Archive for julho, 2008

29
jul

Pra que serve um adesivo?

   Posted by: Rubao   in Papo aberto

torretv.jpgUm adesivo serve pra muitas coisas, por exemplo: identificar que o dono é um policial (não serve pra cariocas e paulistanos), pra dizer que o dono agora faz faculdade, de preferência em cursos que dão status com é o caso de Engenharia da Computação, Odontologia, Direito, Psicologia e Medicina (esse só no primeiro ano), serve também pra mostrar que o dono é um babaca com frases tipo: “A sua inveja é do tamanho do meu sucesso”, “ E daí? É meu, ta pago!!”, “ Nóis é feim, mais nóis é facim”, “ 60 cavalos + 1 no volante”, “ Nóis é xique no úrtimo”, “veículos rastreado por fofoqueiros”, “Bobo é assim mesmo… tudo que vê, lê!” ou pra mostrar revolta com a política. “Velocidade controlada pelos buracos da Prefeitura”. Semana passada um cara parou na minha frente com um adesivo dizendo: “Eu tenho vergonha do meu Congresso”. Há também quem use pra identificar sua fé: “G12, eu fui”, “Tudo por Jesus, nada sem Maria”, “ Sou católico graças a Deus”, “Bruxa à bordo”, “MPC – Mocidade Para Cristo”, Tem até o cara que volta empolgado do Encontro de casais: “Eu amo minha esposa” e o cara que da mole pra seqüestrador: “Sandra, Juninho e Bia, papai ama vocês”.

Sábado pela manhã peguei minha Parati sem o adesivo “tem PARATI também” Hehe! E fui com a prole dar um roller na Torre de TV, a maior da América Latina, ponto turístico em Brasília que tem um elevador de 74m de altura equivalente a um prédio de 25 andares, de la o turista tem uma panorâmica maravilhosa. (Um professor meu de faculdade me disse certa vez que a expressão: vista panorâmica é errada, porque vista já quer dizer panorâmica. Faz sentido, mas nunca pesquisei, e na dúvida…), de um lado o Parque da Cidade, considerado “O maior parque urbano do mundo”, do outro, a Rodoviária do Plano Piloto, o Teatro Nacional e tendo ao fundo a Esplanada dos Ministérios com o Congresso Nacional, virando novamente à esquerda está o Estádio Mané Garrincha e o Autódromo, e, completando a volta, o Clube do Choro, logo atrás o Centro de Convenções e na seqüência o Memorial JK, que se confunde com o avermelhado e encantador pôr-do-sol do cerrado no mês de julho. Eu não ia falar não, mas da pra ver também o Lago Paranoá. Pronto! Turismo completo.

Na Torre, funciona ao seu redor desde 1970, uma feirinha de artesanatos, com roda de capoeira Regional (Aquela que é mais rápida, dos saltos mortais. Eu prefiro a capoeira de Angola, dos movimentos mais lentos, porém, estudados e cheios de malandragem), barracas de comidas típicas regionais como a de acarajé da Bahia, açaí do Pará, carne seca com macaxeira e manteiga de leite do Ceará e a de peixe frito com arroz de cuxá e guaraná Jesus do Maranhão. Artesanatos de todo tipo, sandálias de couro, camisetas machadas ou escritas “Estive em Brasília, lembrei-me de você”, arte em “pedra sabão”, estátua viva, músicos mostrando seu trabalho.

 Gosto de ir a uma barraca atraente, que pode ser vista lá da Rodoviária, a do reggae com uma bandeira colorida de verde, amarelo e vermelho, nessa ordem, com um desenho em preto no meio. Quando alguém se refere ao reggae usando cores, deve manter o amarelo sempre entre o vermelho e o verde, o preto é livre desde que não altere a ordem. Essa é de lambuja. Hehe!

Sempre que vou à torre aproveito pra passar lá, dar uma olhar nas novidades e trocar um papo rápido. Encostei pra assinar o ponto, depois de ter comprado, duas barracas antes, um colar com um tucano muito invocado e diferente que me caiu muito bem no domingo à noite sobre uma camiseta branca de mangas compridas.

Na barraca do reggae ta sempre rolando um reggae, lógico! Muitas opções de boinas, calças, camisões, pulseiras e colares. Eu gostei de uma camiseta. A moça me disse que custava R$ 20,00 e fui pagar pro dono, um figuraça, já passando dos 50, com seus dreadlocks longos, uma boina jamaicana, um visual sempre carregado de cores (a crentaiada passa longe) e uma simpatia só. A primeira coisa que acontece com um sujeito desses quando chega a uma igreja, é receber um manual: “101 razões pra você cortar esse cabelo, tirar essas roupas e colares e se integrar “culturalmente” à nossa Comunidade experimentando uma mudança genuína”. Hunrum!
.
Depois de literalmente nadar entre camisetas até chegar ao centro esquerdo da barraca onde ele fica controlando o som e sempre conversando com alguém demonstrando amistosidade, soltei:

- E aí meu irmão, tudo na paz?

