Archive for the ‘Melhores Artigos’ Category

4
ago

Quem canta atrai ou espanta

   Posted by: Rubao   in Melhores Artigos, Papo aberto

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Me contaram uma história e eu creio que seja verdadeira até porque a fonte é rigorosamente confiável. A história fala de um agente penitenciário que tentou suicídio depois de uma movimentação de fuga no presídio que ele trabalhava.

E por falar em suicídio eu tive a curiosidade de saber o que isso representa em números. Veja esses dados: Em 2004 a média nacional era de 4,5 mortes por 100 mil habitantes, no Japão essa média chegou ao absurdo de 25 mortes por 100 mil habitantes. Da até medo. Nem quis me arriscar a ver os dados de hoje.

Recentemente em Taguatinga-DF, um policial militar, depois de uma crise de ciúmes da ex-esposa, atirou nela e depois se suicidou. Os jornais estão cheios de histórias semelhantes tanto que já nem nos incomodamos mais, aceitamos como mais um caso de fraqueza ou de desequilíbrio emocional, coisas dos tempos modernos.

E fica uma pergunta: O que será que leva alguém ao extremo de dizer: “Pra mim, morrer é a única opção” ou “Não existe mais sentido na vida, vou me matar”? Há quem diga que a música acalma a alma, tem até a história de um rei que quando estava atribulado com insônias e perturbações noturnas, mandava chamar um músico, um cabra dos bons. E quando o músico cantava o rei se sentia aliviado e dormia tranquilo. Há um ditado popular que diz: “Quem canta seus males espanta” e pelo jeito, dependendo da música e de quem canta perece que espanta até os males dos outros com é o caso do rei.

Sim, mas a história do agente penitenciário ou carcereiro me chamou atenção, primeiro pelo nome, Raimundo Nonato da Silva, não poderia ser mais maranhense e consequentemente conterrâneo que isso, aliás, poderia se fosse José de Ribamar da Silva com esse nome você acha de doutor a estivador. Mas seu Raimundo intimamente chamado de Mundinho também me chama atenção por sua reputação. Um cabra reconhecido com um bom pai, um bom esposo, um companheiro verdadeiro, e um profissional competente, assim dizem os colegas de trabalho, enfim um sujeito com a dignidade de comer do suor do seu rosto e a devoção de ir ao Maranhão pelo menos de dois em dois anos pra visitar sua gente.

Olhe! Pra ele não tem coisa melhor que reencontrar Painho, mainha, a primaiada, amigos de infância, e parte dos nove irmãos que ainda moram lá em Axixá. Ele aproveita ainda pra rever a pracinha da Matriz onde rolou o primeiro beijo, o Rio Munim de tantos saltos mortais e peladas na prainha e relembrar os tempos de “brincadeira com a rapaziada” como é carinhosamente chamada a participação no batalhão ou simplesmente na dança do Bumba-meu-boi. A cidade é muito conhecida pela expressão artística e cultural do famoso Boi de Axixá, um dos mais tradicionais grupos de sotaque e de orquestra do Maranhão que em 2009 completou 50 anos.

Seu Raimundo trabalhava na segurança de bandidos perigosos e tinha sobre si grande responsabilidade. Ninguém entrava ou saía sem sua ordem. Pois bem, num certo dia chegou dois sujeitos presos acusados de badernagem e foram inclusive violentamente agredidos pelos policiais, esse tipo de prisão é rotina, a diferença é que esses dois sujeitos eram cidadãos de bem, tinham formação e não cometeram nada, nada foi achado ou provado contra eles. Acredita-se que foram fruto de uma armação.

Um fato interessante que clamou a atenção, segundo relatou do próprio Sr. Raimundo. Foi quando os caras já presos e machucados começam a cantar como quem estava feliz, trazendo uma comoção muito grande entre os presos e até mesmo entre os guardas. Seu Raimundo garante que dormiu ouvindo os cânticos e acordou com um barulho muito forte. – “Parecia uma barroada (batida) de frente entre duas carretas. Misteriosamente os cadeados se abriram e as portas de ferro se escancararam deixando toda guarda vulnerável, seria uma fuga em massa como nunca vista na história daquele presídio de segurança máxima”. Disse ele.

