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10
jun

Zezin o chatinho lá de casa

   Posted by: Rubao   in Papo aberto,       

Somos uma família nordestina de muitos irmãos, somos tantos que meu pai quando quer chamar por um de nós ele fala o nome de pelo menos cinco pra acertar um, ele grita: Chico, Toin, Jorge, Juscelino, Januáro. E ele queria falar só com Januário, mas é que confunde mesmo. Somos aquele tipo escadinha.

Nosso irmão quase o derradeiro e muito dengoso, é o Zé Pêdo, mas a gente o chama só de Zezin. Pense num meninozin chato, metido a sabedor de tudo quanto há, implicante que só fí de açougueiro e dedo duro que só vizinho de parteira. É ele. Como diria uma prima minha lá de São Luis. “Ele é muito antipático, passa o tempo me chateando”.

Uma vez, meu pai viajou e deixou um recado que era pra gente assim que chegasse da roça, tomar banho rapidinho e ir pra igreja lá na cidade, por que ia ter um pregador de fora e a gente tava precisando ouvir umas palavras pesadas, pra ver se melhorava. Hum! Ainda fomos! A gente foi, foi jogar bola, já chegamos com um time completo. Má rapá, o pai não tava lá mesmo.

Sabendo como Zezin tinha a língua grande, demos um arrocho nele. Meu irmão do meio desse pra ele: ”Eu vou arrancar tua orelha se tu disser pro pai que nós fomos jogar bola”. Ele fez uma cara tão lerda que eu já sabia que aquele covarde iria entregar a gente.

Meu amigo, o pai voltou no outro dia, mas antes mesmo do pai descer da burra, Zezin já foi contando: – Painho, nenhum dos meninos foi pra igreja, eu fui sozinho naquela escuridão e eles é que perderam porque o pregador falou só sobre eles, parece até que conhecia as peças e eles lá no campinho jogando bola até…, sem falar que falaram que iriam arrancar minha orelha se eu contasse pro senhor. Humm! Fofoqueiro infeliz. Painho nem pensou. Chamou um por um, e foi só chegando menino. Moço, mas ele deu uma surra com cipó de goiabeira (ele entorta, mas não quebra, e dóóóiiii), mas bem dada que  eu tenho marca dessa surra até hoje.

Outra vez ele inventou um sonho dizendo que ele é era um monte de capim que ficava em pé e a gente também era capim , mas a gente ficava ao redor como que servindo e dependendo dele. Pode um cara desse?

Nosso pai não escondia que gostava mais dele e ele era inteligente mesmo, mas era muito chato e ainda inventava essas história pra aporrinhar a gente. Um dia painho mandou todo mundo pra roça inclusive  Zezin, o Chato. Meus irmãos queriam era matar de tanta raiva que a gente tinha dele, mas eu como mais velho sugeri que a gente mandasse ele pro Goiás com uns cabras tropeiros, só que antes todo mundo deu pelo menos um coque (cascudo) de conforça mesmo. Aí inventamos (eu) pro pai, uma história de ele havia sido mordido de cobra e que quando o achamos umas caças já o haviam comido, a gente só enterrou o restante pra ele não ver aquilo. Foi assim na cara dura mesmo. Levamos só a camisa veia dela toda rasgada. Mas deu dó de ver o pai chorando daquele tanto, três dias sem parar, fazer o que? Ninguém iria desmentir né?

O Tempo passou e painho Já tava velho, mais de cem anos. A gente pensava em fazer uma festa pra ele, mas o sertão secou de tal forma que só sobrou a gente por aquelas bandas, saímos no mundo pra buscar alguma coisa, sei lá, trabalhar em qualquer coisa. Até que encontramos um doutorzão famoso, foi o único que arrumou algo pra nós. Ele gostou tanto que mandou chamar nosso irmão casula e até o pai que nunca tinha atravessado nem o Tocantins, pense numa labuta pra tirá-lo de lá. Pois foi. Agora é o seguinte: esse povo de cidade grande não é que nem nós não, eles são desconfiados, o doutor só deixou eu voltar pra buscar o velho. Os meninos tiveram que ficar como garantia. Se bem que ele já era como um segundo pai pra nós, se ele arrotasse a gente gritava: – Saúde doutor! Do tanto que a gente gostava dele. Ora! Foi ele quem acolheu a gente.  