- Olá irmão, Paz de Jah! (Paz de Deus!). – Saudou-me ele, me estendendo a mão e continuou.  

- Você ta sumido, mas sabe que aqui é sua casa né?

- Paz de Jah! Tô sumido mesmo, mas sempre voltando. Cara eu separei essa camiseta, achei maneira.

- Muito legal mesmo, vai cair bem pra você, quanto ela te cobrou? – Falou ele baixando o tom da voz e apontando pra vendedora, com um balançar de cabeça.

- Vinte Reais.

- Ô menina! Pro irmão aqui é pra dar um desconto que ele é gente fina, anota aí só quinze. – Gente fina eu? Nem estou comprando muito e nem puxando o saco. Pensei.

- Valeu mano. Que som é esse que ta rolando? Muito legal.

- É um cara novo. Muito bom né?  Pode ficar pra você, depois me conta se você gostou. – Disse ele me mostrando a capa e me deixando ainda mais, com cara de espanto (bobo). Tava rolando uma letra falando tipo: “O único Caminho…”

- Que é isso… Mas obrigado. Eu fiquei meio desajeitado, não é sempre que alguém  faz uma “graça” pra mim. Criei coragem e disse:

- Eu tenho alguma coisa gravada, umas pedras (reggae) vou trazer aí pra você sentir o som.

-Trás mesmo. Vou ouvir com certeza, aposto que de você vem coisa boa. Aproveita e escolhe um adesivo aí. Qualquer um.

Terminei escolhendo dois pra fechar em cinco reais e quando fui pagar ele disse que era présa (presente) da casa, e, não aceitou conversa. Depois pensei: “Uma camiseta de vinte ele fez por quinze, me deu um Cd que deve custar por baixo dez, quinze menos dez ficam cinco, que é o preço de dois adesivos. Zerou. A camiseta saiu de graça”. Calculei isso em casa, claro. Fora a simpatia, que não é privilégio meu não, é com todo mundo. Estendi a mão agradecendo com um:

- Muito obrigado irmão, eu volto hein!

- Vá na paz de Jah, irmão.

Saí dali leve e grilado: “O que esse cara ganhou pra me fazer tão bem?” Sabe aquele lance que você diz: “Ganhei o dia”?
A camiseta já usei, o Cd já curti e o adesivo ta bem colocado no lado esquerdo do meu carro. Toda vez que eu passo e olho, lembro de um pequeno gesto, um sorriso largo, alguém me chamando de irmão e dos preconceitos que preciso me libertar. “Alguém me deu um sorriso e esse adesivo”. É o que vem à minha mente.

 Os pássaros que a gente deixou de matar de baladeira (estilingue) ou de prendê-los em gaiolas retribuem cantando sinfonias, manifestando a glória de Deus, as árvores que a gente preserva evitando queimadas e desmatamentos, agracedecem com  flores, um clima melhor e um ar mais puro manifestando a glória de Deus. E um ser humano, primícia da criação, que agente simplesmente para na frente dele, e, ele retribui com manifestações que vão de ternura a acalanto pra alma, manifesta o que? A glória de Deus.

Agora, caminhar, beber, crescer no conhecimento…, cabe a mim e talvez a você, dar procedimento sempre que fizer aquela “parada obrigatória” na Torre de TV. Ele estará lá pra quem quiser conferir.

Pra concluiu (eu já deveria ter parado) me veio outra “linha” que deve atrapalhar meu sono: Será que o “Figura” não é um cristão fazendo evangelismo com CDs e adesivos, nadando conta a correnteza do “Rio Anti-Cultura” da igreja pós-moderna?

Um xêro pra quem gosta da gente.

Rubão

22
jul

Cadeira “O” Zero um

   Posted by: Rubao   in Papo aberto

imagem-003.jpgSábado próximo passado recebi um convite de um amigo pra assistir ao show da Miúcha . Todo mundo sabe que ela é irmã do Chico Buarque e que faz parte da velha guarda da Mpb. Confesso que mesmo sabendo que ela é boa, Miúcha não era um nome que me encantasse aos ouvidos talvez até pela injustiça da mídia.

O show aconteceu no Teatro da Caixa Cultural, Brasília. Meu amigo que comprou os ingressos, dele, da espose e meu, antes mesmo de perguntar se eu queria ir ao show (uma audácia) compro o último ingresso, o meu, achando que havia feito ”grande vantagem”, e fez.

