Já cantei muitas vezes em São Paulo e numa delas aconteceu um lance muito curioso. A casa tava cheia, a galera cantando nossa música. Isso ajuda que é uma maravilha, é meio show.
Fiquei muito empolgado com a resposta das pessoas, o feedback foi total. Coisa ruim é tocar ou fazer qualquer outro tipo de arte sem sentir o brilho dos olhos das pessoas. Você se sente um verdadeiro 3 em 1 tocando um cd qualquer pra que algumas pessoas conversem, tomem um café ou façam qualquer outra coisa, mesmo prestar atenção em você. Não foi o caso, graças a Deus. Naquele dia a coisa tava tão boa que teve até o tal; Bis!Bis!… Sem falar no tanto de cd’s que vedemos. Nem sempre foi assim viu!
Sim, mas e daí! Vou falar agora. Ora, pois! Era um sábado frio da noite paulistana, daqueles de deixar pinguim resfriado. Eu com a minha velha e inseparável alergia, me segurei como pude dopado de remédio, mas deu pra cantar legal.
Já lá fora, entre uma foto e outra, um autógrafo e um papo rápido com a galera, uma senhora de idade, baixinha e bem bonitinha (bonitinha na minha terra, não é uma feia arrumadinha, é uma maneira carinhosa de destacar a beleza) me procurou, deu dois beijinhos e disse: Parabéns pelas músicas. -Muito obrigado. Respondi. A tia acabara de ganhar uns pontinhos comigo, primeiro pela jovialidade e segundo por entender minha linguagem que não é própria pra 3ª idade, mas que sempre teve uma boa aceitação.
O papo tava bom e ela perguntou – Escuta, aquela música que fala sobre o Tom Jobim e o Jorge Bem Jor é sua? Uau! Mais pontinhos. Tem cara jovem que passa batido e não entende a música, aí me aparece uma velhinha que capta de primeira, afinei. A letra da música fala o seguinte: “Antonio cantou são as águas de março fechando o verão, Jorge falou Bem ou mal em fevereiro tem carnaval.” Respondi que sim, encantado com a coroa.
Já ensaiando pra ir embora ela volta e solta uma: Eu tô chegando pra igreja agora, tô gostando, e, tô aprendendo que pra ir pro céu é preciso confessar Jesus com Senhor e Salvador. Mas a parada é que ouvindo o som de vocês, que eu não conhecia, gostei muito e até estou levando alguns cd’s pra curtir em casa ( essas gírias não são imaginação do autor, a velhinha mandava bem mesmo). – Sabe a sua música me lembrou muito um amigo brilhante e queridíssimo, o próprio Tom Jobim. Nossa! Até gaguejei, mas segurei a pose. – Ah! Quantas vezes sentei com ele pra tomar uma cervejinha, jogar conversa fora e ouvi-lo tocar na praia de Ipanema. Foram tantas vezes que nem conseguiria contá-las. Você o conheceu pessoalmente? -Infelizmente não. Respondi. – Pois bem, ele era um homem fantástico, o Tom tinha um coração generoso, não conheci artista igual, ele escrevia canções com a alma, ele tinha uma luz própria. Pelo que ele era de tão cristalino é que eu fico meio confusa e creio que ele foi pro céu, não faz sentido uma pessoa tão especial não ir pro céu, você concorda comigo?
Não é fácil responder um “não” assim na bucha, mas também não é difícil quando a resposta não esta firmada naquilo que você acha, e sim no que o próprio dono do céu diz a respeito disso.
E falei o seguinte: O cristão tem como base de fé e ordem a bíblia crendo que ela é a Palavra de Deus, ou seja, aquilo que Deus pensa ou quer que façamos sobre qualquer assunto. Isso é básico senão, é qualquer outra coisa menos cristianismo. Olhe o que ela diz: “Se com a tua boca confessares ao Senhor Jesus e em teu coração creres que Deus o ressuscitou dentre os mortos, serás salvo.” Romanos 10:9. Mas tem que confessar.
O fato é que aquela senhora queria um “jeitinho brasileiro” pra mandar o Tom pro céu. Eu continuei; Graças a Deus, ele não era melhor que a senhora, não era melhor que eu e não era melhor que aquele menino lá do morro; e nem pior. Pra Deus somos todos iguais e precisamos confessá-lo independente das honras, impérios, fama ou status que estocamos aqui. Não tem outro jeito, e é até justo.
A tia deu uma caída no semblante, balançou os ombros, deu um tchauzinho e foi embora desiludida. Ela continua com os pontinhos comigo, mas nada me garante que ela não tenha ido procurar outra pessoa que lhe assegure que aquele que teve uma “áurea” na Mpb, cantou com Sinatra, cedeu seu nome a um Aeroporto Internacional e encantou o mundo com sua genialidade musical única e dada por Deus, tenha conseguido por “seus méritos” e com a ajude de um jeitinho brasileiro, entrar no céu.
Um xêro pra quem gosta da gente
Rubão