Um dia tava todo mundo reunido, e aí chegou um recado de que o doutor tava muito nervoso e queria falar urgente conosco. Quando eu vi que o doutor tava chorando e tremendo. Eu pensei logo na besteira que um dos meninos poderia ter feito, eles andavam meio estranho mesmo, e tem dois deles que são namoradores que só a peste e não é por que são meus irmãos não, mas na conversa dos meninos se não cair, é porque morreu em pé. Eu já tava preparado pro pior. O doutor enxugou a cara, ficou em pé e a gente em volta dele de cabeça baixa, pensando todo tipo de besteira do mundo. 30 anos de cadeia era o pensamento mais fraco. Aí ele falou: - Meninos, cadê Rubem o mais velho de vocês? Ê medo da moléstia! Eu disse:

- Tô aqui doutor.

- Rubem, você e seus irmãos não estão entendendo nada, mas a verdade é que eu não consigo mais guardar segredo, eu sou Zé Pedro, Zezin o irmão de vocês, aquele que vocês pesaram até em matar e resolveram me vender como peão. Saibam que tô muito feliz em ver vocês e que não guardo nenhuma mágoa de ninguém e quero que vocês e o pai fiquem aqui comigo.

Ê choradeira arretada! Ele ao centro, em pé e nós ali ao redor dele, ajoelhados como no sonho.

Um xêro pra quem gosta da gente.

 

Rubão

15
mai

Programa Plataforma

   Posted by: Rubao   in       

Esta semana no Plataforma:

Rubão canta - Nordestinamente

www.plataforma.art.br

30
abr

Eu topei com Jesus

   Posted by: Rubao   in Papo aberto,       

Mas quem ainda não topou se deparou ou se encontrou com Jesus? Todo mundo de alguma forma, ou da sua maneira diz que já encontrou Jesus.

 Na minha faculdade tinha um professor que dizia que Jesus pra ele era aquela mesa no centro da sala. Tinha umas crentes na turma que ficavam enfurecidas e queriam provar que aquilo era um absurdo e tal. Nunca provaram. Até porque segundo o cristianismo quem faz esse convencimento é a terceira pessoa da Trindade e não os crentes.

Eu por exemplo posso dizer sem estar mentindo que sou sobrinho de Jesus, e explico: Meu avô resolveu colocar no seu primeiro filho, irmão mais velho da minha mãe o nome de Jesus Rodrigues. Sou ou não sou sobrinho…? Mas a família não se contentou e outro tio colocou o nome do filho dele de Jesus Almeida. Posso concluir então que sou sobrinho e primo de Jesus, e isso não é segredo não, ta tudo registrado lá na região de Pedreiras no interior do Maranhão. Mas há que foi mais longe e por se achar enxuta e poderosa resolveu namorar com um tal Jesus, o Luz, e namorou. E se você acha que já viu tudo eu vou provar que ainda tem mais.

Semana passada, fui com a primeira dama a uma grande loja de conveniências comprar umas luminárias, e entre muitas novidades, lançamentos, abajus exóticos, chuveiros de última geração, etc. Eis que surge em minha frente o inusitado com sua roupa de época cercado por uma equipe de seis ou sete pessoas formada por um homem e o restante de mulheres todos usando sandálias de couro (sem poeira), um vestido longo azul claro tipo chambre: existe ainda isso? Alguns usam um gorrinho de crochê branco, outros uma bolsinha cruzada no peito tipo aquela de Davi pra colocar pedrinhas. Também não passava despercebido o padronizado corte de cabelo sem estilo, ou melhor, com o estilo “vaca lambeu” e ao cento e a frente ele, Inri Cristo, o próprio. Eu sinceramente não acreditei que era ele, bem ali na minha frente, pertinho de mim, caminhando humildemente, falando com os seus… Pensei até em pedir-lhe uma graça: Que ele pagasse as minhas compras. Pensei também em apertar-lhe a mão pra ver se sentiria algo sobrenatural ao tocar-lhe, mas me contive e resolvi seguir-lhe de longe pelos corredores e prateleiras da loja com fez Pedro e pode ter certeza: Eu o negaria mais de três vezes.