Quando eu olhei meu ingresso escrito: Inteira “O – Zero Um” Eu pensei, “Que presente de grego”. Se “O” já é fim de alfabeto, deve ficar lá atrás, lógico, e 01 é a primeira cadeira que sempre começa no canto, grudada na parede, ou seja, além de ser fundão, não era no centro. Mas crente que é crente não sai de um lugar qualquer que seja sem dar pelo menos dois “glória a Deus!” nem que seja com raiva.

Como estava no convite, 20h30 em ponto, entram sob uns poucos aplausos, três rapazes com mais de cinqüenta, e, em seguida vestindo um conjuntinho lilás e com aquele mesmo caminhadinho miúdo (Miuchado) que o Chico imprime quando se deixa filmar, Miúcha entra cantando “Samba do Avião”. Maravilha. Ela deu um show de comunicação, interpretação, simpatia e história da MPB já por que os mestres faziam roda na sala da casa dela. Era possível ouvir até sua respiração. Que mixagem! E eu estava na “O” Zero Um, mas esse povo faz tudo de tal forma que de qualquer lugar você tem uma boa visão e ouve tudo.

No ingresso estava escrito: “Não será permitida a entrada após o início do espetáculo”. E nem precisava, todo mundo chegou na hora. Nos nossos eventos não, a gente não começa a cantar na hora e a galera só chega quando o som já começou, sem falar que fica aquele “trem” de gente saindo e entrando. A gente não vai pra um evento desses pra ficar comparando, mas seria muita ignorância não perceber nossa ignorância, e ainda temos que ouvir críticas a quem faz arte com responsabilidade com a alegação de que é música mundana. Eu tenho um amigo que radicalizou e não ouve música que não seja cristã, aí eu sugiro: Que tal parar de cantar “Parabéns pra você”, “Hino de time de futebol”, “Hino Nacional”, “Com quem será?…” Isso é tão popular quanto “Como é grande o meu amor por você” de Roberto e Erasmo Carlos que na voz de Fagner é quase um dos “Cânticos de Salomão”. E pra radicalizar que hoje eu tô é invocado, sugiro eliminar “Castelo Forte”. Um dos hinos mais tradicionais do hinário cristão feito por Martinho Lutero em 1529, O cara que grilou com a igreja Católica encabeçando a Reforma Protestante. Ele Aproveitou das melodias folclóricas (populares) do seu povo, com requisito que fossem apropriadas para cultuar a Deus e colocou letra. Veja o que ele escreveu: “A música é a bela e gloriosa dádiva de Deus… A música transforma os homens em pessoas mais gentis, mais auto-controladas e mais razoáveis.” E mais: “Não pretendo deixar para o Diabo as melhores melodias!” Certamente referindo-se às belas melodias populares.

E Como já disse, o show começou às 20h30 em ponto, evento de crente sempre começa muito depois, geralmente colocam um cara que fala alto (grita), despreparado e pronto pra “encher lingüiça”. Um vez a gente veio fazer um show aqui em Brasília e o “cara” chegou pra mim e falou:
– Você é o vocalista?
Respondi .
– Sou
- Qual o seu nome?
Ham? Fingindo não ter ouvido a pergunta direito. Paia né? A próxima pergunta seria: – Qual o nome da sua banda? Risos…

Sem falar que sempre colocam uma banda pra fazer a abertura, com a velha missão de “encher lingüiça” e trazer sua Comunidade se for grande (visão e/ou revelação) isso acaba menos ruim quando o líder não vem junto pra dar uma palavrinha de 40 minutos. Eu mesmo já fiz isso. Uma vez em Anápolis com um grupo chamado Mel, em que eu, Beto, Augusto Ventura e uma galera fomos abrir um show (18 anos atrás) do Expresso Luz que na época tinha a liderança e os vocais de Carlinhos Veiga. A gente cantou umas 17 músicas. Caramba, que vergonha! Eles tiveram que tirar 60% do repertório. Será que o Carlinhos já me perdou? Eu não. Hehe!

Miúcha estava acompanhada de Ricardo Costa na bateria, Jamil Joanes no baixo e Leandro Braga no piano. Que timaço. Ela cantou Tom Jobim, Vinícius e Chico Buarque.

