunião em que falsos testemunhas inventaram coisas a seu respeito.
Estevão termina suas palavras dizendo: “Vocês estão me roubando dois sonhos: Um é o de me casar, ter um lar e filhos, o outro é o de continuar levando essa mensagem de amor, paz e redenção aos homens. Mas como já sei que vou morrer, quero aproveitar e pedir àqueles que são mais sentimentais que por favor, não façam de mim um “santo”. Santo é aquele que é a razão da minha paixão , e, é por causa dEle que estou aqui orgulhosamente de cabeça erguida encarando vocês. E finalmente, a Deus, que tenha pena de vocês e não leve em conta toda essa fatal ignorância”.
O cara foi arrastado pra um lugar aberto em praça pública, enquanto ali, alguém já se destacava organizando a cena como se fosse um teatro. Não era. Seu nome era Saulo, um jovem inteligente, cidadão romano, culto, estudou com Gamaliel o grande mestre e era conhecido pela rigidez e violência com que perseguia os cristãos em nome da “fé”. Foi ele quem deu simetria ao apedrejamento de Estevão segurando as capas, organizando as filas, separando as pedras “boas” e dando gritos de ordem tipo: “Acerte o dedinho”, “Jogue com mais força”, “ele merece isso, não tenha dó”. Assim morreu Estevão.
Um tempo depois desse fato, em mais uma de suas viagens em perseguição a cristãos, Saulo teve um encontro sobrenatural e literalmente caiu do cavalo, ficou cego (por uns dias), converteu-se ao cristianismo e teve seu nome mudado pra Paulo, tornando-se agora, um pregador e até inspirando o nome da maior cidade do Brasil, São Paulo.
Um poeta maranhense amigo meu, Saul, escreveu o seguinte: “Foi aí que Saulo caiu do cavalo desceu do orgulho e renasceu, de Tarso a Damasco de Saulo a Paulo nasceu o apóstolo de Deus”. Esse é dos meus.
Apesar de todo apelo, a igreja insistiu em fazer de Estevão um “santo”. Acredite, ele é padroeiro dos pedreiros, dos coletores de impostos, dos cavalos (Europa), dos fabricantes de caixão e dos diáconos. É invocado contra as dores de cabeça. Na Suécia algumas regiões celebram “São Stefano” no dia 26 de dezembro. Os devotos saem às ruas pra invocar hinos em saudação ao “santo dos cavalos”. Imediatamente após o Natal? Só espero que a festa não seja maior que a do dia 25. Vou ser duro, mas creio que idolatrar Estevão, é de alguma forma, também jogar uma pedra nele. É contradizer sua mensagem maior.
A uns anos atrás, escrevi uma música chamada “Estevão” que fala sobre ele, lógico. Tem um trecho que diz o seguinte: “Quem nega sua fé também joga uma pedra no jovem Estevão”. É com vergonha que reconheço que ainda ontem eu perdi uma oportunidade de testemunhar minha fé em Jesus, talvez preocupado com a opinião dos “julgadores”. Não importa. Neguei minha fé, jogando assim, também, uma pedra no jovem Estevão.
Um xêro pra quem gosta da gente.
Rubão