Bruscamente ele parou e eu me senti como quem estava sendo visto ou percebido, como a mulher do fluxo de sangue em meio à multidão. Muitos o olhavam, mas ele se virou e veio em minha direção, então me senti um Zaqueu a um trís de ser convidado a descer depressa. Eu até ensaiei uma disfarçada, mas a virada foi muito brusca e todo o cortejo caminhava após o líder rumo a este pobre mortal. Acredite se quiser, mas naquele salão havia algo entre nós mais importante que eu, bem ali a cerca de três metros estava algo que pra meu alívio e um pouco de decepção. Nem sei como explicar isso. Fato é que ele não tinha nenhum recado pra mim, seus olhos azuis como no original (de Hollywood) se sensibilizaram por uma simples e humilde banheira de hidromassagem de quase R$ 4.000,00. Ôoou! Perder pra uma moça bonita ainda vai, mas pra uma banheira…

Este cidadão de aproximadamente 1,86m, cabelos longos encaracolados, pele clara e que gosta de comparar sua cara com a do Santo Sudário, chama-se Inri Cristo, e atualmente mora em Brasília. Tinha que ser né? Até aí tudo bem, mas o que o diferencia de fato dos “outros” é que ele afirma ser o filho de Deus, aquele que veio ao mundo nascido da virgem Maria em uma manjedoura em Belém da Judeia, ele se diz “O Emissário do Pai”, revela que é Jesus, aquele que morreu na cruz e hoje reencarnado tem nova missão na terra, olhem o que ele fala em seu site:

“Há dois mil anos, como vim na condição de redentor, resgatei os pecados que a humanidade cometera por minha culpa até a crucificação. Quem pecou depois pecou por conta própria e terá que responder pessoalmente por seus atos. Agora que meu PAI reenviou-me como juiz, à exceção dos que vêm à minha presença pedir perdão enquanto estou no período da reprovação, julgarei cada um de acordo com suas obras. Portanto, não será possível perdoar os pecados de todos; um juiz que só perdoa promove a injustiça e estimula a delinqüência (’Eu, aos que amo, repreendo e castigo. Tem, pois, zelo, e faze penitência’ – Apocalipse c.3 v.19)”.    

E continua:  “Para quem vende meu nome antigo (Jesus), é muito fácil sair por aí dizendo: ‘Jesus faz milagre’, ‘Jesus cura’, quando na verdade quem cura e faz milagre é DEUS. Estes são os falsos profetas cuja vinda eu previ há dois mil anos: ‘Orai e vigiai, que ninguém vos engane, porque falsos cristos e falsos profetas virão em meu nome, farão prodígios e enganarão a muitos.”   

Se eu fosse louco, diria que sou sobrinho de Jesus, e primo de Jesus, e que me encontrei face a face com Jesus Cristo o filho de Deus reencarnado e em Brasília. Mas com eu não sou louco, fico apenas com as duas primeiras afirmações.

Um xêro pra quem gosta da gente.

Rubão

25
fev

Pérolas do Coletivo

   Posted by: Rubao   in       

Você já andou de coletivo? Eu descobri que a molecada lá em casa mesmo sendo filho de pobre nunca andou de coletivo.  Então resolvi perguntar pra um guri lá da Comunidade se ele sabia o que era andar de coletivo. A resposta: – É andar em grupo tio?

Andar de coletivo pra quem não sabe é andar de ônibus, desses que circulam pela cidade. Perece brincadeira né? Mas quer ver uma coisa – Qual foi a última vez que você andou de coletivo? Pra quem faz muito tempo, a resposta geralmente começa com “Já faz um tempão, mas foi um tempo de muita ralação” e termina com “Bons tempos que não voltam mais”.

Outro dia andando num coletivo e não estava muito cheio, percebi que o motora do dia, não era um cara comum, além de dar sempre uma meia freiada e duas buzinadas pras gatinhas do outro lado rua, o cara usava um óculos de surfista bem extravagante, acho que a cor era amarelo queimado. Há um padrão de uniforme nas empresas de ônibus que é calça preta e camisa azul tipo bata, mas nada que impedisse o motora de usar por baixo e quase que cobrindo todo o uniforme uma camisa de artista, mas artista de verdade lembrando Alípio Martins, Lindomar Castilho, Bartô Galeno ou mesmo Raimundo Soldado (só alguém muito desatualizado pra não conhecer esses ícones da música brasileira) lembrei até de um artista lá da Anápolis que ficou famoso com a música “O seu gato é gay” Seu nome era Ailton José, nome artístico claro, mas ele passou pra lei de crente e como teve uma mudança profunda e  tornou-se um artista de Deus resolveu também mudar de nome, hoje ele é o cantor José Luis, o ex- Ailton José. O cabra cristão é criativo né não?