Eu por um bom tempo, tentei entender como uma bateia poderia tem um som tão limpo, tão na medida, e isso com muita sincronia com o baixo e o piano, (bem diferente da crentaiada) sem falar da voz nítida e acima dos instrumentos (não o contrário, nosso caso.) ao ponto de eu dar um “Glória a Deus!” Claro que como bom presbiteriano, mandei baixinho, hehe!! A cantora embora não mandasse ali, um “hino do cantor” cantava com a alma citando com respeito e maestria os nomes que fizeram a história da Bossa Nova, bem diferente da nossa turma que se nega a reconhecer sua própria história e “nem sabe” que se hoje temos bateria e guitarras em nossas igrejas, é porque figuras como Janires, VPC, Logos, Bomilcar e outros, deram o sangue e a cara quebrando tabus, e, a massa ignora. Nem sabem que “Só o poder de Deus” só se canta em samba por causa dessa da MPB.

Emocionei-me ouvindo Miúcha e seu Trio que, em alguns momentos se permitia envolver-se de sentimento ao ponto de contagiar a todos, noutras, olhava pra cima como quem dizia: “Senhor eu não te conheço, mas essa é pro Senhor”. A música às vezes chega a um ponto que, de tão forte, se não pra Deus ela vai pro espaço. E tem gente que quer dar tudo pro… Há! Se Lutero que foi o cara, não entregou, eu vou entregar? È ruim hein!

Cinco minutos antes de começar o show duas mulheres numa outra fileira conversavam atrapalhando a concentração de quem esperava o início, quando de repente uma falou: Olha, vai ter show de Simone, Zélia Duncan, e também da Adriana Calcanhoto e… Quem é esse Carlinhos Veiga? Confesso que fiquei em dúvida se tinha ouvido direito, mas estava lá na revistinha de eventos, eu conferi. O show já ia começar, mas deu tempo de soltar um “gloria Deus!” Carlinhos é meu brother, tem um trabalho maravilhoso com música Popular Regional e é apaixonado por Jesus. Ele é o mesmo que eu citei lá atrás na história do Expresso Luz, lembra? Pois é! Fiquei muito feliz em vê-lo ao lado de nomes fortes da MPB, infiltrado no cenário pra ser luz, e, quem sabe, numas dessas, dizer pra Simone, Zélia, Adriana,… ou a Miúcha que tem um Deus, o Senhor da arte e criador da música, que está pronto pra ouvir o canto que sai da alma. E que naqueles momentos que elas cantam e esses cantos saem como um grito de sede d’alma. É pra Ele que estão cantando, até por que, Ele é a Água da Vida.

Eu prefiro ouvir essa galera que às vezes padece por ignorância, que aqueles caras, que dão uma viradinha pra gente (banda) e dizem: – Irmão, toca mais “uma” bem animada, que chegou mais gente e eu vou recolher nova oferta ao “Senhor”.

Eu vou ficando por aqui… Como deu pra ver, a cadeira “O” Zero Um, não foi o pior lugar.

Um xêro pra quem gosta da gente.
Rubão

16
jul

O menino que aprendeu porque matou aula

   Posted by: Rubao   in Papo aberto

casa-de-interior.jpgPedra Bonita é uma pequena cidade de interior desse mundão de meu Deus. Dizem que recebeu esse nome por causa de uma mina que havia nas redondezas. Três  léguas (18 km) pra frente,  está Sagrada, uma currutela (cidade pequena) que fica ao norte e ainda faz parte do município de Pedra Bonita.

Sagrada é um daqueles povoados típicos que aparecem desenhados nos livros de 6ª série. Uma igrejinha, um pequeno campo de futebol, meninada correndo, animais no pasto, casas simples, velhinhos olhando o movimento e uma curva indicando a entrada da cidade, cercada de morros.

Nasce mais um dia em Sagrada, o sol mandou apenas um leve tom avermelhado nas colinas enquanto as casas aquecidas pelo aconchego começam a despertar ao som  dos galos de plantão. As mulheres como sempre, levantam primeiro pra cuidar dos afazeres da casa e, a fumaça das chaminés mostram suas caras, seguidas de um cheiro forte de café torrado. Humm! Daqueles que dá água na boca. É o ritual de todos os dias.

Na esquina da pracinha da matriz, está o comércio de seu Tarcísio, o Magarefe (açougueiro), um dos primeiros da cidade a acender o lampião. Muito barulhento já vai logo abrindo duas portas de madeira rústica, ele só perde pro seu Nezim da Padaria, que atende na esquina defronte (em frente),  esse parece que começa a trabalhar quando a cidade ainda nem dormiu.

Quem desce a Rua São Marcos, ou “Rua do Magarefe” como é popularmente conhecida, só tem uma opção: Dobrar à esquerda meio que voltando. Ali tem uma placa de madeira mal pintada, amarrada num pau, por um arame velho, com uma letra quase apagada escrito “Rua São  Mateus”. A rua não é grande,  suas casas são simples e de taipa (varas com barro), quase todas têm um jardim colorido na frente, e praticamente têm as mesma plantas, uma cancela (pequeno portão) e uns bancos fincados no chão pra embalar as  conversas de fim de tarde.