Ora, pra um cabra que veio de Axixá não era de se estranhar que ele pensasse que era coisa do “bicho feio” e foi o que ele pensou mesmo. -”Foi um barulho tão danado que eu acordei de um pulo e quase me borrei de medo quando vi todas as portas escancaradas, os presos gritando, uma nuvem de poeira nos corredores… foi um troço de louco”. Disse o carcereiro. Ele ficou tão desesperado com a certeza de que todos fugiriam e que não poderia jamais justificar as fugas e ainda seria lixado, que pegou sua arma e atentou instintivamente contra si próprio querendo se matar. Mas outra coisa interessante aconteceu: Os dois homens que cantavam e que pra ele, tinham poderes, gritaram e correram até ele impedindo que naquele momento houvesse uma tragédia, um suicídio, e mais interessantes ainda, eles não permitiram que nem um preso fugisse. Que coisa hein!

Eu acho que alguém ainda vai fazer um filme dessa história porque ela é realmente impressionante. Tanto que depois, eles, os dois homens presos e seu Raimundo Nonato jantaram juntos e conversaram bastante. Eles foram reconhecidos como inocentes pelo Estado inclusive com um pedido formal de desculpas e a história foi mais longe, os cabras ficaram amigos duma tal maneira… Sim, do tipo irmãos de fé. Ora, se até batizaram os filhos de seu Raimundo.

Se alguém souber mais dessa história me conte. A verdade é que por privacidade os dois rapazes são conhecidos apenas pro Silas e Paulo. Tentei achar mais coisas na internet sobre Raimundo Nonato da Silva, mas assim como José de Ribamar, tinha tanta gente com esse nome que achei até quem não presta, aí eu desisti.
Fato é, cantar, faz bem pra sua alma, pra alma dos outros e por incrível que pareça pode até quebrar cadeias.

Um xêro pra quem gosta da gente.

Rubão

2
out

Mas eles não estavam mais ali

   Posted by: Rubao   in Melhores Artigos, Papo aberto

criancasnaagua.jpgJoão tinha 22 anos quando saiu de sua casa no interior de Pernambuco deixando a família, toda uma história, e aventurou-se solitário naquele ônibus entoando seu monólogo apenas para aquela janela transparente que misteriosamente misturava lembranças do que ficou, coisas novas correndo do outro lado do vidro e a expectativa do que a vida lhe traria. O ônibus seguia com destino a Campinas, grande cidade próxima à capital São Paulo.

João, como milhares de nordestinos, partiu a convite de parentes pra tentar a sorte na cidade grande. Era uma oportunidade imperdível de estudar, trabalhar e quem sabe, um dia voltar pra “terrinha” como orgulho de seu povo.

O Jovem chega e depara-se com uma avalanche cultural a começar pelo sotaque carregado, era estranho, ouvir e ser ouvido. Também o clima frio inimaginável em Pernambuco. Pra ele, uma camiseta e uma camisa de mangas compridas por cima resolveriam qualquer novidade climática, coitado! Além da surpresa a bronquite, a vegetação diferente, culinária diferente (sem aquela farinha), ritmo de vida acelerado, algumas coisas trocadas como, por exemplo: A macaxeira era mandioca e a mandioca era macaxeira, mas com pouco tempo João se familiarizou com a cidade e as coisas, e começou a “caminhar com seus próprios pés”, superou os desafios da saudade com novas amizades, conseguiu emprego e saiu da casa dos parentes pra dividir república com amigos sonhando alto com a nova vida.

A cidade grande além de muitas oportunidades oferece também os perigos da violência urbana que vão desde seqüestros relâmpagos até ao violento e malvado trânsito que não perdoa classe, cor ou credo.

