Um adesivo serve pra muitas coisas, por exemplo: identificar que o dono é um policial (não serve pra cariocas e paulistanos), pra dizer que o dono agora faz faculdade, de preferência em cursos que dão status com é o caso de Engenharia da Computação, Odontologia, Direito, Psicologia e Medicina (esse só no primeiro ano), serve também pra mostrar que o dono é um babaca com frases tipo: “A sua inveja é do tamanho do meu sucesso”, “ E daí? É meu, ta pago!!”, “ Nóis é feim, mais nóis é facim”, “ 60 cavalos + 1 no volante”, “ Nóis é xique no úrtimo”, “veículos rastreado por fofoqueiros”, “Bobo é assim mesmo… tudo que vê, lê!” ou pra mostrar revolta com a política. “Velocidade controlada pelos buracos da Prefeitura”. Semana passada um cara parou na minha frente com um adesivo dizendo: “Eu tenho vergonha do meu Congresso”. Há também quem use pra identificar sua fé: “G12, eu fui”, “Tudo por Jesus, nada sem Maria”, “ Sou católico graças a Deus”, “Bruxa à bordo”, “MPC – Mocidade Para Cristo”, Tem até o cara que volta empolgado do Encontro de casais: “Eu amo minha esposa” e o cara que da mole pra seqüestrador: “Sandra, Juninho e Bia, papai ama vocês”.
Sábado pela manhã peguei minha Parati sem o adesivo “tem PARATI também” Hehe! E fui com a prole dar um roller na Torre de TV, a maior da América Latina, ponto turístico em Brasília que tem um elevador de 74m de altura equivalente a um prédio de 25 andares, de la o turista tem uma panorâmica maravilhosa. (Um professor meu de faculdade me disse certa vez que a expressão: vista panorâmica é errada, porque vista já quer dizer panorâmica. Faz sentido, mas nunca pesquisei, e na dúvida…), de um lado o Parque da Cidade, considerado “O maior parque urbano do mundo”, do outro, a Rodoviária do Plano Piloto, o Teatro Nacional e tendo ao fundo a Esplanada dos Ministérios com o Congresso Nacional, virando novamente à esquerda está o Estádio Mané Garrincha e o Autódromo, e, completando a volta, o Clube do Choro, logo atrás o Centro de Convenções e na seqüência o Memorial JK, que se confunde com o avermelhado e encantador pôr-do-sol do cerrado no mês de julho. Eu não ia falar não, mas da pra ver também o Lago Paranoá. Pronto! Turismo completo.
Na Torre, funciona ao seu redor desde 1970, uma feirinha de artesanatos, com roda de capoeira Regional (Aquela que é mais rápida, dos saltos mortais. Eu prefiro a capoeira de Angola, dos movimentos mais lentos, porém, estudados e cheios de malandragem), barracas de comidas típicas regionais como a de acarajé da Bahia, açaí do Pará, carne seca com macaxeira e manteiga de leite do Ceará e a de peixe frito com arroz de cuxá e guaraná Jesus do Maranhão. Artesanatos de todo tipo, sandálias de couro, camisetas machadas ou escritas “Estive em Brasília, lembrei-me de você”, arte em “pedra sabão”, estátua viva, músicos mostrando seu trabalho.
Gosto de ir a uma barraca atraente, que pode ser vista lá da Rodoviária, a do reggae com uma bandeira colorida de verde, amarelo e vermelho, nessa ordem, com um desenho em preto no meio. Quando alguém se refere ao reggae usando cores, deve manter o amarelo sempre entre o vermelho e o verde, o preto é livre desde que não altere a ordem. Essa é de lambuja. Hehe!
Sempre que vou à torre aproveito pra passar lá, dar uma olhar nas novidades e trocar um papo rápido. Encostei pra assinar o ponto, depois de ter comprado, duas barracas antes, um colar com um tucano muito invocado e diferente que me caiu muito bem no domingo à noite sobre uma camiseta branca de mangas compridas.