A última casa da rua, única pintada, já quase perdendo o seu branco original, tem o seu número, 13, feito à mão, com uma letra de quem pouco estudou e em tamanhos desproporcionais, mas ta lá. Coisa do interior.

O galo já cantou, dona Mariazinha passou (fez) o café, assou um cheiroso bolo de macaxeira (mandioca) e se prepara pra barrer (varrer) o terreiro (frente da casa) com uma vassoura feita de galhos de mato seco, enquanto seu Zé Crente que no papel (documento) consta José Rodrigues, mas ninguém o conhece  por seu nome, começa a juntar as ferramentas no quartinho que fica lá nos fundos perto do pequeno celeiro. Ele se arruma pra sair cedo, gosta de chegar na roça junto com o canto das juritis e os primeiros raios de sol.

Na casa, parece que tudo esta bem. A meninada já se levantou, tomou café e se prepara pra ir  à escola. è o primeiro dia de aula e, até lá, tem uma boa caminhada. Mas ta faltando Neném, o quarto dos sete filhos. – Havia Neném! (- Agiliza Neném!) Grita a mãe. Seu Zé Crente que não é  bobo, nem nada, disse:

- Tu num quer ir pra escola é porque ta doente né?

- É papai. Respondeu o garoto falando entre os dentes.

- Então tu vai pra roça  comigo, tu vai ficar “quétim”, só olhando,  mas vai.

O pai queria dar uma lição no filho pra que ele não inventasse mais histórias pra matar aula. Ele sabia a importância do estudo.

A época é certa, a terra já foi preparada, o dia ta radiante e seu Zé Crente não quer perder tempo. Ainda na porta da casa, da um beijo na  muié, tira a  boneta (boné) olha pra cima e faz uma oração. Então, segue seu caminho com o garoto, sob o olhar de dona Mariazinha que só desgruda quando eles somem lá longe no pé da colina. Todo dia é assim.

Bastante contrariado e com um “bico” na cara, Neném que só bibicou (comeu pouquinho) seu café, segue seu pai com a benção da mãe. Vai tangendo (guiando) o Jerico (jumento) que é tipo um membro da familia, ele havia sido enjeitado (desprezado pela mãe) e adotado com carinho por seu Zé Crente. O animal segue, arrumado com dois jacás (cestos feitos de taquara trançadas) cheios de ferramentas, inclusive o inseparável cutelo (tipo de facão com a ponta encurvada), uma cabaça (ou porunga, recipiente pra guardar água), dentro de um pequeno côfo (cesto feito de palhas) estavam as marmitas do almoço enroladas num pano de prato, uma dúzia de bananas bem arrumada num canto e quatro pães massa-fina (rosca), e, algumas sementes de milho em dois sacos de estopa (derivado do linho, mas rústico e resistente) bem distribuídos  na carga.

Depois de uma caminhada de 45 min, chegam ao pequeno terreno da família Rodrigues, separado por arame farpado em dois lotes: A roça e a solta (local destinado à criação de animais).  Seu Zé pára em baixo da jaqueira, que fica lá perto da segunda porteira. Tira a carga, coloca o jumento na solta e deixa-o piado (duas patas amarradas, uma à outra) pra que ele não se afaste,  e numa mistura de ansiedade e euforia, começa  o árduo, mas prazeroso trabalho.

- Preciso plantar pelo menos a metade da roça hoje. Disse em voz alta.

Neném que já estava “bom” tentava se distrair uma vez que seu plano tinha dado errado e, agora, restava-lhe esperar que esse dia voasse. Mas só estava começando. Ele então, depois de jogar algumas pedras numas pipiras (pássaros) que agitavam a jaqueira e ter reclamado suas mágoas ao jumentinho, começa a seguir o pai, com os olhos. Seu Zé segue obstinado em sua lida e nem sequer levanta a cabeça. O menino decide segui-lo mais de perto, corre em direção a ele e começa a observar com capricho cada passo do seu trabalho. Tudo fica registrado em sua mente. Nenhum detalhe lhe foge ao olhar, desde o suor escorrendo do seu rosto, hora pingando no chão, hora ensopando (molhando) a camisa desbotada e puída (desgastada, quase rasgada), até àquela vez em que ele tropeçou numas pedras que estavam à beira do caminho, quase caindo.

- Aqui será um lindo milharal. Exclamou o pai, tentando desfarçar seu tropeço. Enganou-se.