Pois bem, João se torna vítima do caos urbano quando recebe num final de tarde a triste notícia de que seus parentes, os únicos ali naquele mundão de meu Deus, sofreram um terrível acidente voltando pra Campinas e faleceram. A cabeça de João dizia pra ele: Corre, pára, telefona, fica calado, grita, chora, consola, faz alguma coisa, procura informação, informa… Tudo ao mesmo tempo.

João ainda incrédulo olha em sua volta e vê um grupo de amigos consoladores e solidários, mas aqueles que o levaram, os únicos que ele conhecia até pouco tempo em Campinas, eles não estavam mais ali. Como administrar dor, saudade e questões? Como calar as perguntas que se organizam, fazem fila e gritam exigindo explicações?

Todo semana surge no Brasil uma nova ONG a partir de alguém que teve sua história marcada pela violência. Ninguém é tão sensível a esse monstro como aqueles que foram vítimas dele. Só quem passa é que sabe.

Pois bem, se você trocar Pernambuco por Maranhão, Campinas por Anápolis-GO e João por meu nome, você concluirá que essa história é a minha história. E é mesmo. A minha querida prima Flor (Nini) e seu esposo, meus únicos conhecidos no Centro-Oeste me trouxeram pra cá, e de uma hora pra outra, numa mistura de imprudência ao volante com a indecência de nossas estradas, eles e o filho mais velho, numa tarde cinzenta de domingo, antecipam o fim da história num trágico acidente voltando pra Anápolis. Pronto, fiquei “órfão”! Todo mundo que eu conhecia se foi, eles não estavam mais ali. Era uma sensação esquisita quando eu olhava pra rua e dizia: Ali mora dona Célia, ali mora Gilberto, aquele doutor é bom médico e bom visinho, aquela galera é minha amiga e me conhece pelo nome. Tudo a partir de alguém que… A minha esposa quando solteira morava na casa de frente da casa da minha prima, e foi lá que eu a conheci. Que doideira! Daí veio faculdade, banda, família, irmãos do peito, um universo de coisas e amigos em “outras terras” que eu não conseguiria contar nas mãos, nos pés e nem nas folhas. Mas eles não estavam mais ali.

No Maranhão, filho de primo é sobrinho. (ponto). Na época, três filhos da minha prima, portanto meus sobrinhos, que não estavam no carro e tinham menos de dez anos, ficaram órfãos e sofreram todo tipo de pressão psicológica que se possa imaginar. Não é fácil entender nessas circunstâncias o que é Dia das mães, pai herói, medo de escuro, comida saudável, puberdade, ser visto sempre como um coitado, conviver com respostas que não gostaria de dar, enfim, ser órfão. Isso acontece todos os dias, mas assim como nas ONGs, interessa mesmo é pra quem sente na pele. Eles dizem que “Deus tem um plano e sabe todas as coisas”. Palavra deles. Amém!

Outro dia passei lá “na rua” a calçada onde eu gostava de sentar com meu violão em meados dos anos 80, no friozinho de um sábado ao final da tarde, tava lá, o mesmo asfalto tava lá, alguns vizinhos ainda estavam lá, mas eles não estavam mais ali.

Meus sobrinhos vão bem obrigado! Estão formados e encaminhados na vida, acreditam em Deus como Senhor do universo e ainda me chamam de tio, e ai daquele que não chamar. “Respeito é bom e conserva os dentes”. rsrs. Ficaram órfãos, mas não desamparados, nunca vi nenhum deles mendigando o pão e nem questionando Deus por coisa alguma, eu também não questiono.

Um xêro pra quem gosta da gente.

Rubão

2
set

Chicote doido

   Posted by: Rubao   in Melhores Artigos, Papo aberto

corpoemas_18.jpgAcabei de chegar da Feira do Livro de Brasília. Fique mais de 5h em pé, devorando livros, almanaques, livros, origamis e livros. Minha menina fez a festa, e  nós as contas do investimento. Foi um bombardeio de literatura, arte e informação. Esse ano quem me chamou muito a atenção foram os “cabras do Cordel”. Perece que as letras se lhes escorrem dos dedos. Então empolgado pelo clima, me atrevi a riscar, esse, que se cantado, seria um repente.

