Esse dias tive um sonho que me deixou encucado. Tudo que sei é que era sobre um filme, daqueles que a gente acorda pensando que foi verdade. Tinha além de mim, mais dois sujeitos. E assim como em todo filme que se preza, aquele também tinha o ator principal, aquele que faz a gente chorar no final, o coadjuvante, o cara que só atrapalha as coisas e o figurante, aquele que ninguém lembra. Não foi por falta deles que o filme não foi um sucesso.
A cena se dá dentro de um banco. Eu cheguei praticamente junto com mais dois caras, se bem que o rapaz negro, de terno, estava um pouco na minha frente, o outro, branco de camisa social, estava um pouco atrás de mim, mas quase não se percebia a ordem de tão próximos que estávamos. Seria uma questão de bom censo. Muitas pessoas chegaram logo em seguida.
Uma funcionária muito simpática se apresentou para organizar a fila e perguntou: Quem de vocês chegou primeiro? O rapaz branco quase que de um pulo se apresentou como sendo ele. Eu fiquei em segundo e o outro em terceiro.
Criou-se ali um clima desagradável, mas o cara da frente não estava nem aí pros meus murmúrios, enquanto isso, o outro dizia: “Você passou na nossa frente e esta errado, mas eu não vou brigar com você, embora contrariado”. O cara ria como se não fosse com ele e com ar de conquistador não perdeu tempo em paquerar a moça que organizava a fila. Ele era branco, simpático, alto, bem vestido e tinha uma voz firme mostrando-se muito inteligente. Portador de uma lábia invejável encantou até as caixas que se tocavam como que dando bolas. Como ele se apresentou, percebi que seu nome era João.
O cara atrás era negro, não alto, estava de terno, tinha um brilho nas bochechas, um olhar sereno, e usava um bigodinho fora de moda. Como alguns o cumprimentaram, soube que seu nome era Rei. O Sr. Rei não perdeu tempo e me disse: “Esquenta não, isso sempre acontece, mas um dia vai acabar”. E me deu um folheto, de um monte que carregava dentro do paletó com uma foto de uma cruz e uma mensagem com o título “Sua vida ainda tem jeito”. Só depois que fui ler. Um significado muito forte pra quem teve um dia atribulado.
Atrás de mim, havia uma turma muito agitada com a demora no atendimento e com o cara que passou na nossa frente, mas Rei com uma voz mansa e um domínio impressionante sobre o público consegui acalmar a todos falando umas coisas sobre paz, respeito, direitos e deveres e sobre o amor de Deus. Todos pararam pra ouví-lo inclusive eu e o guarda do banco. A essa altura, João já no caixa, pegou um talão de cheques e segurando a mão da bancária anotava seu telefone num papel. Nunca vi aquilo. E eu no meio observando os extremos.
Acordei impressionado com aquelas cenas, e, folheando a memória descobri que aqueles rostos não me eram estranhos, eram dois caras famosos. Pelo menos em sonho, eu os vi de perto. Uau! João na realidade era John F. Kennedy. Ele foi presidente dos EUA e ficou na presidência por 1000 dias, período esse, que ficou marcado pelo lançamento de uma ambiciosa política trabalhista, o crescente envolvimento dos EUA no Vietnã, o fracasso da invasão de Cuba e a crise dos mísseis. Foi um bom Presidente, mas depois descobriu-se que tinha problemas com bebidas, festas na Casa Branca e várias amantes.
O Rei, era Martin Luther King, negro e pastor Batista que se tornou um dos mais importantes líderes do ativismo pelos direitos civis (para negros e mulheres, principalmente) nos Estados Unidos e no mundo através de uma campanha de não-violência e de amor para com o próximo. Tornou-se a pessoa mais jovem a receber o Premio Nobel da Paz em 1964.
Descobri então que além de colegas de um filme que nunca será lançado, Rei, João e eu, temos algo em comum: o ano de 1963. Foi em 22 de novembro de 1963 que o então Presidente dos EUA, John Kennedy foi assassinado com dois tiros vindos do 6º andar de um Depósito de Livros Escolares enquanto desfilava em carro aberto em Dallas, Texas. Foi no dia 28 de agosto de 1963, que o pastor Batista Martin Luther King fez seu histórico discurso “Eu tenho um sonho” tornando-se o maior nome da luta pela igualdade racial da história dos EUA e talvez do mundo. E foi no dia 30 de março de 1963, que eu nasci de parto normal, de parteira, em casa, no bairro de Fátima em São Luis do Maranhão. Filho único (coisa rara na minha época e no nordeste…) eu diria que: “Eu sou apenas um rapaz, latino americano sem dinheiro no Banco, sem parentes importantes e vindo do interior” Belchior.
A pergunta é: Além do ano de 1963 o que mais eu e eles temos em comum? Nada, ou um só um “filme”. Eu, o figurante, graças a Deus não me pareço em nada com João, o ator coadjuvante que tumultuou a cena, e, infelizmente estou muito longe de ser tão crente e lutador quanto Rei, o ator principal.
Um xêro pra que gosta da gente.
Rubão