Uns meses depois, Neném chega pra seu pai e diz:

- Papai,  quero ir lá na roça de novo,  só pra olhar como está o milharal que a gente plantou.

- A gente? Háhá! Ta bom, sábado pela manhã a gente vai lá.

O pequeno Neném ou Jaílson Rodrigues, que tinha apenas 11 anos, não esconde sua ansiedade e vai estranhamente avexado (apressado) de um lado pro outro fazendo poeira e gritando com o jumento:

- Acunha, acunha! (corre, corre!).

Ele de longe, se encanta com o verde do milharal. Seu pai apenas observa suas reações. Não demora, e o pequeno “agricultor” inicia sua curiosa caminhada a partir daquelas pedras onde seu pai tropeçou, e começa a falar sozinho em voz alta:

- Aqueles passarinhos chatos comeram as sementes que caíram ali na beira do caminho, eu vi. As outras que caíram em cima dessas  pedras nem cresceram, deve ser porque tem pouca terra e por causa do calor do sol, as outras que caíram nesses espinhos, eu nem falei pro meu pai e até pensei que fossem crescer mais que os espinhos, mas eles é que as sufocaram, as outras… Da uma pausa. Elas estão bem aqui na minha frente, verdes e bonitas.

- Ta vendo meu filho que beleza?

- Humhum!

- Acho que vamos tem nossa maior colheita. Não é bonito uma plantação assim?

Ele tinha ouvido toda a conversa solitária do menino, e, com uma sabedoria que misteriosamente Deus só da ao homem do campo, ele comentou:

- Sabe Neném, a vida é como esse milharal, e nós como as sementes, quando a gente é ignorante e anda em caminhos errados, logo aparece algo mau, pronto pra nos devorar, como aqueles pássaros, mas quando a gente sabe o que é certo e dá lugar às mentiras hum! Você sabe que “mentira tem pernas curtas” né?

- Sei papai.

- Elas são como a terra em riba (em cima) das pedras, sem firmeza, quem usa “isso” quando vem a angústia, se magoa rápido e não resiste. Tem também aqueles que são orgulhosos, com um “rei na barriga” (metidos), esses  acabam sufocados como aquelas que caíram nos espinhos, e, esses pés bonitos são aqueles que têm bom coração, que amam seu próximo, que…

- Papai eu fui a semente das pedras, mas quero ser como esse aqui. Falou o menino segurando um pé de milho vistoso (bonito) que já mostrava suas espigas.

- É Neném! Você aprendeu com o ensinamento do campo, mas quer saber quem ta mais feliz que eu? É nosso Pai que ta lá em cima, Ele também ta lá com a mamãe e ta aqui no meio da roça ouvindo nossa prosa, e, com certeza, de alguma forma, Ele esta ensinando e recontando infinitas vezes essa mesma história de outras maneiras, pra outros “meninos”.

Quando você for “viajar” aproveite pra dar uma passadinha em Sagrada, e, pra conhecer melhor essa história,  pare pro café ou pra prosa do fim de tarde na Rua São Mateus, 13.

Neném nunca mais matou aula, mas tem uma história interessante pra te contar, e recontar e recontar…

Um xêro pra quem gosta da gente.

Rubão

arvore.jpgVocê já subiu numa árvore? Eu passei minha infância subindo em árvores. É uma brincadeira meio fora de moda, mas cá pra nós, subir em árvores é muito melhor que quatro horas de Playstation 4. É bem verdade que os dois têm algo em comum, gastam energia. Todavia um deixa você forte, rápido, em contato direto com a natureza e com uma sensação próxima ao vôo de um pardal, o outro te deixa rápido com os dedos, com princípio de L.E.R., com um torcicolo incompleto (por isso o cara não trata, e, ele nunca vai embora), com uma dificuldade tremenda pra entender o que os outros humanos estão falando e com os olhos que vão de arregalados a super-arregalados. Em alguns casos, depois de quatro horas de jogo o garoto leva mais duas pra desarregalar os olhos. O Pior é que meu guri ta doido pra ganhar um bicho desses, já tentei negociar o jogo por um pé de manga, mas ta difícil.

Você já subiu numa árvore? Quando eu era moleque, a gente subia pra tirar manga la na ponta do galho. Ha!  chupar manga em cima do pé, é muito melhor, além da fruta ser freca e evidentemente mais gostosa, a gente come com gosto, e só é bom mesmo quando lambuza a cara, (hehe!) ela escorre um caldo pelo canto do braço e vai até o cotovelo chegando a pingar no chão, uma queda (pingal) de 15 metros. Maravinha! Essa é outra experiencia única, mas aí tem uma manha pra você não sujar o calção e pegar uma bronca de “mainha” é só esfregar o braço no troco, sem muita força, pronto! Vai dar uma ligasinha, mas logo seca, um pouco. He!

