Na semana passada, recebi em minha casa a visita de três camaradas de Caruaru – PE. Não é muito comum por aqui, receber visita de pessoas usando chapéu de couro com zabumba, triângulo e sanfona na mão, mas eu gostei. Eles são músicos do grupo Louvor Rural, ligados ao Sal da Terra. Vieram trazer um abraço de um amigo, o Marcos André do Sal da terra, e, me chamar (com muito jeitinho e desconfiados) pra tocar com eles em algumas apresentações aqui em Brasília. Os caras estavam vindo de BH num Monza ano 92, eu creio. O carro não tinha vidros elétricos, ar condicionado, travas nem direção. Tinha um bagageiro cheio de instrumentos, alguns CDs, muita poeira e uma alegria que me deixou envergonhado. Daqui voltariam pra Caruaru, 2.200 km.
Fiz cara de desconfiado e explodi, por que não sou cara de guardar desaforo e fui logo explicando como eu sou: “Só o fato de vocês serem amigos do meu amigo Marcos, já são meus amigos de tabela. Pronto! E, a cara eu já tenho, cadê meu chapéu de couro?” Jorge (voz e triângulo), Firmino (voz e sanfona), Damião (voz e zabumba) e eu (violão), tava formada a banda de forró Pé de Serra. E eu disse mais: “É só vocês não dizerem nada que o povo não vai nem desconfiar, eu arrocho minha sandália de couro e capricho no sotaque…” Dito e feito.
Coisa boa é andar com gente boa. E aí a gente vai ouvindo as histórias e vai percebendo que está há “anos luz” dessa turma… Uma dessas histórias me chamou muito a atenção, e, foi o próprio, com testemunho dos companheiros, quem me contou.
Todo mundo precisa conhecer Damião. Um cara magro, negro, usando um óculos com armação bem grossa e antiga, de lentes grossas tipo fundo de garrafa. Sete graus de alguma coisa. Têm dois tipos de grau forte, um é aquele que deixa o olho do sujeito pequenininho que nem de chinês e o outro é o que aumenta o tamanho do olho dando a idéia de que o cara ta sempre assustado. Pronto! É esse.
Depois de tocar no Rio de Janeiro, ano passado, o grupo Sal da Terra pacientemente esperava seu vôo pra Recife, quando se ouviu uma gritaria no saguão. Era um camarada muito revoltado com pinta de artista, cheio da razão, usando todo seu repertório de palavrões pra afirmar sua indignação pelo atraso do vôo apesar do tempo nublado lá fora. É aí que entra em ação “o cara com nome de santo”, Damião.
- Ôxente, macho! Pra que esse alvoroço todo? Você ta parecendo um mandacaru arrepiado visse! Já pensasse se todo mundo ficasse assim?
–Meu amigo você ta falando assim por que não me conhece e não sabe a pressa que eu tô, isso aqui é uma… (palavrão), to com vontade é de quebrar tudo.
- Sim homi, mas eu também to com pressa e to tranqüilo. Olhe! Gritar não vai ajudar em nada, muito menos xingando.
- O lance é que você não sabe de nada, eu sou músico profissional e trabalho com muita grana, cada minuto parado aqui, é uma grana que eu to perdendo. Esse mundo é assim, a gente faz tudo por dinheiro e esses caras ficam aí enrolando e fazendo pouco caso da cara da gente.
- Ta muito bem, mas músico eu também sou e não vou me desesperar. Quem você ta pensando que é quem pra querer passar na frente de Deus? A gente só vai sair daqui quando Ele quiser. Ta entendendo?
- Eu sou… Já ouviu falar de mim? Sou guitarrista do Lulu Santos e ganho muito bem pra trabalhar pro meu chefe. E você, quem é?
- Eu? Eu sou o irmão Damião, zabumbeiro do Sal da Terra, e sabe o que eu ganho? A alegria da salvação em Cristo Jesus. É pra Ele que eu toco, e é por isso que eu não vou perder o juízo. Olhe! Nada acontece sem que Nosso Senhor permita. Eu vou me desesperar pra que siô? Cara, tu ta assim, é, porque tu ta servindo ao Senhor errado. Eu já saí fora dessa há muito tempo. Mas Deus pode te dar paz na alma.
- Você tem razão irmão… Damião Né? Meu negócio é dinheiro e mais dinheiro, se rolou grana, to dentro, mas quanto mais eu corro, mais eu não alcanço e eu continuo vazio no meio disso tudo.
Pra resumir, a história termina com “irmão Damião” (é assim que ele se apresenta sempre) indo buscar a bíblia, lendo um texto, e orando pelo guitarrista em pleno saguão do Galeão. O rapaz nem soube como agradecer e ficou amigo do zabumbeiro. Diz Damião que fez até uma oraçãozinha pro vôo atrasar mais ainda só pra ter mais tempo pra conversar. He!
Fiquei curioso e fui buscar mais informações sobre ele com os parceiros Jorge e Firmino. Eles me contaram que uma turminha quis inventar uma fofoca sobre Damião lá em Caruaru e foram fuxicar pro pastor dele. Daí a surpresa: “Vocês não conhecem Damião, mas eu vou dizer como é que vocês vão fazer pra ficar sabendo que ele é. Quando ele tiver vindo na estrada, se escondam dentro do mato enquanto ele passa. E vocês vão conhecê-lo. (Ele freqüenta e ministra o louvor numa congregação a 8 km da cidade). Ele vai e volta a pé por uma estrada de chão cantando e glorificando ao Senhor todo dia. Eu mesmo já fiz isso varias vezes só pra confirmar. Disse o pastor. Eles envergonhados deixaram “suas pedras” e foram embora, me lembrando os fariseus.
Essa é apenas uma das histórias desse rapaz que começou a beber aos sete anos de idade, que por muitos anos tomou uma garrafa de pinga no café da manhã, tornando-se assim, a vergonha da sociedade. Ta fazendo oito anos que ele descobriu o amor de Deus por ele, e não parou mais de testemunhar isso.
Damião me disse que tinha um sonho. Ter um fusca pra botar na obra e levar o pessoal da redondeza pra igreja. Pois bem! Um irmão aqui em Brasília ficou sabendo (semana passada, claro!) e disse: “Irmão Damião, pode tirar sua carteira que o carro você já ganhou”. Ele não fez a “Campanha da Fogueira Santa” e nem pediu um carrão pra Deus, mas duvido que o carro seja um fusca.
Damião não tem apenas nome de santo, ele…
Um xêro pra quem gosta da gente.
Rubão