Na barraca do reggae ta sempre rolando um reggae, lógico! Muitas opções de boinas, calças, camisões, pulseiras e colares. Eu gostei de uma camiseta. A moça me disse que custava R$ 20,00 e fui pagar pro dono, um figuraça, já passando dos 50, com seus dreadlocks longos, uma boina jamaicana, um visual sempre carregado de cores (a crentaiada passa longe) e uma simpatia só. A primeira coisa que acontece com um sujeito desses quando chega a uma igreja, é receber um manual: “101 razões pra você cortar esse cabelo, tirar essas roupas e colares e se integrar “culturalmente” à nossa Comunidade experimentando uma mudança genuína”. Hunrum!
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Depois de literalmente nadar entre camisetas até chegar ao centro esquerdo da barraca onde ele fica controlando o som e sempre conversando com alguém demonstrando amistosidade, soltei:
- E aí meu irmão, tudo na paz?
- Olá irmão, Paz de Jah! (Paz de Deus!). – Saudou-me ele, me estendendo a mão e continuou.
- Você ta sumido, mas sabe que aqui é sua casa né?
- Paz de Jah! Tô sumido mesmo, mas sempre voltando. Cara eu separei essa camiseta, achei maneira.
- Muito legal mesmo, vai cair bem pra você, quanto ela te cobrou? – Falou ele baixando o tom da voz e apontando pra vendedora, com um balançar de cabeça.
- Vinte Reais.
- Ô menina! Pro irmão aqui é pra dar um desconto que ele é gente fina, anota aí só quinze. – Gente fina eu? Nem estou comprando muito e nem puxando o saco. Pensei.
- Valeu mano. Que som é esse que ta rolando? Muito legal.
- É um cara novo. Muito bom né? Pode ficar pra você, depois me conta se você gostou. – Disse ele me mostrando a capa e me deixando ainda mais, com cara de espanto (bobo). Tava rolando uma letra falando tipo: “O único Caminho…”
- Que é isso… Mas obrigado. Eu fiquei meio desajeitado, não é sempre que alguém faz uma “graça” pra mim. Criei coragem e disse:
- Eu tenho alguma coisa gravada, umas pedras (reggae) vou trazer aí pra você sentir o som.
-Trás mesmo. Vou ouvir com certeza, aposto que de você vem coisa boa. Aproveita e escolhe um adesivo aí. Qualquer um.
Terminei escolhendo dois pra fechar em cinco reais e quando fui pagar ele disse que era présa (presente) da casa, e, não aceitou conversa. Depois pensei: “Uma camiseta de vinte ele fez por quinze, me deu um Cd que deve custar por baixo dez, quinze menos dez ficam cinco, que é o preço de dois adesivos. Zerou. A camiseta saiu de graça”. Calculei isso em casa, claro. Fora a simpatia, que não é privilégio meu não, é com todo mundo. Estendi a mão agradecendo com um:
- Muito obrigado irmão, eu volto hein!
- Vá na paz de Jah, irmão.
Saí dali leve e grilado: “O que esse cara ganhou pra me fazer tão bem?” Sabe aquele lance que você diz: “Ganhei o dia”?
A camiseta já usei, o Cd já curti e o adesivo ta bem colocado no lado esquerdo do meu carro. Toda vez que eu passo e olho, lembro de um pequeno gesto, um sorriso largo, alguém me chamando de irmão e dos preconceitos que preciso me libertar. “Alguém me deu um sorriso e esse adesivo”. É o que vem à minha mente.
Os pássaros que a gente deixou de matar de baladeira (estilingue) ou de prendê-los em gaiolas retribuem cantando sinfonias, manifestando a glória de Deus, as árvores que a gente preserva evitando queimadas e desmatamentos, agracedecem com flores, um clima melhor e um ar mais puro manifestando a glória de Deus. E um ser humano, primícia da criação, que agente simplesmente para na frente dele, e, ele retribui com manifestações que vão de ternura a acalanto pra alma, manifesta o que? A glória de Deus.
Agora, caminhar, beber, crescer no conhecimento…, cabe a mim e talvez a você, dar procedimento sempre que fizer aquela “parada obrigatória” na Torre de TV. Ele estará lá pra quem quiser conferir.
Pra concluiu (eu já deveria ter parado) me veio outra “linha” que deve atrapalhar meu sono: Será que o “Figura” não é um cristão fazendo evangelismo com CDs e adesivos, nadando conta a correnteza do “Rio Anti-Cultura” da igreja pós-moderna?
Um xêro pra quem gosta da gente.
Rubão