Você já subiu numa árvore? Eu e meus amigos inventamos uma traquinagem, que ninguém mais fez. A gente subia numa árvore, pegávamos galhinhos de ramos secos, e tinham que ser daqueles ocos pra brincar de fumar escondido (coisa feia), vinha uma fumaça horrível, dava uma coceira na garganta e a certeza de que no mundo ninguém mais teve essa idéia ridícula. (Não faça isso em casa). Você conhece alguém que já fez isso? não né!

Tem coisa melhor que passar de uma árvore pra outra e depois pra outra, e pra outra… sem pisar no chão? Tá difícil. Ali esta o ambiente ideal pra brincar de Tarzan. Eu fiz muito isso.

Você já subiu numa árvore? Essa brincadeira foi inventada meio sem querer, por um menino, que na realidade não era menino, era um homem que tinha tamanho de menino, ou não? Daí a confusão, “um homem ou um menino?” Se ele era um menino, era tão esperto que pensavam que ele era um homem, se ele era um homem, foi tão esperto que pensaram que ele fosse um menino. (agora ficou fácil né? hehe!) meu apelido é Rubem no aumentativo, exatamente por que eu cresci muito. Não jóquei basquete por que não quis, mas em pleno vigor físico e com meus 1,72m, eu era o grandão lá em Codó MA ( esse MA, pode ser de Massachusetts), agora pense nos baixinhos… Lá pra nós, tem até um ditado só pra eles: ”Todo baixinho é invocado”. Então, entendendo que o invetor da brincadeira era baixinho, posso imaginar alguém com no máximo 1,49m pra ser modesto.

Você já subiu em árvore? Belém é uma cidade cheia de árvores. Todo mundo sabe que Belém é a capital do Pará, mas ele não morava em Belém, aliás, saindo de Belém tinha que passar primeiro por Jerusalém pra depois chegar em sua cidade, Jericó.

Se ele era um menino, era tão esperto que conseguiu enganar a todos de  Jericó ao ponto de ter ficado rico mesmo tão novo, ser chefe dos publicanos e o cara que mais arrecadava impostos na região inclusive roubando. Mas se ele era um homem, também era esperto por que com tamanho de menino, usava sandálias de couro com sete dobras grossas no solado pra dar a idéia de que era mais alto. Isso acontece até hoje, o cara usa um salto de 7cm, pensa que cresceu 15cm e a gente só percebe 1cm. Como 1cm não muda nada, pra nós ele continua baixinho do mesmo jeito.

Mas ele foi além, porque tinha o objetivo misterioso de pelo menos uma vez, ficar a cima de todos, e, arrumou um tamborete bem alto, daqueles que têm dois degraus, mas quando subiu, descobriu que ficou apenas com 1,70cm,  como o pessoal de Jericó tinha essa média, isso não resolveu e ele partiu pra próxima e brilhante idéia. Plin! Subir numa árvore e ficar mais alto que todo mundo. Dito e feito, dos galhos ele podia ver a pracinha, podia ficar em cima da rua, ficar olhando a meninada correndo lá longe, ficar escondido e até vendo o movimento na estrada lá embaixo.

Era um sábado de verão e a cidade estava agitada, mas ele sabia o que seu coração determinado buscava. Uma gritaria se aproxima lá embaixo quando de repente alguém grita – Ei! Ei! Tava me esperando? Eu sei que você é o Zaqueu, será que tem um pão de queijo lá em sua casa? Desce daí que eu tô com fome. Curiosamente sem falar nada, ele desceu de um pulo e foi com o novo amigo contrariando os murmuradores de Lucas 19. 

Gostei da atitude desse baixinho que não perdeu a oportunidade de encontrar-se a qualquer custo, com aquele que conhece até o coração arrependido de um ladrão de impostos, e, foi por causa desse ato de coragem que ele teve a honra de assar uns pães de queijo, fazer um cafezinho “da hora” e tomar sozinho com Jesus.

O baixinho Zaqueu, depois desse “encontro dos sonhos” com Jesus, não apenas tomou um café e ouviu histórias. Ele deu metade de sua grana pros pobres, devolveu quatro vezes mais aos que roubou, e, de lambuja ainda entrou pra história como “o cara que inventou a brincadeira de subir em árvores”.

Um xêro pra quem gosta da gente.
Rubão

1
jul

Ontem joguei uma pedra em Estevão

   Posted by: Rubao   in Papo aberto

israel-2.jpgEsses dias tenho pensado muito na história de um camarada chamado Estevão. Os relatos não citam sua forma física, daí conclui que ele nem era alto e nem baixo, nem gordo e nem magro, nem bonito e nem feio, nem cabeludo e nem careca, ou seja, um cara comunzão.