 Voltando ao motora, ele dirigia conversando com o cobrador, contando vantagem de mulheres sempre olhando no retrovisor e arrumando de cabelo que lhe cobria as orelhas, é impressionante o tratamento que ele dava pra cada moça que subia no ônibus, melhor ainda era a cara das moças depois do Olhar 46 dele, acho que elas não acreditavam. Ele não dizia nada, mas obviamente, se achava. O show saiu barato pra quem tava só assistindo, é como se seu motorista particular fosse um artista do rádio e da televisão.

Fui mais pro meio, e de repente um celular toca ao som de “Festa no Apê”, a moça atende e começa a conversar em voz alta. Ninguém tava a fim de saber da vida dela, mas ela não se tocava e contava tudo, de marido ciumento a visinha fofoqueira. Três coisa me chamaram a atenção: 1º- Por que eu não tenho tanto crédito no celular? 2º- Por que minha bateria não dura tanto? 3º- Graças a Deus eu não sou louco de ficar contando minha intimidade, por “horas”, pra todo mundo. Depois de um tempão de conversa fiada ela deu um  ”tchau…beijo”. Ufa! Agora estou livre pra pensar no que quiser, pensei. Três minutos depois…  “Vai ter festa lá no meu apê” Aí não, isso é tratamento. Fui lá pra trás e sentei quase na ultima cadeira.

De repente começou uma gritaria lá na frente, um susto em todo mundo, mas a paz veio quando percebemos que era um artista ambulante, o cara é muito bom. Depois de chamar a atenção com os gritos ele começou a provocar o motorista dizendo já o viu num programa de TV e começou pedir autógrafo e a pedir que a galera tirasse foto no celular dele ao lado do “artista” motora, além de procurar uma câmera escondida dizendo que devia uma pegadinha . Haha! Aí ele partiu pras imitações das meninas de cada cidade satélite andando em pé no ônibus, ele foi dos setores mais pobres até uma “Patricinha” do Lago Sul, a galera chorava da rir.

Não demorou e ele resolveu mexer com o povão e começou a a cantar e dançar paródias, depois inventou de senta no colo das pessoas, passar flanela na cabeça dos carecas (eu estava de boné) provocou todo mundo até se virar pro cobrador a dar um grito: Juvenal!! Haha! E continuou dizendo que tudo aquilo é pra chamar a atenção dele, que eles eram um caso antigo interrompido por ciúmes, mas ele deveria perdoá-lo. O cobrador não gosta nada, claro! Mas aí é que ele mexeu mesmo, a galera dando risadas e gritos, então, ele pede silêncio e diz bem alto: – Vocês devem estar duvidando de mim, mas eu provo que é verdade, querem ver? O coro unânime grita. Queremos! Ele continua: – Motorista mais galã de Brasília, se esse caso de amor é verdadeiro dê três buzinadas por favor. Haha!! O cara nem esperou e bip, bip, bip. Com essa até o cobrador caiu na risada.

Depois de muita brincadeira ele distribuiu seu cartão pra galera, pediu desculpas por qualquer coisa e disse que era um artista popular que trabalhava em festas de empresas, aniversários, rua, etc. e que sorrir faz bem pra alma, quem da risadas trabalha melhor, vive mais feliz, e que todos deveriam lembrar de agradecer a Deus por ter acordado, por ter um trabalho, uma familia e que as lutas são parte da vida, mas com fé em Deus a gente vence. A galera bate mais palmas e muita gente inclusive eu, colaborou com um real no chapeu que ele passou. Um cara só tinha duas moedas de vinte e cinco centavos e deu, ele perguntou:  – É só isso que vale o meu show seu infame, cinquenta centavos? Foi só mais uma brincadeira.  Ele agradeceu a colaboração é concluiu: – Pessoal, eu trabalho com essa arte de levar alegria há mais de 10 anos aqui em Brasília e graças a Deus o meu tão sonhado reconhecimento chegou, nesse domingo pela manhã eu estarei  às 10h na Globo quem puder me ver pra dar IBOPE eu… A galera interrompe a fala com mais salva de palmas.  – Calma gente, a Globo é uma loja de Materiais de Construção lá na Ceilândia. Fiquem com Deus.

Um xêro pra quem gosta da gente.

Rubão