 

Chicote Doido

Chicote doido, chicote de dar em doido
Chicote doido vai bater noutro lugar.

Sou nordestino barulhento, enjoado
Vim pra animar a festa desse cidadão honrado
Mas não vou ficar calado diante da hipocrisia
Que é a praga deste mundo e que destrói a alegria
Que provoca esse rapaz simpático e inteligente
Que esta se rindo de lado, pois falta um dente na frente
Ele é um grande amigo meu, mas está muito carente.

Se ele esta muito carente, olhe bem pra este outro
Tá com a cara de faminto, mas comeu uma qualhada
Só que não foi um copinho, foi logo uma latada
E tudo embananou-se num purum pum-pum danado
Que incomodou num raio de 10.000 m 2
Derrubando homem valente, não no murro, no desmaio
Esse bicho é amigo meu, mas está desmantelado.

Pode estar desmantelado, mas é um cara bacana
Que que eu digo deste outro, que parece um pau-de-cana
Que até o sol derrete perante sua boniteza?
Que faz barata cuspir e dá enjôo em gambá prenha
Tem sorriso de dragão e bafo de urubu
Que que eu vou dizer pro mundo se isso for mesmo beleza,
Se ele também é amigo meu e contraria a natureza?

Já percebi que nessa roda tem doutor
Homem estudado, formado lá na faculdade
É com respeito seu doutor advogado
Que eu lhe chamo pro repente diante dessa platéia
Que tem moça sorridente e uns três com diarréia
Tem bicudo orelhudo todo metido a galã
Com a cintura no pescoço sonhando em ser modelo
Pra ele é encantamento, mas pra nós é pesadelo.

Já que o senhor é doutor pode tomar a palavra
Mas pra conservar os dentes, pense bem na sua fala
Todo cuidado é pouco quando for mexer comigo
Se sobrar para o senhor eu não me responsabilizo
Seu doutor é estudado treinado na falação
Mas, difícil é burro brabo e eu amanso uns três por dia
Para mim é brincadeira, pro doutor é agonia.

Aqui na cidade grande só se diz que é doutor
Quem passou na faculdade de engenheiro, advogado
Medicina, professor, de repórter e “agronomista
Lá pra nós é diferente, basta ter 16 anos
Passar dos 40kg, viajar pra todo lado
Ser macho e atrevido que o cabra já tá formado
Pelo que passei na vida eu já tenho é doutorado.

Tenho fama de brigão, mas é que o povo fala muito
Olhe que eu sou legal fui até com sua cara
Outro dia apareceu um fulano Bruce Lee
Metido que nem garrote com olhim de jutirí
Só dei-lhe um, no pé da venta que o japa desembestou-se
Fugindo que nem cigano, e eu não peito infarento 
Porque cada muro meu é um coice de jumento.

Eu não sou um psicólogo, mas já percebi de longe
Tem uns três aqui rezando sorrindo pra não chorar
Desde que eu tô cantando não mudaram de lugar
Já que o cheirinho incomoda, disfarce e dê uma voltinha
Com esse sorriso amarelo de melão morrer de inveja
Pode sair de fininho que eu já vi a borradeira
Diga que é indigestão, mas eu sei que é caganeira.

Eu já vou me retirando, pois já conversei bastante
Se o convite for refeito quem sabe volto outro dia
E eu pergunto o que seria desse artista sem vocês?
Se o amigo me pedir vou cantar tudo outra vez
E pra quem não é murrinha e tem um bom coração
Colabore com um real ajudando o “Maranhão
E se gostou que bata palmas
Pra esse filho do sertão.

Um xêro pra quem gosta da gente.

Rubão