Só pra recordar, a história afirma que ele foi morto por apedrejamento em praça pública após desperdiçar a chance de ficar calado  ou pelo menos, de ser bonzinho em seu depoimento aos “homens” na “CPI dos Apaixonados”, aliás, paixão e eloquência marcaram a vida desse rapaz. Ele só precisava dizer que estava arrependido do que vinha pregando, e que na realidade todo pregador é gente boa, que Jesus era tão bom e importante  quanto Ghandi, Buda, Dalai Lama e outros líderes, e,  que todos os caminhos levam a Deus. Só isso.

Em seu depoimento além de citar personagens da história como Abraão, Isaque, Jacó, José e Moisés, ele provocou a fúria dos Deputados e Senadores da “CPI Mista” que investigavam denúncias de blasfêmia contra as Escrituras. Ele não poupou ninguém. Da até pra imaginar a cara da galera (membros da “CPI”), na maioria do PLAE (Partido Liberal dos Anciãos e Escribas) grilados com a ousadia do rapaz, afinal, era uma transmissão ao vivo em rede nacional.

A coisa esquentou quando ele afirmou que por convicção divina, Deus não se agradava com o carnaval, com padre pedófilo, com pastor garanhão, com político puxa-saco e corrupto, com cristão de fim de ano, com crente mau-pagador e todo tipo de safadeza, inclusive aquela reunião em que falsos testemunhas inventaram coisas a seu respeito.

Estevão termina suas palavras dizendo: “Vocês estão me roubando dois sonhos: Um é o de me casar, ter um lar e filhos, o outro é o de continuar levando essa mensagem de amor, paz e redenção aos homens. Mas como já sei que vou morrer, quero aproveitar e pedir àqueles que são mais sentimentais que por favor, não façam de mim um “santo”. Santo é aquele que é a razão da minha paixão , e, é por causa dEle que estou aqui orgulhosamente de cabeça erguida encarando vocês. E finalmente, a Deus, que tenha pena de vocês e não leve em conta toda essa fatal ignorância”.

O cara foi arrastado pra um lugar aberto em praça pública, enquanto ali, alguém já se destacava organizando a cena como se fosse um teatro. Não era.  Seu nome era Saulo, um jovem inteligente, cidadão romano, culto, estudou com Gamaliel o grande mestre e era conhecido pela rigidez e violência com que perseguia os cristãos em  nome da “fé”. Foi ele quem deu simetria ao apedrejamento de Estevão segurando as capas, organizando as filas,  separando as pedras “boas” e dando gritos de ordem tipo: “Acerte o dedinho”, “Jogue com mais força”, “ele merece isso, não tenha dó”. Assim morreu Estevão.

Um tempo depois desse fato, em mais uma de suas viagens em perseguição a cristãos, Saulo teve um encontro sobrenatural e literalmente caiu do cavalo,  ficou cego (por uns dias),  converteu-se ao cristianismo e teve seu nome mudado pra Paulo, tornando-se agora, um pregador e até inspirando o  nome da maior cidade do Brasil, São Paulo.

Um poeta maranhense amigo meu, Saul, escreveu o seguinte: “Foi aí que Saulo caiu do cavalo desceu do orgulho e renasceu, de Tarso a Damasco de Saulo a Paulo nasceu o apóstolo de Deus”. Esse é dos meus.

Apesar de todo apelo, a igreja insistiu em fazer de Estevão um “santo”. Acredite, ele é padroeiro dos pedreiros, dos coletores de impostos, dos cavalos (Europa), dos fabricantes de caixão e dos diáconos. É invocado contra as dores de cabeça. Na Suécia algumas regiões celebram “São Stefano” no dia 26 de dezembro. Os devotos saem às ruas pra invocar hinos em saudação ao “santo dos cavalos”. Imediatamente após o Natal? Só espero que a festa não seja maior que a do dia 25. Vou ser duro, mas creio que idolatrar Estevão, é de alguma forma, também jogar uma pedra nele. É contradizer sua mensagem maior.

A uns anos atrás, escrevi uma música chamada “Estevão” que fala sobre ele, lógico. Tem um trecho que diz o seguinte: “Quem nega sua fé também joga uma pedra no jovem Estevão”. É com vergonha que reconheço que ainda ontem eu perdi uma oportunidade de testemunhar minha fé em Jesus, talvez preocupado com a opinião dos “julgadores”. Não importa. Neguei minha fé, jogando assim, também, uma pedra no jovem Estevão.

Um xêro pra quem gosta da gente.

Rubão